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Há estradas cortadas e em risco de ruir. O parque do Choupal está completamente alagado. Nas zonas rurais somam-se os estragos provocados pelo comboio de tempestades que, desde janeiro, têm vindo a atravessar Portugal. «O centro da cidade não está preparado para receber as pessoas», revela à Versa fonte da Promotorres, a empresa municipal que organiza o Carnaval de Torres Vedras. «Claro que é uma enorme perda para todos, desde já para os comerciantes, porque estávamos à espera de receber meio milhão de visitantes, o que já não vai acontecer». Quem já comprou os bilhetes terá de esperar por uma solução, por parte do município, e ir ficando atento ao site da Promotorres e às suas redes sociais.
Torres Vedras é um dos mais de 60 concelhos onde foi declarado, pelo Governo, o estado de calamidade, que deverá manter-se pelo menos até Domingo Gordo, 15 de fevereiro. «O Carnaval de Torres Vedras, marcado para o período de 12 a 18 de fevereiro, é um dos grandes símbolos que define a identidade torriense e atrai milhares de visitantes, tendo grande importância económica e cultural. Contudo, face aos danos estruturais ainda existentes, às famílias afetadas, às vias de acesso comprometidas, às condições meteorológicas instáveis e à impossibilidade, dadas as condições mencionadas, de receber da melhor forma todos os foliões, não será possível realizar o Carnaval nas datas previstas», pode ainda ler-se em comunicado, emitido pela câmara municipal.
O investimento foi avultado e o Carnaval é a festa que sustenta, em boa parte, a economia local, durante o resto do ano. «O investimento total foi de 1 milhão e 300 mil euros. Só cada carro alegórico fica num valor entre 20 a 25 mil euros», acrescenta a Promotorres.
Dos 103 anos que este Carnaval já leva, só em 1984 não se realizou. O motivo foi o mesmo do que aconteceu agora: fortes cheias. Em novembro de 1983 a água subiu a mais de dois metros, no centro histórico, e estragou a festa que se deveria realizar três meses depois, entre 4 e 7 de março de 1984. Nesse ano, os foliões, que eram quem organizava todo o Carnaval, estavam ocupados a reparar os danos provocados pelo grande temporal e não tiveram oportunidade de preparar os corsos carnavalescos. Um Carnaval de má memória para os foliões torrienses que tiveram de ficar em casa, tal como agora.
Este ano, pela primeira vez, a festa, era para durar sete dias. Estavam previstos os habituais bailes, assaltos, matrafonas (homens mascarados de mulheres, de forma tosca) e mascarados com fartura, além dos tradicionais corsos de domingo, 15, e terça-feira, 17. O Carnaval encerraria com o enterro do Entrudo, na Quarta-Feira de Cinzas.
Tudo estava a ser ultimado a grande velocidade. A Versa testemunhou esses momentos de preparação final do evento, que, se antes era feito totalmente pelos foliões, desde o início do século é um negócio bem montado e estruturado, com a organização da empresa municipal Promotorres. «Houve necessidade de profissionalizar o Carnaval, que é uma brincadeira muito séria. Recebemos cerca de meio milhão de visitantes nesta altura e estamos a falar de toda uma economia, não só na cidade de Torres Vedras, mas em toda a região, que, muita dela, também subsiste graças ao Carnaval de Torres Vedras», explica Rui Penetra, diretor-executivo da Promotorres.
15 MILHÕES QUE ‘VOARAM’
O Carnaval só acontece uma vez por ano mas o seu retorno financeiro alimenta a região para o resto dos meses. Este ano, esse retorno está, naturalmente, comprometido, mesmo que o Carnaval venha a sair à rua, noutra data. «Em 2025, fizemos um estudo com o ISCTE e o retorno financeiro do Carnaval de Torres ascende aos 15 milhões de euros», revela Rui Penetra. «Estes valores ficam naquilo que são as empresas locais: desde a pequena costureira, a retrosaria, a loja de tecidos, os restaurantes, os cafés, toda a hotelaria. Toda esta economia, em parte, subsiste graças ao Carnaval. É um grande balão de oxigénio para que estes negócios possam continuar a existir, também ao longo do ano». Com a meteorologia a trocar as voltas e o cancelamento da festa, a economia local não sairá incólume. «Claro que seria um grande rombo», dizia Rui Penetra, ainda longe de antever esta situação.
Ao contrário do que acontecia no passado, em que todos davam uma mãozinha, atualmente é feito um concurso público para atribuir a construção dos carros alegóricos a empresas especializadas. Este ano iriam desfilar, pelas ruas de Torres Vedras, seis carros alegóricos. Hélder Silva, artista plástico, é responsável por uma das empresas contratualizadas e ficou com quatro carros alegóricos adjudicados.
É dentro de um pavilhão de grandes dimensões, da câmara municipal de Torres Vedras, que os trabalhos são ultimados. «Os bonecos são feitos na nossa oficina. Depois são transportados para aqui e montados nos carros alegóricos», explica Hélder Silva. Este ano não vão sair do armazém.
CARROS ALEGÓRICOS ARMAZENADOS
O artista plástico e a sua equipa são os autores dos carros alegóricos da ‘Política Internacional’, ‘Política Local’, ‘Desporto’ e ‘Tema Livre’. O carro do ‘Tema Livre’ está pronto e é dedicado à crise habitacional. «O tema geral do Carnaval é o ‘Mundo Encantado’, por isso fomos basear-nos em contos tradicionais para construirmos os carros alegóricos. Neste caso, tem a ver com ‘Os Três Porquinhos e o Lobo Mau’. Brincamos com as inflações, as taxas de juro, o custo de vida elevado e o facto de os jovens, e os outros cidadãos, terem dificuldades enormes em ter uma habitação. E quando se tem uma habitação, tal como no conto tradicional, é muito frágil. Qualquer sopro, neste caso económico, basta para a atirar ao ar», revela Hélder Silva.
Um serralheiro estava a começar a montar o carro dedicado ao desporto. Desta feita, a inspiração foi o culto do corpo. «Concentrámo-nos na ambição das pessoas em atingirem o expoente máximo dos padrões de beleza, muito mais preocupadas com o aspeto exterior do que com a saúde. As pessoas vão a tudo: os silicones, o botox, as hormonas de crescimento», explica o artista plástico, enquanto aponta para um dos bonecos, verde, com uma expressão de grande esforço físico e muito musculado.
No carro alegórico da ‘Política Internacional’ Donald Trump é o rei, apesar de haver outras figuras. «Neste caso, pegámos um pouco na história da ‘Alice no País das Maravilhas’. Ela está incrédula com o que se está a passar no mundo. Temos os políticos donos desta guerra, espalhada pelo mundo inteiro, cada um na sua, a fumar a sua shisha, a beber petróleo, como se estes fossem os néctares de alguma coisa maravilhosa. E, no fundo, estão-se todos marimbando para o povo e para o mundo em geral».
Ao fundo do pavilhão está o carro dos Reis do Carnaval, que foi remodelado. Por ali está, ainda, estacionado um trem elétrico que iria desfilar nos corsos, com uma banda a atuar ao vivo. O carro da ‘Política Nacional’, elaborado por outra empresa, tem em destaque a figura de Rita Matias. André Ventura também estará pendurado no carro alegórico com muita sátira política, que percorre todos os quadrantes políticos mas com especial ênfase no Partido Chega.
Além dos carros alegóricos, das matrafonas e do trem elétrico havia, prontos para sair à rua, 35 grupos organizados de mascarados, com um total de 1800 participantes, percussão e grupos de cavalinhos (mini filarmónicas). Não faltavam, ainda, os ‘carros espontâneos’. «Na origem do Carnaval de Torres Vedras, qualquer grupo de amigos podia pegar num carro que já estava velho, transformá-lo, tirar-lhe o tejadilho… Transformá-lo de alguma forma e vir para dentro do recinto do Carnaval de Torres Vedras», avança Rui Penetra. «Hoje, as questões de segurança são mais importantes e é dada uma especial atenção a estes carros, com períodos dedicados a eles». Estava previsto que desfilassem no corso trapalhão de segunda, 16, e no final dos corsos de domingo, 15, e terça, 17. Por agora, ficam nas garagens dos donos.
RIXAS E ENTORSES
Por ser um evento de grandes dimensões, e dado a alguns excessos, estavam, em prontidão, 1500 profissionais de segurança e socorro. «Recebemos muita gente e as preocupações com a segurança e o socorro são extremas», começa por dizer o diretor executivo da Promotorres, Rui Penetra. «Temos feito uma evolução muito grande ao longo dos anos. Há o envolvimento da PSP, GNR, bombeiros, Cruz Vermelha e do Centro de Saúde de Torres Vedras. E, desde 2003, que a Promotorres instala um posto médico avançado no seu pavilhão, com 40 camas de internamento, suporte básico e avançado de vida, profissionais e auxiliares de saúde». Caso venha a haver nova data, os profissionais e os meios lá estarão, para apoiar foliões e visitantes.
O recinto do Carnaval é, nada mais nada menos, do que algumas ruas, avenidas e praças da cidade, que por esta altura são vedadas. «A festa acontece num ambiente citadino: há passeios, pedras da calçada, alcatrão, praças, desníveis, escadarias, montras», avança Penetra, dando conta dos perigos mais ou menos escondidos para os foliões. «Estamos a falar de uma grande afluência ao centro histórico, com ruas apertadas e praças de maior dimensão, tanto de dia como de noite. E há também o consumo do álcool», observa.
Ainda assim, Rui Penetra garante, da sua experiência, que a maior parte das ocorrências não são graves. «Pode acontecer qualquer coisa, desde torcer um pé, alguma rixa entre alguns foliões. Há sempre alguma coisa a acontecer no Carnaval de Torres Vedras. Mas são, felizmente, acontecimentos de menor dimensão», analisa. «Isto deve-se, por um lado, a toda a parte de prevenção que a Promotorres faz, em conjunto com as entidades públicas de socorro e segurança, mas também isso só é possível devido ao comportamento dos foliões. Por mais que façamos, é bom reagir e dar resposta, mas se os foliões não tiverem um comportamento adequado, não há planeamento que resista», avisa Rui Penetra.
Este ano repetiram-se, também as ações de prevenção e sensibilização, sobretudo nas escolas do ensino secundário, contra o consumo de substâncias ilícitas.
DAS VINGANÇAS À FOLIA
O Carnaval de Torres Vedras, como o conhecemos, data de 1923. Mas as primeiras referências a brincadeiras carnavalescas remontam a 1574. «Há um registo, num jornal local, dessas brincadeiras», revela Rui Penetra. «Essas brincadeiras, muitas vezes, eram feitas até com alguma agressividade e com alguma violência. Quando alguém pretendia satirizar, mas quase no sentido de criar algum castigo ou algum sofrimento a um vizinho com quem não se dava bem, aconteciam, então, essas brincadeiras. O Carnaval era aproveitado para um ajuste de contas, de uma forma leve. Atirava-se farinha às pessoas e era mais gozo do que sátira».
Em Torres Vedras, o Carnaval teve também importância no período final da monarquia, «em que a combatia e satirizava», e no início da Primeira República, em 1910. Mas, na sua forma organizada e continuada, enquanto Carnaval de rua, só aparece em 1923. «Nesse ano, o Rei do Carnaval chega à estação de comboios. É recebido por uma banda filarmónica de Torres Vedras e, em 1924, surge a figura da rainha, que também é feita por um homem», recorda Rui Penetra, da Promotorres. Os Reis do Carnaval são reconhecidos foliões e embaixadores do Carnaval torreense e o seu reinado não tem prazo.
Na mesma altura, surgem as primeiras matrafonas. «A mulher estava muito afastada da vida pública e da participação social, nas primeiras décadas do século passado mas, por outro lado, havia a necessidade da figura feminina nas festas». As vestes bizarras das matrafonas têm uma origem social. «As pessoas não eram muito abastadas e mascaravam-se com o que tinham. Os homens iam às gavetas das mães e das mulheres, pegavam nas suas roupas, e mascaravam-se dessa forma».
Nas décadas de 30 e 40 do século XX aparecem os cabeçudos, os carros alegóricos puxados por juntas de bois – mais tarde substituídas por tratores e, hoje em dia, por camionetas transformadas de que só fica o motor e pouco mais – e as batalhas de flores. E nem o Estado Novo parou este Carnaval. «Há registos de sátira nesse período mas depois os foliões tinham a polícia à perna. Há episódios de idas à esquadra pela forma como satirizavam a classe política dominante, na altura, apesar de os textos, feitos pelas comissões de Carnaval, serem sujeitos a censura prévia», conta Rui Penetra.
Os grandes bailes de Carnaval eram outro ponto alto destas festas mas havia ainda uma particularidade: «Muitos foliões, ao longo dos dias, percorriam as ruas da cidade e eram recebidos em casa das famílias mais abastadas, que lhes davam de comer. Essas famílias tinham, assim, acesso a uma espécie de espetáculo privado».
Atualmente, além do retorno financeiro que traz, o Carnaval é também o maior cartão-postal de Torres Vedras. «Recebemos pessoas de toda a parte. Pela proximidade com Lisboa e com o aeroporto chegam muitos turistas. Também recebemos muitos alunos de Erasmus, de todas as partes do país».
Costumam ser dias de autêntica festa a que ninguém escapa. «Recebemos agências noticiosas internacionais, meios de comunicação nacional. Isto faz com que Torres Vedras tenha a capacidade de projetar o território a nível nacional e internacional. É motivo de um imenso orgulho mas também uma enorme responsabilidade», finaliza o diretor geral da Promotorres, Rui Penetra.