sexta-feira, 15 mai. 2026

Cientistas criam primeiro mapa do olfato e abrem caminho a tratamentos para perda deste sentido

Investigadores da Universidade de Harvard revelam o primeiro mapa detalhado dos recetores olfativos, uma descoberta que pode revolucionar o tratamento da perda de olfato
Cientistas criam primeiro mapa do olfato e abrem caminho a tratamentos para perda deste sentido

Uma equipa de cientistas criou o primeiro mapa detalhado dos recetores olfativos no nariz, uma descoberta que pode abrir novas portas ao desenvolvimento de terapias para a perda de olfato.

O estudo, conduzido pela Faculdade de Medicina de Harvard e publicado na revista científica Cell, revela que os neurónios responsáveis pelo olfato apresentam uma organização espacial altamente estruturada.

Segundo os investigadores, estes neurónios formam “bandas horizontais” ao longo do nariz, organizadas de acordo com o tipo de recetor, contrariando a ideia anterior de que este sistema era desordenado.

“Os nossos resultados trazem ordem a um sistema que antes se pensava ser caótico, mudando a forma como entendemos o seu funcionamento”, explicou Sandeep Robert Datta, professor de neurobiologia no Instituto Blavatnik da Faculdade de Medicina de Harvard e principal autor do estúdio.

A investigação, realizada com recurso a modelos animais, mostrou ainda que este mapa no nariz corresponde à organização do bolbo olfativo no cérebro, fornecendo novas pistas sobre como a informação dos odores é transmitida.

Ao contrário de outros sentidos como a visão ou a audição, que já tinham mapas bem definidos, o olfato permanecia até agora sem uma organização clara, em parte devido à sua complexidade. Nos ratos, por exemplo, existem milhões de neurónios olfativos com mais de mil tipos diferentes de recetores, cada um sensível a moléculas específicas.

Para alcançar este avanço, os cientistas combinaram técnicas avançadas de sequenciação celular e transcriptómica espacial, analisando cerca de 5,5 milhões de neurónios em mais de 300 animais.

A equipa identificou também o papel do ácido retinoico na organização deste mapa, verificando que a sua distribuição no nariz influencia o tipo de recetor expresso por cada neurónio.

Esta descoberta poderá ter impacto direto na medicina, nomeadamente no desenvolvimento de tratamentos para a perda de olfato — um problema para o qual ainda existem poucas soluções eficazes, incluindo nos casos associados à COVID-19.

“Não podemos corrigir o olfato sem compreender como funciona a um nível básico”, apontou Datta, acrescentando que o olfato tem um papel essencial não só na perceção de perigos e no paladar, mas também no bem-estar emocional.

Os investigadores estão agora a estudar se esta organização se verifica também em humanos e de que forma poderá ser aplicada no desenvolvimento de terapias, como tratamentos com células estaminais ou interfaces cérebro-computador.

A descoberta representa um marco na compreensão de um dos sentidos mais complexos do corpo humano e pode vir a transformar a forma como se tratam perturbações associadas ao olfato.