Há pessoas de quem teremos saudades embora nos tenhamos cruzado apenas numa tarde, embora não nos tenham sido nada, e não possamos propriamente desfiar memórias mais ou menos íntimas, localizar gestos ou expressões, mas ficaram-nos apesar de tudo, pela deslocada alegria com que exprimiam mesmo uma certa deceção com o mundo, por essa sensação que transportavam de que realmente foram atraiçoadas, pois vieram para a vida e tudo fizeram contra que esta se desgastasse no desbarato dos dias. Tinham uma paixão de que se recusavam a abrir mão, e, por isso, mesmo que as tenhamos encontrado mais tarde, parecem pertencer aos dias da nossa juventude, quando era sempre possível mudar alguma coisa neste mundo. «Os bons professores, os que alimentam a chama nascente do aluno, são talvez mais raros do que os músicos virtuosos ou os sábios. Entre os professores do ensino elementar, instrutores da mente e do corpo, são alarmantemente escassos os que têm plena consciência daquilo que está em jogo, do equilíbrio entre confiança e vulnerabilidade, da fusão orgânica entre responsabilidade e sensibilidade» (Steiner). Maria do Carmo Vieira não foi minha professora, não tive tanta sorte.
É evidente que um professor não transmite apenas conhecimentos, mas também uma certa temperatura moral. Um verdadeiro mestre preocupa-se antes de mais em estimar a atenção daquele que o ouve, expandi-la, procurando deixar-nos o mais à vontade possível na «misteriosa incandescência do saber», para recorrer uma vez mais a uma expressão usada por George Steiner na obra As Lições dos Mestres, que, na sua última reedição pela Gradiva, afortunadamente, viu o editor pedir um prefácio a Maria do Carmo Vieira. Em vez dessas nulidades que pingam de satisfação e enchem a boca de termos como «novo/inovação», «funcional/utilitário» e «facilidade/lúdico», a professora e ensaísta que morreu na passada terça-feira, dia 4, aos 74 anos, procurou defender aquela ânsia de preservar os núcleos do saber mais desafiadores nos currículos, não abdicando das lições dos mestres que inspiram uma ânsia de diálogo, de riscos partilhados de sensibilidade e intelecto. Procurou por todos os meios ao seu alcance levantar uma barrela e denunciar a corte de «revisionistas» e de «pedagogos frustrados», que não arriscam perder recompensas, e que assumiram a definição das políticas de educação, submetendo-se sempre primeiro que tudo aos interesses económicos.
Maria do Carmo Vieira foi, entre nós, uma das vozes mais empenhadas no combate e denúncia da reforma do sistema educativo que vem sendo levada a cabo desde os anos 90, a qual impôs às escolas uma série de ensaios metodológicos «em que os professores foram forçados a participar, quais tristes ratos de laboratório sujeitos a dolorosas experiências». Tendo pago um alto preço, ao ver-se forçada a abdicar da sua paixão como professora do ensino secundário, nunca se cansou de denunciar «uma fúria censória, obcecada pelas múltiplas solicitações de empregadores», que atingiu e desfigurou o programa da maioria das disciplinas, com particular enfoque nas de humanidades, «pelo facto de as matérias não constituírem uma ‘mais-valia’».
Quem quer que tenha tido o privilégio de acompanhar esta luta, não deixará de ter reconhecido como o seu aspeto mais pungente era a forma como Maria do Carmo Vieira, com penetrante ternura, nos fazia sentir como uma traição e uma ferida com as consequências mais nefastas essa ocupação do ensino pela asfixia burocrática, pelos enredos gestionários que trucidam todos os valores a custo incorporados a favor do triunfo do atual «mercado da tagarelice».
Outro dos seus cavalos de batalha foi, como não podia deixar de ser, o acordo ortográfico de 1990, essa iniciativa que ilustra na perfeição a funesta arrogância de quem, por decreto, procurou mutilar este organismo vivo, que passou a estar sob ferros, gerando uma confusão extraordinária, porque a norma fora definida arbitrária, ferindo tantos dos elementos da etimologia, e tudo em favor da tão propalada unidade do idioma entre diferentes países que logo se frustrou. No entanto, e como prova da burrice sistemática de quem nos governa, em vez de voltar atrás, persiste-se no erro, num braço-de-ferro em que o poder continua a penalizar sucessivas gerações.
Nascida em Lisboa, em 1952, Maria do Carmo Vieira licenciou-se em Filologia Românica (1975) e fez ainda um mestrado em Literatura de Viagens, tendo publicado ao longo de décadas ensaios, estudos e livros dedicados à literatura e à cultura portuguesas. Dedicou a maior parte da sua carreira ao ensino secundário, sendo que, como vincou a sua irmã, a também professora e filósofa Maria Filomena Molder, destacou-se «pela coragem, pela capacidade de tomar partido, pela sensibilidade ao sofrimento, pelo humor, pela análise aos disparates que o acordo ortográfico fez acontecer a um ritmo alucinante».
Em vez de uma postura de autoridade, procurou sempre assumir uma atitude compassiva, denunciando as imposturas e monstruosidades da nossa época, entre elas a cumplicidade da Europa no genocídio em Gaza, indo ao ponto de defender na última das crónicas com que vinha intervindo ao longo de anos nas páginas do Público, que a civilização ocidental se extinguiu em Gaza.