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Deus tirou-me de um caminho para colocar-me noutro melhor. O boxe salvou a minha vida». Quem o diz é Jorge Pina, antigo pugilista, que ficou cego em 2004 na sequência de uma lesão, e se dedica ao atletismo, tendo feito a última grande participação nos Jogos Paraolímpicos de 2016, no Rio de Janeiro.
Jorge recebe-nos na Academia Jorge Pina, no Bairro do Armador, antiga Zona M. «Eu cresci nas barracas, no Rego, mas era para aqui, para Chelas, que vinha fazer porcaria», começa por contar o, agora, personal trainer.
Filho de uma doméstica e de um polícia, nem isso o impediu de se meter no mundo da droga. «Passava muito tempo sozinho e arranjei muitos problemas. Comecei a consumir álcool e drogas ainda era miúdo», prossegue.
A situação começou a agudizar-se. «Uma vez, devia eu ter uns 15 ou 16 anos, o meu pai bateu-me. Disse que eu era um drogado e eu não aguentei. Fugi de casa e fui dormir para um carro. Comecei ainda mais na má vida». Mas, por essa altura, já Jorge combatia no Clube Rio de Janeiro, no Bairro Alto, em Lisboa e, aos 19 anos, em 1995, chegou ao Sporting Clube de Portugal. «Foi o boxe que me salvou, que me mudou e transformou. Deu-me valores, resiliência e fez-me mudar a minha forma de estar e pensar na vida».
Foi a pensar na sua história de superação que Jorge Pina fundou a academia, precisamente na zona da cidade onde a sua vida estava a tomar um rumo desastroso. Ironicamente, o espaço fica numa antiga garagem abandonada, por debaixo de um dos prédios, que «antes servia para o tráfico e para a malta vir para aí drogar-se. Estava tudo cheio de lixo e de ratos. Disseram-me que eu era maluco para vir para aqui, mas deu certo».
A academia é uma inspiração para muitos dos que lá treinam e, para Jorge, o «propósito principal é ajudar as pessoas a encontrarem o seu caminho, não terem de passar pelo que eu passei, construírem a sua vida e encontrarem a felicidade».
Banca dá nas vistas
A poucos metros da Academia Jorge Pina está instalada, junto a um café, uma banca de venda de droga. Pina insurge-se. «A esses miúdos [vendedores], o que eu lhes diria é que, às vezes, o fácil não é o melhor caminho. E que, hoje em dia, eles podem estar a consumir ou vender droga, não é? Mas amanhã, eles podem estar presos».
Jorge Pina vai mais longe e emociona-se. «Os próprios filhos deles podem ter os seus problemas com a droga. Eles estão a vender droga mas pode haver um dia que alguém vai vender droga aos filhos deles. Como é que eles se sentiriam com isso? Seria uma boa reflexão para a malta que hoje está dedicada ao tráfico».
Pina sabe bem o que é a má vida. Largou-a. «As minhas filhas orgulham-se do pai que têm. Imagina lá se eu continuasse a ser aquele que eu era. Pois... Mas a vida é assim, a vida transforma, ensina e nós escolhemos. Porque nós é que escolhemos os nossos caminhos, as nossas ações. Nós é que escolhemos para onde vamos, o que fazemos. As decisões são sempre nossas».
E acrescenta: «Se calhar, tive de passar pelos problemas que passei para escolher diferente, para tomar um rumo na minha vida. Um ensinamento; O que é que eu quero? Qual é o meu propósito? O que é que eu estou a querer fazer neste planeta, nesta terra? Por isso não escondo o meu passado, porque quero transformar vidas e colocar os outros a pensar em ter uma boa vida e paz».
Passamos junto à banca, a poucos metros da Academia Jorge Pina, dentro do carro policial descaracterizado, com vidros escuros. «Temos tido um grande foco no Armador até porque há escolas por perto, e damos muita atenção a este bairro», afiança o comissário João Prisciliano. «Vamos começar a descer e, à vossa direita, vai estar um café de esquina. É aí a principal banca de droga do bairro».
Confirma-se. Na esquina, com vista para o centro comercial onde se situa a Loja do Cidadão de Marvila, um café dá nas vistas. Debaixo, dois jovens dedicam-se à venda direta ao consumidor. Dali, seguimos para junto de uma das bocas do metropolitano, em frente ao bairro. Por ali ficamos durante vários minutos e conseguimos perceber, com a ajuda do comissário da PSP, o movimento dos consumidores que saem do metro, vão ao Armador, e voltam já com o produto estupefaciente para consumo. «São movimentações de que nos conseguimos aperceber até pelo comportamento errático dos consumidores», analisa João Prisciliano.
16 quilos de droga
Debaixo do centro comercial junta-se lixo e destruição humana. Alguns homens fumam crack [uma mistura de cocaína base cozida em amoníaco]. A carrinha de distribuição de metadona compõe o cenário de degradação. «Na carrinha as pessoas estão inscritas no programa da metadona mas não quer dizer que não sejam consumidores também», relata o comissário.
Funcionários municipais andam à cata de todo o tipo de lixo. «Aqui onde os senhores andam a lavar e a limpar é onde os consumidores se concentram, aqui debaixo da ponte. Por vezes há muito lixo e também relatamos isso à câmara municipal, para haver estas ações de limpeza».
A polícia deu um grande golpe no tráfico ddroga em Chelas, no início deste ano. Uma das operações policiais aconteceu a 21 de janeiro e foram apreendidos 16 quilos de droga – cocaína, haxixe e heroína – e mais de cinco mil euros, em dinheiro vivo. Tudo aconteceu no Bairro do Armador, onde, por agora, o movimento acalmou. Pelo menos, aparentemente.
É neste bairro, a antiga Zona M, e no Condado, antes Zona J, que se situam os pontos quentes do tráfico naquela zona da cidade de Lisboa, porém com características bastante diferentes.
Os barões e os pelintras
Enquanto no Armador, a VERSA visualizou venda direta ao consumidor, no Condado o tráfico atinge outro nível, o dos grossistas, que compram a grandes traficantes internacionais e revendem aos traficantes de bairro. Com menos visibilidade e menor sentimento de insegurança.
Quando os primeiros moradores aqui chegaram, nos anos 70, nunca imaginaram que Chelas, já de si conotada com a pobreza, a baixa escolaridade e outros problemas sociais, que acabaram por gerar um grande estigma, ainda havia de ter droga e em grande escala.
Foi na Zona J que cresceu e se fez homem Samir Fernandes. O luso-guineense, que gostava de pôr a mão na massa e foi apanhado a cozinhar crack, está agora preso e condenado a 19 anos de prisão. Antes disso, montou o seu quartel-general na Zona J e era dali que controlava o tráfico em boa parte da cidade, com o seu “Grupo de Chelas”.
Samir pode ser classificado como um traficante nível 2 [grossista] que, por esta altura, já terá sido substituído por outro elemento da organização. É conhecido por ter uma relação fria com Xuxas, também preso, considerado o maior traficante de droga português. O “grossista” Samir terá tido relações comerciais com Xuxas, que trabalhava diretamente com grandes cartéis sul-americanos e o tráfico transatlântico de cocaína.
Aliás, o tráfico de droga funciona como uma empresa, com vários níveis de influência, diferentes tipos de funcionários, horários e funções atribuídas, desde o vigia que está na rua para avisar o vendedor que está na banca da aproximação da polícia, ao mais poderoso traficante internacional, passando pelos níveis intermédios dos tais “grossistas”, que espalham a droga pelos vendedores de bairro.
Na Zona J é mais comum o traficante de nível 2, ou seja, o tal “grossista”. A droga pode estar escondida numa ou em várias casas, até mesmo fora do bairro. Samir, por exemplo, tinha o material numa casa em Odivelas.
Existem também, em todos os bairros onde há tráfico de droga, casas de recuo para que os traficantes possam esconder-se, aquando da chegada das autoridades. «O nível 2 já é um crime um pouco mais organizado. Também sabemos, e isto é consensual e aco que é sabido, quanto mais organizada é a estrutura de tráfico, menos sentimento de insegurança cria», explica o Intendente Rui Costa, comandante da Divisão de Investigação Criminal de Lisboa.
E prossegue: «Nós temos aqui zonas da cidade de Lisboa, onde sabemos que há traficantes a residir e pessoas que fazem a gestão do tráfico [nível 2], o abastecimento de bancas… Nestes bairros sociais, fundamentalmente em Chelas».
De facto, ao visitarmos o Bairro do Condado apenas observámos um pequeno grupo de rapazes que estariam a fazer venda direta ao consumidor mas, por ali, não há o vai e vem de toxicodependentes que é visível noutras zonas da cidade, como a Quinta do Loureiro ou a Mouraria. Por isso, o Intendente Rui Costa avisa: «A luta contra a venda de droga não se pode fazer só na venda direta, apesar de ser fundamental. Também temos de combater quem abastece – o nível 2 – e quem está acima disso, que são os ‘high value targets’ [indivíduos como Xuxas]. Todos têm de ser investigados e condenados».
O comandante da DIC dá um exemplo prático para clarificar o que se passa na Zona J. «É como no mercado da fruta. Alguém faz lá chegar a fruta [nível 2]. Está lá o vendedor da fruta, recebe a droga de alguém, vende e, eventualmente, tem a função de a dividir e pôr em saquinhos. Estes vendedores de rua vendem, recolhem o dinheiro e andam a dar esse dinheiro a alguém, que faz chegar a droga àquela banca».
O tráfico de droga, em Chelas, foi-se reorganizando. Na Zona J, à medida que se instalam estes barões da droga, deixou de haver tantos vendedores de rua. Os pelintras passaram para outros pontos de Chelas, como o Bairro do Armador (Zona M).
O corredor da morte
Até meados dos anos 2000 a Zona J era assustadora para os lisboetas e só quem morava no bairro se atrevia a lá entrar. Para sempre ficou célebre, pelos piores motivos, o chamado “corredor da morte”, um conjunto de oito lotes abandonados, com arruamentos muito estreitos e becos, onde foram feridos e mortos vários rapazes, em ajustes de contas entre gangues.
O “corredor da morte” foi abaixo em 2009, o bairro foi sendo requalificado, e hoje já se vê muito comércio, hortas comunitárias e várias instituições acabaram por se instalar em lojas camarárias, no rés-do-chão sobretudo das três torres de grande dimensão: 13 andares e cerca de 60 famílias por prédio, antes conhecidas por Torre Laranja, Torre Azul e Torre Verde.
Atualmente, a Avenida João Paulo II, que atravessa o bairro, está cheia de comércio e, ao percorrê-la, não se nota qualquer sentimento de insegurança. «As bancas de droga são mais pontuais, como já vimos», explica, no terreno, o Comissário João Prisciliano.
Dentro da carrinha descaracterizada, de vidros escuros, continuamos a percorrer a Zona J. A dada altura, João Prisciliano chama-nos a atenção. «Estão a ver ali aquelas três cabecinhas?». Eram três rapazes, suspeitos de tráfico, num beco interior, por detrás de umas arcadas.
A atuação policial torna-se mais difícil, com este tipo de arquitetura. «Eles estão mais recuados e, claro, têm os vigias. Para nós fazermos vigilâncias, por exemplo, é muito difícil porque há dificuldades em estarmos parados em determinado local sem provocar estranheza, além de termos pouca visibilidade», admite o comissário.
Há prédios dos dois lados da avenida. Outra dificuldade para a polícia. «Vamos ficar mais expostos às janelas. Mas não tem havido grandes incidentes, como o arremesso de televisões ou outros objetos. É mais fácil o trabalho, por exemplo, num bairro com as características do Loureiro, que é só uma rua. Aqui a nossa atenção tem de ser de 360 graus», conclui João Prisciliano.
O comissário não nos deixa ir embora sem nos levar a outras zonas de Chelas onde não se registam, pelo menos de forma flagrante, problemas deste género. «Chelas é muito grande. Aqui nos Nameques [lotes da zona norte do Bairro dos Alfinetes – Zona H] e Marquês de Abrantes [Zona L] é mais tranquilo. E tem das melhores vistas da cidade de Lisboa», finaliza o comissário, com o Tejo como pano de fundo.