O ambiente é de total sossego na Quinta das Oliveiras, em Palmela. Saúde, bem-estar e desenvolvimento humano são as matrizes do programa Led by Horses, que junta cavalos e coaching para ajudar a melhorar os relacionamentos interpessoais e a comunicação.
Pedro Amado, 52 anos, é coach e recebe-nos com um convite: fazermos uma experiência com estes animais. Não é preciso saber montar a cavalo; todas as atividades são feitas com os pés assentes na terra, sem montaria. Uma manada de dez equinos anda à solta pelo campo. O coach vai buscar os cavalos e éguas que, silenciosamente, se aproximam dos humanos. «O cavalo é um animal presa, por isso é muito discreto e faz pouco barulho, porque tem medo de ser apanhado por algum predador», explica Pedro Amado.
É-nos proposto um exercício aparentemente simples: escolher um animal e descrevê-lo, por escrito, em cinco minutos. Escolhemos o Grey e viemos a saber, mais tarde, ser o cavalo mais desconfiado da manada. Com este exercício, Pedro Amado pretende avaliar, numa primeira análise, o potencial cliente das sessões de coaching assistido por equinos. No nosso caso, ficámos a saber que têm de ser trabalhadas algumas competências de auto atenção. Cada cliente terá o seu veredicto.
A VERSA continuou a experienciar a proximidade com os animais. De facto, à medida que vamos estando junto dos cavalos começamos a sentir calma e bem-estar. De acordo com Pedro Amado a explicação é científica: «Os cavalos têm um batimento cardíaco muito mais baixo que o dos seres humanos. Esse batimento cardíaco gera um campo eletromagnético muito forte que consegue harmonizar o batimento cardíaco das pessoas com o deles e leva a uma diminuição do stress e da ansiedade».
TRABALHO EM ESPELHO
São sobretudo mulheres e CEO de empresas os clientes de Pedro Amado. «Os chefes falam muito, os líderes falam muito, mas depois as equipas não os acompanham. Há fuga de talentos. Porquê? Porque o líder fala de uma forma e tem uma atitude diferente. E aqui, se não tiver a atitude ajustada e coerente, o cavalo não acompanha», explica o coach.
O animal acaba por funcionar como um espelho. Pedro Amado dá um exemplo concreto. «No outro dia, recebi aqui uma diretora de formação e um gestor comercial. Escolheram o mesmo equino. O gestor comercial não conseguiu mexer o equino, não conseguiu levar o equino. O cavalo esteve dez minutos parado e ele não conseguiu fazê-lo mexer-se. Depois tirei esse cliente e coloquei a cliente diretora de formação. Ao fim de 30 segundos o cavalo estava a andar».
A explicação está, de acordo com o coach, na atitude. «A grande diferença entre os dois era a sua atitude interior. A mulher, muito mais sensitiva, estava muito mais no corpo. E o homem disse que funcionava mais com a cabeça. Nem tem consciência do corpo. Então esta neurocepção, este sentir e não pensar, permitir que o corpo dê mais informações ao cérebro do que o cérebro ao corpo – porque cientificamente está provado que o coração dá cinco vezes mais informação ao cérebro do que o cérebro ao coração – tem de ser desenvolvido. Nós temos de desenvolver mais a nossa humanidade e o ser humano passa a ser melhor quando trabalha em equipa. E todas as respostas estão em nós».
Pedro Amado garante que durante as sessões de aprendizagem assistida por equinos «a pessoa vai-se apercebendo, por ela própria, daquilo que tem de desenvolver. Quando alguém entra em dinâmica com os animais começa a ter a clareza de perceber o que é que se passa consigo e com a sua vida. Porque é o que se está a passar com o cavalo».
O QUE FALTA AOS LÍDERES
Para quem chefia equipas este método pode proporcionar melhores competências de comunicação e liderança. «A nível do mercado dirijo-me aos conselhos de administração, porque é aqui onde existem as questões de dificuldade de comunicação. A relação entre humanos é feita com base na comunicação. Os líderes têm de ser primeiro líderes de si próprios, na sua vida, para depois terem competências emocionais para serem líderes dos outros e dizerem ‘malta, vamos para aqui’», enfatiza Pedro Amado.
Ao mesmo tempo, o coach esclarece que 93% da comunicação entre humanos é não verbal e qual a importância disto. «Se eu não me conhecer a mim próprio e souber o que é que o meu corpo está a comunicar ao outro, à minha equipa de dez elementos. Se eu não souber porque é que estou a comunicar, não através da oralidade mas através da minha atitude, o impacto daquilo que eu tenho como estratégia para a empresa decai para 50%. E então este desenvolvimento de competências pessoais é que é a base de todo este nosso trabalho com os equinos».
Pedro revela um caso concreto. «Veio aqui um CEO e escolheu o Grey, que é o cavalo mais desconfiado. E isso bateu 99% com a pessoa. Ele dizia-me que eu estava completamente enganado, porque o problema dele era confiar demais nas pessoas», recorda o coach. «Certo é que ele foi para a empresa, apresentou isto ao diretor de Recursos Humanos, que foi quem comprou a sessão, e o diretor de Recursos Humanos falou com os colegas e perguntou-lhes o que é que achavam do que tinha acontecido. Mais tarde, voltou a falar com o CEO, telefonou para cá e disse-me que os colegas não o achavam desconfiado… Achavam-no muito desconfiado! Então, aquele líder estava a chefiar uma empresa e a desconfiar a 100% do seu diretor apesar de ter a perceção de que era um homem de confiança». A experiência não ficou por aqui. «Passados 15 dias ele marcou uma reunião connosco. Quando chegou esteve hora e meia a falar da sua vida pessoal e de como, desde os cinco anos de idade, tinha vivido o divórcio dos pais e tinha aprendido a ser desconfiado».
DESCODIFICAR CASOS ESTRANHOS
Outro CEO escolheu a égua Turquesa, a matriarca da manada. «Ele fez o exercício, depois de fazer o primeiro contacto com a égua, de pôr-lhe o cabeção e ir dar uma volta com ela. Ele levava a égua pelo lado direito. Quando começou a levar a égua pelo lado esquerdo, começou a tropeçar nos seus próprios pés. Não acha estranho?», questiona o coach.
Mais uma vez, Pedro Amado Gomes desvenda o mistério e a forma como o contacto com os cavalos ajuda. «É curioso, porque ele chegou aqui ferido do lado direito, tinha tido um acidente de bicicleta. Para quebrar o gelo perguntei-lhe se só se feria do lado direito e deixei-o em banho-maria, não lhe dei mais informações. Passados alguns minutos, em conversa, ele disse que quando andava de bicicleta só virava para a direita, nunca virava para a esquerda. Então, aquele homem tinha o seu lado racional, que é o cérebro do lado esquerdo, ligado ao lado direito do corpo. E, por isso, quando ele foi colocar a sua liderança no lado emocional, direito do cérebro e esquerdo do corpo, com essa base emocional ele tropeçava. Tinha o corpo todo descalibrado».
Outro líder de uma empresa entrou com uma impressão e saiu com outra depois da primeira sessão de aprendizagem assistida por equinos. «Era um homem autoritário, argumentativo, do contra. Foram as três características com que se descreveu. Quando chegou disse que tinha uma tarefa, todos os dias, que era meia hora de passeio com a cadela na rua, para ela fazer as necessidades. Depois da sessão disse-me que tinha todos os dias, meia hora de partilha com a cadela na rua, antes de ir para a empresa. Passou a olhar para aquela atividade sem ser uma obrigação mas como uma partilha. E quando assim é, não ver em tudo uma obrigação, isso torna a vida das pessoas mais simples».
Já uma psicóloga, que também procurou este serviço, não conseguia colocar o cabeção ao animal. «Ela perguntou-me o que é que se passava. Eu não sei o que é que se passa dentro da pessoa. Eu não sei da vida pessoal e profissional. Então perguntei-lhe qual era o objetivo dela antes de colocar o cabeção. Aproximar-se do cavalo e que ele não se desviasse, certo? Ou seja, ela tinha de criar uma relação com o animal».
A psicóloga acabou por retirar daí um ensinamento. «Ela acabou por confessar-me que já tinha percebido algumas coisas que lhe acontecia. Por exemplo, disse-me que dirigia um serviço e que quando queria fazer determinada coisa, de repente, via-se sozinha e com a equipa a abandoná-la. As próprias pessoas, aqui, descobrem o que têm e o que precisam para melhorar a sua vida».
Ao todo, estão disponíveis dez equinos todos resgatados das mais variadas situações. Entre eles está Vaidosa, uma égua doente oncológica, que estava abandonada junto à estrada, perto de Palmela. «Aqui assumimos esse compromisso de resgate de animais. A Vaidosa foi-nos confiada pelo município, depois de ter sido resgatada e operada».
A base de todo o método de aprendizagem assistido por cavalos assenta na própria natureza dos animais. «A base é a etologia equina, que é a ciência que estuda o equino no seu habitat natural. Nós usamos as características naturais do equino. Não treinamos os equinos para se relacionarem com os seres humanos nesta metodologia», assume Pedro Amado Gomes. «O cavalo, enquanto animal presa, tem a capacidade de estar sempre a ver o que é que está à sua volta. É um animal tão sensível que até uma mosca o incomoda», descreve o coach. «Quando começamos a interagir com eles temos uma metaforização, entre o cliente o seu mundo real. Quando eu interajo com o cavalo o que é que acontece? E o que é que acontece quando interajo com os outros? Se não formos empáticos e gentis, o equino afasta-se. O mesmo acontece com as pessoas», defende. «Depois, além das chefias de empresas, trabalhamos mais com mulheres, que são mais afoitas quando toca a resolver as suas coisas».
COMO TUDO ESTÁ LIGADO
Pedro Amado Gomes revela um pouco da sua vida pessoal para justificar o percurso que fez até trabalhar com cavalos. Filho de uma professora primária e de um engenheiro técnico agrário, mudou-se com os pais da Beira Baixa para a colónica agrícola das Faias, em Pegões. «As minhas raízes, como filho de professora primária, estão ligadas à questão do ensino e do serviço para com o outro».
Com apenas 9 anos de idade, o coach perdeu a mãe, vítima de cancro. No ano seguinte, um dos irmãos morreu com apenas 13 anos. Passados dois anos o pai voltou a casar-se e Pedro vê «uma família de sei elementos desmembrar-se. Vivi isto tudo em cinco anos. Isso moldou-me e, mais tarde, recorri à psicoterapia».
O coach fez um percurso de vida, no seu entender, padronizado. «Estudei até ao 12º ano e depois fui para a Escola de Hotelaria, porque era onde eu tinha também um sítio para dormir. Comecei a trabalhar mas, na hotelaria, não me pagavam o suficiente. Daí fui para a banca e, aos 29 anos, com um emprego para toda a vida, despedi-me. Mais tarde, trabalhei na indústria farmacêutica e na organização de eventos».
Foi assim que chegou ao conhecimento de Nathalie Durel. «A Nathalie desenvolveu o Método Kiron. Fui paciente dela, noutra abordagem terapêutica, e ela convidou-me, em 2012, para assistir ao workshop de coaching assistido por equinos. A partir daí ela viu, em mim, alguma disponibilidade para trabalhar com cavalos e fui tratar de duas manadas», revela Pedro Amado Gomes. «Depois, fiz a formação do Método Kiron e, como já tinha outras ferramentas e muito trabalho de autoconhecimento, tudo se orientou neste sentido».
Além do coaching individual, na Quinta das Oliveiras também são proporcionados outros serviços, como o team coaching, ateliers para equipas ou programas para famílias, onde miúdos e graúdos podem aprender e divertir-se com os animais. «Aqui não há uma metodologia do ensino. Existe a proposta de uma determinada atividade e o cliente vai, em parceria com o cavalo, fazer essa atividade. E aqui vamos, então, saber quando é que a pessoa é de confiança para que uma presa acompanhe um predador», explica Pedro Amado Gomes.
Uma aprendizagem que, no entender do coach, se baseia na «tentativa e erro». «Há aqui um processo que é fazer uma ação e uma reflexão. Uma metaforização do que é isto, como é que isto se passa na vida e depois repete a ação. Além disso, há sempre a parte cognitiva, ou seja, há a parte experiencial da ação e há a parte cognitiva, da aprendizagem», sumariza.
Apesar de trabalhar, sobretudo, com empresas, Pedro Amado Gomes garante que esta aprendizagem assistida por equinos é útil para qualquer pessoa. Ainda assim, mais uma vez, reforça o especial trabalho que os animais conseguem junto de quem lidera equipas. «Vêm ter connosco pessoa muito controladoras, muito ditatoriais e pouco empáticas. As soft skills, de que se fala cada vez mais, são necessárias ao exercício de funções de liderança. E a liderança não é só uma função; é uma relação».
De resto, há também quem chegue à Quinta dos Oliveiras porque entende «que algo na sua vida não está bem, mas não sabe bem o quê. Aqui vai descobrir que há determinada situação, ou laboral ou pessoal, que está realmente a criar disfuncionalidades nas suas atitudes diárias».
Pedro Amado Gomes acredita que através do coaching com cavalos está a ajudar quem mais precisa de si. «Ao fim e ao cabo o que eu faço aqui é resgatar o outro de alguma situação traumática, de alguma situação que não esteja de acordo com o que a pessoa quer viver. A pessoa tem um desejo interior de viver algo diferente, mas não sabe muito bem o quê, até porque nós, ao longo da vida, vamos criando algumas máscaras», finaliza.