sexta-feira, 07 ago. 2026

Carlos Cruz: 'Nunca tive angústias existenciais quanto ao destino que queria dar à minha vida'

Advogado por vocação, comentador desportivo por paixão, fundador do PPD, figura influente dos media, escritor e sportinguista assumido. Ao longo de várias décadas de carreira, cruzou a Justiça, a política, os media e o Sporting, sempre guiado pela mesma convicção: ‘os valores estão sempre à frente’. Nesta entrevista de vida, revisita um percurso marcado pela coerência, pelos desafios e pela vontade constante de manter os seus princípios e as suas paixões.
Carlos Cruz: 'Nunca tive angústias existenciais quanto ao destino que queria dar à minha vida'

Enquanto construiu uma carreira na advocacia, foi acompanhando de perto a política, a evolução da comunicação social, viveu intensamente o Sporting e encontrou na escrita um espaço de liberdade. Nesta conversa, fala das escolhas que fez, das causas em que acredita e dos desafios que continuam a marcar o país, sempre com uma certeza: os princípios não mudam com o tempo.

Quando e por que razão decidiu que queria ser advogado?

Acho que sempre quis ser advogado. O meu pai era advogado. O meu tio-avô também e cresci com a convivência do mundo do Direito na minha família. Diria que surgiu naturalmente. Nunca ninguém me influenciou, nem nunca tive grandes angústias existenciais relativamente ao destino que queria dar à minha vida.

Lembra-se do seu primeiro caso em tribunal?

Não. Lembro-me que, durante muito tempo, cada caso que tinha em tribunal tinha os chamados primórdios angustiantes. Ou seja, era difícil para um advogado incipiente como eu não deixar de me envolver emocionalmente nos casos. Provocava-me um estado de grande agitação, de grande nervosismo relativamente aos casos e aos julgamentos que eram um momento da verdade. No entanto, com a idade e com a experiência fui-me posicionando no local exato, em que um advogado deve estar que é entender que a defesa dos interesses do cliente exige alguma frieza e presença de espírito sem descurar, evidentemente, a solidariedade que tem de sempre existir.

Essa distância só é possível depois de adquirir mais experiência?

Sim. Qualquer advogado sofre nos primeiros anos de profissão porque toma muito as dores dos clientes. Não quer dizer que ainda hoje não tome as dores dos clientes, mas faço de uma maneira diferente. Já não é tão angustiante. Dormindo mal, já durmo melhor antes dos julgamentos.

Qual foi o caso mais desafiante e o que aprendeu com ele?

O mundo do Direito tem esta singularidade que é um mundo de formação permanente. Todos os casos ensinam-nos e deixam-nos qualquer coisa e mesmo aqueles que nos correm mal têm uma faceta enriquecedora, e isso é indubitável.

Se pudesse voltar atrás faria alguma coisa de forma diferente?

Um dos momentos mais marcantes da intervenção de um advogado em tribunal são as alegações orais porque são um dos exercícios mais desafiantes que um advogado pode ter. Exige capacidade de comunicação e de síntese. Nunca fiz nenhumas alegações e duvido que haja advogado que sinta que disse tudo o que tinha para dizer, ou da maneira que devia ter sido dita. Há sempre alguma coisa que falta. Só espero e desejo que o futuro da advocacia continue a contar com as alegações dos advogados porque é aí que o advogado sente o seu nível profissional mais elevado. Nesta profissão temos de nos adaptar e aprender com o que corre bem, mas também com o que corre menos bem.

E a inteligência artificial pode ser um risco ou uma oportunidade?

Sou um otimista por natureza. Sou sócio do Sporting desde que tenho 10 anos e fui fundador do PPD. Essas duas realidades têm muita coisa em comum e que nos ensinam a ser otimistas e que os valores estão sempre à frente. Várias vezes achei que o PPD ia acabar. Dito isto, acredito na inteligência artificial como uma forma de ajudar a evoluir, de desburocratizar o trabalho, de facilitar e de criar condições para que as pessoas se concentrem no essencial e o seu essencial é a criação. Pode ser um auxiliar muito importante em toda a administração da justiça, mas não na criação. Infelizmente, já vi peças processuais que claramente foram feitas por inteligência artificial. Normalmente, são as mais compridas.

Como vê as críticas de que a Justiça é muito lenta?

A Justiça tem os seus tempos. Não sou favorável a uma justiça imediata, a não ser em casos de pouca monta. Agora, efetivamente, há tempos que são excedidos e acabam por ter um duplo efeito perverso: não servem a Justiça porque é tardia e é de má qualidade, desacreditando as instituições.

E depois há risco de prescrição.

O comum dos cidadãos não percebe essa situação. Da mesma maneira que não se percebe que se deixe um doente numa maca nas urgências dos hospitais muitas horas sem ser assistido - o mesmo nível de indignação existe quando se deixa um processo prescrever, sobretudo um processo com notoriedade mediática.

Como vê o facto de ao longo dos anos o conceito de Justiça tenha mudado?

Não acho que o conceito de Justiça tenha mudado. O conceito de Justiça é o mesmo, é sujeito aos mesmos valores, aos mesmos princípios e ao estado de Direito em que, felizmente, vivemos. Muda é a administração da Justiça que tem variado. As opções de política da administração da Justiça são conhecidas, mas, no essencial, acho que há valores que são imutáveis. É evidente que há coisas na administração da Justiça que podiam e deviam mudar porque a perceção que os comuns mortais têm da Justiça em Portugal não diz respeito à imparcialidade, integridade, mas do tempo e da forma. Com certeza que há muita gente que acha que a Justiça, como, aliás, numerosos outros serviços, não funciona como deveria funcionar.

Se pudesse alterar uma lei no país qual seria?

A Justiça pode ser melhorada com um conjunto de alterações cirúrgicas. A Justiça é muito tributária de liturgias antigas, de métricas também já muito datada que se refletem e repercutem na sua eficácia. E mais do que coisas tão sumptuosas como pactos de Justiça, como entendimentos institucionais, a Justiça precisa de uma abordagem pragmática. Por exemplo, a alçada do Supremo Tribunal de Justiça são 30 mil euros, o que significa que os nossos conselheiros que estão no cume da sua carreira, e são o extrato mais elevado da nossa magistratura a julgar casos, muitas vezes, por um valor que são bagatelas. E isso acaba por entupir os tribunais. Uma das coisas que faria se mandasse neste país, talvez das primeiras, seria elevar as alçadas para que o Supremo Tribunal de Justiça se dedicasse àquilo que é a sua vocação institucional: fazer jurisprudência. Claro que há casos que pelo seu interesse e pela sua relevância merecem ser sujeitas ao Supremo Tribunal de Justiça, independentemente do seu valor, mas seria uma exceção. Uma vez tive um problema de direitos de consumidor e consegui levar essa questão ao Supremo. O valor material do litígio não era relevante, mas o valor em termos do interesse para o Direito era muito superior e o nosso Código de Processo Civil já prevê essa eventualidade.

Como entra uma empresa de media na sua carreira?

O meu envolvimento na comunicação social vem dos tempos do Correio da Manhã, um jornal que foi lançado por um conjunto de pessoas que, naquela altura, tinha uma visão descomprometida e mais moderna do que era a comunicação social que estava muito politizada e muito anquilosada. Claramente, as pessoas ansiavam por conteúdos mais leves e legíveis, daí o seu grande sucesso. O Correio da Manhã acabou por ser adquirido pelo grupo Cofina, que se envolveu na televisão, depois lançou uma espécie de IPO que deu lugar à Medialivre, que lançou a rádio e um outro canal de televisão. Na prática são várias décadas de envolvimento na comunicação social nas suas diversas formas.

E a entrada de Cristiano Ronaldo como acionista da Medialivre?

Cristiano Ronaldo é um acionista de referência, tal como outros da Medialivre. É alguém que traz notoriedade, presença e que tem tido um papel muito significativo no quadro dos acionistas da Medialivre com efeitos, a meu ver, altamente positivos.

Acredita que será inevitável um cenário de fusões entre grupos de comunicação social?

A comunicação social já viveu melhores dias e a tendência de concentração não é de hoje, é antiga. É difícil um órgão de comunicação social sobreviver só com um único canal porque, hoje em dia, a tecnologia e a multiplicidade das formas de comunicação leva a que haja uma dispersão muito maior do que havia anteriormente. Antes um jornal concentrava todas as formas de comunicação, depois começou-se a falar mais de conteúdos do que de produtos, o que fez com que os conteúdos se tornassem relevantes na atividade da informação ou do entertainment e que tivessem canais alternativos de distribuição. Também começou a haver sites e a haver a intervenção dos grupos media em outras formas de comunicação, nomeadamente nas redes sociais, que culminou com toda esta dispersão que hoje em dia existe, desde o streaming até às plataformas. Não conheço nenhuma atividade não científica que funcione a uma velocidade tão acelerada como a comunicação social.

E o streaming tem vindo a ganhar cada vez mais terreno, como se viu no Mundial. Veio agitar ainda mais as águas?

O streaming é uma forma legítima de comunicação que tem o mundo à sua frente. Era inevitável que houvesse uma ligação mais direta entre os titulares de conteúdos e os consumidores. Tudo isto tem essa posição evolutiva: sou dono do conteúdo, esse meu conteúdo nasceu para ser divulgado e o passo que foi dado foi o das plataformas. Tenho uma plataforma que compra o meu conteúdo e que, mediante uma assinatura, o divulga por um conjunto de assinantes. E a partir de certa altura, começaram a aparecer fórmulas que, de alguma maneira, se ligavam mais diretamente ao consumidor, em que a Netflix terá sido o exemplo mais marcante. Essas empresas de streaming seguem agora os passos.

Por falar em televisão. Como entrou nos comentários desportivos?

Os comentários desportivos têm a ver com a minha ligação emocional, antiga e vitalícia com uma realidade que se chama Sporting Clube Portugal. Um dia pediram-me para ir à televisão comentar umas incidências relativamente a umas previdências cautelares que tinham sido intentadas pelo presidente ou ex-presidente Bruno de Carvalho, já tenho dificuldade em precisar, tal a dinâmica que o processo teve. Fui tentar explicar, nunca tinha ido à televisão e para mim era um mundo completamente novo. Depois pediram-me para ficar. O meu desporto é o rugby. Foi o desporto que pratiquei com mais intensidade e que mais me marcou como pessoa, mas, por forças e circunstâncias, acabei por me envolver no futebol e a minha intervenção como comentador é um bocadinho a expressão da minha ligação ao Sporting, que é uma ligação existencial. Ou seja, ainda hoje acredito que o Sporting é diferente dos outros clubes em função de determinadas características que tem e que os outros não têm. Pode achar que é uma ilusão romântica, se calhar é, mas essa é a força que me move. Infelizmente, os valores do Sporting já estiveram ameaçados mais do que uma vez, mas foram repostos.

Sente que é cada vez mais difícil conciliar o equilíbrio financeiro e o sucesso desportivo?

Gerir um clube é das coisas mais difíceis que vi, não só pelo ambiente, como pela especificidade da atividade, pela incerteza dos fluxos financeiros e pelo conjunto de circunstâncias aleatórias que incidem sobre a gestão do futebol. Mesmo uma gestão profissionalizada, uma gestão evoluída é sempre refém de incertezas que existem, obviamente, que isso também se verifica em outros setores de atividade, mas no futebol existem com muito mais permanência. Às vezes, um pequeno pormenor faz a diferença entre uma época descansada ou uma época controlada. Vou-lhe dar-lhe um exemplo, os valores da UEFA evoluíram, no sentido de aumentarem substancialmente os valores de participação nas suas competições máximas na Champions League. A participação num clube português na Champions League, hoje em dia, em que os clubes ou as SADS vivem com um déficit operacional sistemático e permanente é a diferença entre uma época descansada e uma época agitada. Hoje em dia há dois vetores extremamente importantes: o vetor desportivo e o financeiro.

Acredita que o Sporting tem conseguido encontrar este equilíbrio?

Acho que o Sporting reencontrou os seus valores e, sobretudo, reencontrou-se com si mesmo e elevou-se à dimensão que é ser um clube de referência em Portugal.

Ficou desiludido por não ter conseguido ser campeão esta última época?

Vivi dois períodos de seca de 18 anos e o Sporting acabou por ter estado 36 anos afastado dos títulos. Sofreu. Mas, independentemente de não ter conquistado os títulos, o que mais me angustiava no Sporting era a perda do seu protagonismo institucional e desportivo. O Sporting estava a encolher, quer do ponto de vista desportivo, quer do ponto de vista institucional e era uma coisa que achava que não era compatível com aquilo que o Sporting tem de ser e com aquilo que os seus adeptos esperam que o clube seja. O Sporting, nesse contexto, depois de algumas décadas em que encolheu mais do que seria desejável mostrou a sua resiliência, mostrou que as pessoas acreditam e recuperou essa sua afirmação. Hoje o Sporting pode não ganhar, mas está lá. Traduzindo por miúdos, acabou o chamado síndrome de Natal, que era um tormento e que acabou por desaparecer. O Sporting claramente tem um desempenho que lhe permite ir muito mais longe do que o Natal e de estar presente nas grandes decisões, nos grandes palcos. Isso, para mim, como adepto antigo e ainda sofredor é uma grande alegria.

Alguma vez ponderou avançar para uma candidatura à presidência?

Ponderei, sim, mas a minha mulher não se mostrou muito disponível. Hoje em dia tenho pena. Houve uma altura em que estava bastante familiarizado com todas as questões do Sporting, nomeadamente quando fiz parte da direção de Filipe Soares Franco entre 2006 e 2009. Em 2009 ponderei seriamente candidatar-me, mas diria de uma forma eufemística que os ventos não sopraram nessa direção.

Ainda vai a tempo.

O Sporting está bem entregue, Graças a Deus. A minha vida passa por outros projetos. Ao Sporting disponibilizo-me sempre. Aceitei ser presidente do grupo Stromp. Tenho sempre disponibilidade para o Sporting, mas do lado de fora.

De onde vem essa paixão do Sporting?

Vem do meu avô materno que era um grande adepto do Sporting. Era o único neto rapaz e de 15 em 15 dias levava-me ao estádio de Alvalade. Com ele aprendi a gostar e a respeitar o Sporting.

Nunca passou por uma fase rebelde de querer mudar de clube?

Nunca tive tendências negacionistas relativamente ao Sporting. O meu avô era uma pessoa muito engraçada. Ia sempre para a bancada superior sul, porque achava que a superior norte dava azar. Nunca assobiei a um jogador do Sporting porque dizia que não era bonito. Aprendi a respeitar e a defender o clube em todas as circunstâncias. Só vi o meu avô zangado uma vez. Naquela altura, as bancadas eram de cimento. O meu avô, por simpatia, alugava almofadas que custavam, se não me engano, 15 tostões cada. Uma vez, miúdo, o Sporting provavelmente teria perdido, irritei-me e atirei uma almofada lá para baixo. O meu avô obrigou-me a ir buscar a almofada, tive de descer aqueles degraus íngremes e de a repor no sítio. Devo-lhe dizer que, ainda hoje, sempre que vou ao futebol lembro-me dele.

Nem sempre é fácil manter a calma.

Um dia vou escrever sobre os comportamentos impróprios de numerosas individualidades respeitáveis. Defendo que se Lenin fosse vivo teria eleito o futebol como o grande soviete. Todos somos iguais perante o futebol: ricos, pobres, independentemente da condição social, da religião, da raça, tudo. Tenho grandes amigos no futebol que nem sei os apelidos, só conheço os primeiros nomes porque o futebol gera cumplicidades e amizades totalmente improváveis. É difícil, muitas vezes, um adepto não exteriorizar as suas emoções, mas acho que o futebol é mesmo para isso. O futebol tem um efeito libertador.

E não sente que, às vezes, não é extravasado para os programas desportivos?

Vivo na ilusão de que se pode discutir futebol com a mesma elevação e serenidade com que se discutem outros temas. Poderá pensar que é mais uma ilusão romântica, mas não encaro discutir futebol, nem nada na minha vida, que não seja de acordo com estes dois parâmetros. Graças a Deus tenho tido nos painéis em que intervenho companheiros que de alguma maneira partilham desta minha posição. Discutir o futebol, em que a razão é daquele que fala mais alto, ou que esbraceja, ou que é mais agressivo é um peditório para o qual não dou.

Essa violência depois, muitas vezes, reflete-se na rua e nos estádios.

Completamente, mas os dirigentes e os protagonistas devem dar o exemplo, a começar pelos jogadores, pelos dirigentes e pelas pessoas envolvidas no mundo do futebol porque depois isso tem um efeito de repercussão brutal. Há coisas no futebol em Portugal que me entristecem a todos os níveis, nomeadamente a nível comportamental. O futebol é um desporto de família e estas devem-se sentir seguras e confortáveis nos estádios.

As claques potenciam este tipo de comportamentos?

Sou completamente a favor das claques, mas estas devem ter como objetivo e função puxar pelos clubes. Toda a perversão das claques - em que todos os dirigentes são culpados por as claques se tornarem outra coisa que não claques - sou contra. Tudo o que seja favorável à pacificação do futebol, a que os recintos sejam locais seguros, agradáveis e onde as pessoas se sintam à vontade sou a favor. Tenho lutado muito nesse sentido, embora reconheça que há coisas que funcionam ainda muito mal. O Sporting está a tentar, mas mesmo assim acontecem coisas que não gosto. Tudo o que seja tochas, fumos, petardos, ou seja, tudo o que pode molestar pessoas indefesas e que ainda por cima são ilegais e que custam ao clube centenas de milhares de euros por ano sou contra. Da mesma forma que se está a modernizar o estádio de Alvalade e se está a criar condições para que as pessoas vejam o futebol de uma forma mais confortável também sou completamente a favor de erradicar do futebol dessa praga que são os comportamentos excessivos das claques. Aliás, aconteceu isso em Inglaterra, não é muito difícil. É uma questão de organização e de métricos.

Como viu o regresso precoce da Seleção portuguesa no Mundial?

Não me surpreendeu. Parafraseando Camões, houve um rei que fez fraca a forte gente. A equipa jogou sempre menos do que aquilo que podia fazer, mas há razões mais complexas que nos atiraram, mais uma vez, para este triste fado.

Viu com naturalidade a saída do selecionador?

O grande problema do selecionador não foi ter saído, foi ter entrado. Não foi a melhor escolha. Foi uma escolha ditada por circunstâncias muito específicas, fez o seu papel, com certeza o melhor que pôde e que soube. O que discuto foi o perfil de quem foi contratado, ainda hoje tenho dificuldades em perceber. Portugal sofreu de falta de galvanização e de liderança. Houve opções erradas, táticas erradas que, a meu ver, se repercutiram negativamente no desempenho e no rendimento da Seleção. Qualquer pessoa que percebe o futebol sabe perfeitamente do que estou a falar. Acho que esta Seleção nos permitia sonhar com voos mais altos.

Cristiano Ronaldo foi alvo de muitas críticas. As pessoas têm memória curta?

O futebol não vive de saudades, nem vive de gratidões. O futebol é de uma crueldade extrema, mas faltou galvanização. Merecia ter outra forma de liderança que entusiasmasse mais, que motivasse mais.

Em relação à política. Foi um dos fundadores do PPD. Como é que vê o seu atual estado?

A minha passagem pela política ensinou-me muito e a minha passagem pelo PPD acrescentou. Dei dois anos da minha vida ao PPD, numa altura, em que o PPD vivia para sobreviver. Aprendi a resiliência, a crença e a defesa intransigente. Tenho pessoas que aprendi a admirar. E há duas que com quem trabalhei mais diretamente: Magalhães Mota e Sá Carneiro, que foram pessoas marcantes na maneira como encaravam a política. O PPD foi um surgimento de diversos setores da sociedade civil e a gente do PPD era absolutamente notável. O PPD não nasceu nem com nomes, nem com dinheiro, mas sobreviveu. E sobreviveu à custa de muito heroísmo, muitas vezes anónimo e teve seriamente ameaçado até 1976. No entanto, conseguiu fazer valer os seus valores e os seus princípios.

O PSD ainda reflete as ideias com que foi criado?

O PSD é uma prova de resiliência. É uma prova que os valores dos seus fundadores tinham alguma perenidade. O percurso do PPD foi variado, teve muitas declinações, como o Sporting, e teve um papel destacado na vida política nacional que é extremamente importante. O PPD é indissociável do ímpeto reformista, tem um legado e uma marca que é o de melhorar a sociedade e melhorar as condições de vida do cidadão.

O Governo tenta avançar com algumas reformas, nomeadamente com o Código de Trabalho, mas sendo minoritário é mais difícil.

A política e o futebol têm, infelizmente, muitas parecenças no lado mais lunar. O Sporting, no decurso da época passada, apresentou uma proposta para que o VAR pudesse intervir nos cantos mal mercados. Houve um jogo que o Sporting ganhou em Ponta Delgada, contra o Santa Clara, porque o árbitro assinalou um canto mal marcado, logo por azar, o Sporting marcou um golo e caiu o Carmo e a Trindade. O Sporting apresentou essa proposta e foi recusada, até com ironia, por parte do presidente do Porto. Agora foi apresentada a mesmíssima proposta pelo Sporting de Braga e foi aprovada na assembleia-geral da Liga. Mutatis mutandis tem muito a ver com a política. Não há cultura em Portugal do entendimento, até porque os políticos acham que o entendimento é uma voz de fraqueza que poderá ter custos eleitoralmente. Tenho pena, porque, olhando para o espetro político português, a perspetiva de governos minoritários parece que é uma tendência que vem para ficar. Há entropias que se criam porque as pessoas têm na vida política uma visão e uma cultura predominantemente futebolística. É muito a pensar naquilo que as próximas eleições eventualmente poderão trazer e não necessariamente nos interesses do país. Há coisas que devem ser mudadas, há legislação que deve ser alterada e que está pendurada. Por exemplo, o Código da Comunicação Social é uma urgência. O Código da Comunicação Social esteve a ser preparado por Carlos Abreu Amorim quando tinha a tutela da Comunicação Social e está esquecido nas catacumbas à espera porque é difícil fazer passar um Código da Comunicação Social num contexto de um Parlamento tão debilitado. Gosto de ver o PSD como um protagonismo fiel aos seus valores, aos seus princípios. Embora em termos da maneira como a vida política corre tenho pena que haja tão pouco entendimento.

E como vê o crescimento deste extremismo?

Portugal já esteve muito mais extremado do que está agora. O problema não está nos movimentos extremistas, eles existem e têm de ser devidamente combatidos na parte em que ameacem os valores da democracia. Isso para mim é perfeitamente claro. Agora, no contexto do atual quadro parlamentar podia e devia haver mais entendimento e não há. É isso que, de alguma maneira, lamento, porque, no limite, é a qualidade de vida dos portugueses que sofre. Se calhar, um dia, no futuro, chegaremos a esse estado de maturidade democrática. Não há um pacto de regime há décadas, não é normal e os poucos que houve foram rasgados.

Na campanha eleitoral nas últimas eleições falou-se muito em Sá Carneiro. Ficou surpreendido?

Sá Carneiro era uma personagem fascinante que recordo com muita saudade. Substituí António Patrício Gouveia quando foi para Stanford com António Borges e pediu-me para secretariar Sá Carneiro. Tive momentos inesquecíveis de convívio diário. Uma pessoa sempre muito afável e aprendi com ele o que é a política e o que são os princípios. E os princípios não transigem. Era um homem de princípios e de valores, o que lhe custou diversíssimos amargos, poucas amizades naquele percurso conturbado que foi o PSD de 1974 até a primeira vitória da AD.

Podíamos ser um país diferente se não tivesse acontecido a tragédia em Camarate?

Garantidamente, Sá Carneiro teria tido um papel decisivo como teve Mário Soares na vida política. Era um homem que tinha carisma e capacidade. Raramente encontrei alguém tão seguro dos seus valores. Era um homem de princípios, de valores, que não transigia, numa altura em que toda a gente empurrava o PPD para se desvirtuar da sua matriz e soube manter. Nesse contexto tem um legado, a meu ver, absolutamente fundamental e é justo que se invoque o seu nome porque continua presente naquilo que é a essência hoje em dia do PSD. Claro que umas vezes mais liberal, outras vezes mais social-democrata, mas a política tem muitas circunvoluções.

Outra paixão é a escrita. Primeiro lançou o livro Alegre Sereia e agora o Urânio. Como surgiram estas ideias e o nome de Carlos Rayo?

Esse é o meu nome. Sou do tempo em que o Salazar achava que os portugueses tinham nomes muito compridos - e era capaz de ter razão - e quando o meu pai foi-me registar no Registo Civil só podia ter três apelidos e dois nomes próprios, Rayo era um dos apelidos do lado da minha mãe, do tal meu avô. No fundo, recuperei o que perdi em tempos e também não quis misturar o meu nome profissional com estes devaneios literários.

Porque diz que são devaneios literários?

Sempre fui um leitor compulsivo. E, como dizia António Lobo Antunes, escrever é uma outra forma de ler. Essa foi a primeira motivação, depois há uma segunda que é o facto de ter passado 50 anos da minha vida a escrever peças para tribunal que têm uma liturgia muito específica. Este é um bocadinho o grito de revolta do advogado, que despe as suas vestes, que se liberta um bocadinho de uma espartilha em que sempre escreveu, ou que se viu forçado a escrever e decide escrever sobre outras coisas. Esses dois livros têm duas géneses muito diferentes. O livro Alegre Sereia tenta reviver o ambiente de Cascais dos anos 60. Vivia em Lisboa e passava férias em Cascais. No dia 10 de junho, invariavelmente, a família mudava-se, como muitas outras, para Cascais até ao dia 5 de outubro. Durante quatro meses vivia no paraíso e nunca consegui transmitir aos meus filhos o que era esse atrativo de férias. Cascais mais pequeno, em que as pessoas se conheciam praticamente todas, muito mais seguro e diferente do Estoril que tinha, claramente, uma faceta mais cosmopolita. Cascais era ainda uma vila de pescadores. Este livro também é uma homenagem à minha mulher. Conheci-a na praia, o que é impensável hoje em dia, no tempo do Tinder e essas coisas. Quis-lhe dedicar o livro para, de alguma maneira, revisitarmos em conjunto aquele ambiente irrepetível. E é um bocado a génese do livro e a sua razão de ser. Aliás, escrevi o livro às escondidas e só depois é que anunciei à minha mulher que tinha escrito e que lhe tinha dedicado. Ficou muito satisfeita, às vezes, ainda consigo surpreender apesar deste tempo todo. Foi um exercício feito um bocadinho às cegas porque desconhecia se tinha algum valor literário ou não.

Foi fácil publicar?

Tive um anjo da guarda. Falei com uma escritora chamada Isabela Mendes Ferreira que fez a revisão do livro e arranjou-me uma editora. Quando nos atrevemos a enveredar por caminhos desconhecidos é bom ter alguém com uma lanterna que nos vá alumiando. O segundo livro, Urânio!, já é um género diferente, sempre fui um devorador dos chamados legal thrillers e é dedicado a John Grisham, o grande divulgador deste género. É uma ficção que tem como tema principal uma relação das personagens com o sistema, mas com o Direito, pouco com a política. A trave mestra de um legal thriller é a interação dos protagonistas com o mundo do Direito, dos tribunais, da Justiça, da lei e achei engraçado fazer a digressão nesse contexto.

Já reconheceu que por ser advogado tem sempre histórias para contar.

Um advogado tem sempre histórias para contar. O Urânio! nasce de uma experiência pessoal, o que torna mais fácil alinhar as ficções. O próximo será um livro sobre o Estoril e já está feito.

Disse que não conseguiu transmitir aos seus filhos a ideia de que como era Cascais nos anos 60, mas em relação ao desporto e à profissão conseguiu?

Consegui. Todos os meus filhos são advogados e sportinguistas, mas não tive qualquer interferência para que fossem advogados. Julgo que tiveram o avô como pessoa de referência, mas foi muito gratificante vê-los abraçar a minha profissão.