quinta-feira, 14 mai. 2026

Condutores furiosos destroem radares e Governo promete tolerância zero nas estradas

O Governo decretou ‘caça’ aos infratores do Código da Estrada e quer mais radares e polícias nas estradas. Mas os radares existentes estão a ser atacados por condutores em fúria.
Condutores furiosos destroem radares e Governo promete tolerância zero nas estradas

O anúncio foi feito com a eloquência própria de Luís Neves, ministro da Administração Interna. Os prevaricadores que andam nas estradas portuguesas a causar acidentes, que se preparem pois vão ter a vida mais dificultada. O número de radares vai aumentar, as operações stop não mais vão ser anunciadas – embora o Waze dê uma ajuda a quem quer saber onde estão a ser efetuadas –, um novo Código da Estrada tratará de dificultar a vida aos infratores que conseguem não pagar as multas, a condução sob o efeito do álcool será agravada, e a Brigada de Trânsito da GNR regressará ao ativo.

Depois de ouvir as declarações do ministro, fonte das Infraestruturas de Portugal desabafa ao Nascer do SOL: «Em Portugal continental e nas ilhas, há 169 locais com radares fixos. Desses, apenas 133 estão a funcionar. Em Lisboa, dos 41 fixos existentes, quase metade estão vandalizados, uns por acidente, [como o da foto] na Avenida de Ceuta, pois houve um condutor que se despistou, há seis meses, e destruiu a caixa onde os cabos são ligados; e outros por puro vandalismo, como são os casos da Avenida Gulbenkian e do Areeiro. Alguns condutores furiosos com alguma multa decidem cortar os cabos, depois pegam fogo à caixa e a seguir colocam uma espuma que é muito difícil de tirar. Mesmo em Entrecampos, onde há sempre gente, fizeram o mesmo».

 

Radares que são bonecos

Continuemos na indignação da mesma fonte. «Dos 169 existentes, 26 são de velocidade média. Apenas 16 estão no terreno efetivamente. Portanto, há 10 que são dummies, bonecos, à semelhança de muitos outros. No Túnel do Grilo, estão dois desmontados desde as obras. Na Costa da Caparica, no IC 20, também desmontaram dois por causa das obras. Em Águeda, houve um que foi pela ribanceira abaixo, aquando das tempestades. Tudo isto é verdade, mas nunca passo em excesso de velocidade por qualquer um desses sítios, não vá alguém ter montado um novo», confessa.

«Sabe-se que estavam previstos mais 12 radares, principalmente de velocidade média, mas ainda não se sabe onde vão ser colocados. Se for em locais como a Vasco da Gama, onde diminuíram bastante a sinistralidade grave e mortal, muito bem. O problema é que devem ir para locais onde não há acidentes graves e onde a caça à multa é evidente. Fala-se que querem colocar os aparelhos de velocidade média na Ponte 25 de Abril. Se o fizerem será um disparate terrível, pois vai tornar o trânsito ainda mais caótico».

Além dos 12 radares previstos, a secretaria-geral do MAI tinha aberto um concurso para a aquisição de 52 novos radares em 2025 e 2026. Mas os mais de dois milhões e quinhentos mil euros ainda não conseguiram que os radares para a PSP e GNR chegassem às esquadras e quartéis. «Luís Neves terá que trabalhar muito para conseguir ultrapassar a burocracia que tem tolhido outros atores envolvidos», explica ao SOL fonte da PSP. «Outro desafio é conseguir que os radares existentes não sejam vandalizados e funcionem em pleno, ou que não tenha que esperar pelas seguradoras para os arranjar», acrescenta.

Também a promessa de reativar a Brigada de Trânsito (BT) da GNR_é aplaudida, mas fonte da Guarda questiona como irá o ministro ‘sacar’ os agentes necessários, já que a GNR, à semelhança da PSP, debate-se com uma enorme falta de efetivos. Segundo noticiou o Público, em 2007, ano da desativação da BT, a GNR tinha 2300 militares em exclusividade ao trânsito; atualmente, nos comandos dispersos, estão apenas 1300. «A antiga Brigada de Trânsito da GNR conseguia bons resultados e é por isso que vai ser recuperada. Até para existir uma verticalização da gestão da fiscalização», diz ao nosso jornal fonte do MAI.

 

Recorrer à Inteligência artificial

A aposta do ministro da Administração Interna irá passar muito pelo novo Código da Estrada. A ideia é não dar tréguas a condutores que são reincidentes, ‘atacando’ os condutores reincidentes em manobras perigosas, sob o efeito do álcool ou de outras substâncias. «A par de uma fiscalização mais intensa e mais inesperada, haverá também uma forte aposta em tornar as autuações mais eficazes e mais rápidas», diz ao SOL fonte do MAI.

«É claro que os infratores reincidentes irão ficar com a vida mais complicada, mas queremos proteger todos aqueles que cumprem a lei nas estradas portuguesas. Queremos que se tenha uma atenção redobrada aos utilizadores mais vulneráveis, como sejam os peões ou os ciclistas. Vamos apostar na transformação digital do processo de contraordenações, com recurso à inteligência artificial, para combatermos as prescrições. Digamos que vamos ter tolerância zero às prescrições. É preciso ser capaz de responsabilizar cada infrator. A par de uma fiscalização mais intensa e mais inesperada, haverá também uma forte aposta em tornar as autuações mais eficazes e mais rápidas. O lema é fazer da estrada um espaço seguro. Somos considerados o sétimo país mais seguro do mundo, e depois temos dos índices mais elevados de sinistralidade na Europa. Não pode ser», acrescenta.

Em estudo está também a hipótese de recorrer à inteligência artificial (IA) para ‘controlar’ os condutores mais perigosos, procurando-se identificá-los sempre que andarem na estrada. Recorde-se que em Espanha já há drones e helicópteros a ‘fiscalizar’ as estradas nacionais, e a IA, em alguns países, consegue assinalar os carros que levam só um passageiro e que não podem andar em determinadas vias por isso mesmo. Algo que em Portugal ainda não está no horizonte, mas «não será de excluir o recurso a drones e a helicópteros», diz fonte do MAI.

Por fim, diga-se que as autarquias terão também um papel importante nesta luta que vitimou mais de 448 pessoas em 2025, menos 29 do que em 2024. O ordenamento do trânsito é decisivo para a redução da sinistralidade, dentro e fora das localidades.

«Uma das medidas previstas no plano de ação da estratégia nacional de segurança rodoviária, para o biénio 2026/2027, é a implementação de planos municipais, com o apoio da ANSR, de forma a que cada espaço sob jurisdição do município, dentro ou fora das localidades, tenha a solução mais adequada do ponto de vista de sinalização e de infraestruturas. Por exemplo, evitar transições bruscas de velocidade ou ter passadeiras inteligentes, são alguns exemplos», remata a fonte do MAI.