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Depois dos incêndios, das cheias, das tempestades de vento e das depressões físicas e mentais, meio mundo sonha com um belo dia de praia. Mas, se houve estradas destruídas, cidades, vilas e aldeias ‘ceifadas’ pela brutalidade do vento, também as praias, muitas delas, não ficaram nas melhores condições. Além dos plásticos, dos restos de madeira e restante lixo que deram à costa, transformando algumas praias em lixeiras a céu aberto, há também as arribas que ficaram em maior risco e muros que caíram quase na totalidade. E serão estes os grandes desafios, no imediato, da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), juntamente com as câmaras municipais. Para as intervenções imediatas, até maio, a APA tem 15 milhões de euros , e mais 12 milhões até ao final do ano. A curto e médio prazo, a APA terá 84 milhões de euros para «intervenções no âmbito da reparação de danos e adaptação a alterações climáticas».
Um dado garantido é que as tempestades Ingrid, Joseph, Kristin, Leonardo, Marta e, eventualmente, a depressão Therese afetaram 147 praias (locais) resultante das mais de 500 ocorrências. Será pois uma luta contra o tempo para conseguir que de norte a sul as praias estejam ‘operacionais’ na época balnear, que começa já em maio em boa parte do país.
O dinheiro disponibilizado será usado para a reparação de obras de proteção costeira e de cordão dunar em Caminha, Esposende e Espinho, bem como de limpeza e melhoria das praias, prática que se espalhará a todas as praias. Já no Centro, em Ovar, Vagos e Figueira da Foz, a APA aposta na reparação de obras de proteção costeira, limpeza de detritos e reparação de acessos.
Na designada, pela APA, região do Tejo e Oeste, as praias de Alcobaça, Caldas da Rainha,Cascais, Lourinhã, Mafra, Peniche, Sintra e Torres Vedras o dinheiro será usado na reparação de obras de proteção costeira e reparação de acesso.
Continuando a descer para sul, em Odemira e Setúbal a intervenção imediata irá incidir na reparação de acessos. Já no Algarve, de Aljezur a Vila Real de Santo António será preciso apostar na reparação de obras de proteção costeira e nos acessos às praias.
«Temos um plano que tem um valor de investimento, até maio deste ano, de 15 milhões de euros, para reparar zonas mais emergentes e mais imediatas. No fundo, temos uma estratégia com dois momentos. O que é emergente e imediato e aquilo que é de curto e médio prazo. E é para quê? Estabilizar arribas, repor acessos à praia. Limpeza das praia. E, acima de tudo, garantir que quem vai à praia esteja em segurança. Não posso abrir uma praia que tem níveis de risco. Não podemos», diz, ao Nascer do SOL, Pimenta Machado, presidente da APA.
A importância dos restaurantes
Foquemo-nos agora noutros problemas que as pessoas vão enfrentar durante a época balnear. Os restaurantes e esplanadas que quase voaram estarão em condições de estar abertos ao público? E, se assim não for, quem irá garantir que haverá praias limpas, com casas de banho de acesso universal e com nadadores salvadores? Isto é, quem pagará esses serviços? Afinal, na maioria dos casos, todas as questões de segurança passam pelos concessionários dos restaurantes de apoio às praias, que pagam a nadadores salvadores, que limpam as praias e que mantêm, por exemplo, as casas de banho abertas e limpas a todos os utilizadores, independentemente de serem ou não clientes, algo que tem provocado o desagrado de concessionários que são obrigados a gastar dinheiro com quem não consome no seu espaço comercial. «É inacreditável como temos de pagar a água, os empregados e os produtos de limpeza, além de que os nossos clientes ficam com menos qualidade de serviço», desabafa ao SOL um empresário que prefere o anonimato. Se os concessionários descurarem a limpeza da praia ou das casa de banho, assim como o número de nadadores salvadores, podem ser multados ou mesmo ficar sem licença.
Há casos em que quem explora as espreguiçadeiras e os toldos, logo paga aos nadadores salvadores, não é o empresário da restauração local – mas são uma minoria.
«Temos que ver as zonas que foram afetadas, se há condições para a praia abrir… Há aqui uma incerteza. E o conjunto de variáveis, que são analisados caso a caso, praia a praia, face àquilo que foi as tempestade destes últimos meses. Há obras que é preciso fazer, mas temos que minimizar o impacto destas cheias na época balnear. Isso é o que vamos fazer», acrescenta Pimenta Machado.
Para o presidente da APA, as regras são bem claras. Se tudo não estiver em condições de garantir a segurança dos banhistas, e não estiver tudo devidamente legalizado, as praias não abrirão ao público. Machado gosta de pôr a tónica na segurança e diz que, por ano, são feitas mais de 10 mil análises à água do mar para se saber se está própria para consumo, que é como quem diz, para banhos. «É preciso garantir que quem vai à praia, dá um mergulho em segurança. No início da época balnear, há vistorias, em conjunto com as câmaras municipais, que são feitas às concessões de praia para verificar se estão a cumprir com as condições que fazem parte dos contratos de concessão».
Por fim, Pimenta Machado alerta para o problema do areal. «Muitas praias perderam a areia em razão destas tempestades. Mas há uma coisa que sabemos. Sabemos que quando o mar e as tempestades marítimas acalmarem, o mar vai-se encarregar de repor a areia. Acalmando o mar, ele depois vai repor a areia que tirou das praias. Pode não repor a areia toda que levou. Mas que vai repor, vai. Nós vamos fazer esta avaliação agora. No mês de abril, vamos ver a areia que retirou, a que repôs, e depois tomar aqui algumas decisões, sempre em articulação com os municípios. Olhando para as praias que ficaram sem areia, temos o caso de São Pedro de Moel, em que o mar já repôs muita da areia que tinha levado. É esse trabalho que estamos a fazer agora. É uma espécie de penso rápido, para estabilizar, por exemplo, o muro que ameaça colapsar, como é o caso do de Moledo, em Caminha. Depois, com mais tempo, vamos dar uma resposta mais planeada».