Vai lançar o livro Prestar Contas. Sentiu necessidade de justificar o que aconteceu durante as duas décadas em que esteve na Câmara de Cascais?
Sim, especialmente da última década. Considerei que era uma obrigação prestar contas para quem teve esta responsabilidade durante todos estes anos e até acho que devia ser uma prática generalizada. Entre março e outubro, ainda durante o mandato, fiz 30 vídeos sobre vários temas e com base nesses vídeos e também por um conjunto de entrevistas feitas por Inês Serra Lopes fizemos o livro. Por outro lado, tento demonstrar que este percurso foi feito com muita gente, não é um percurso apenas e só individual e contou com instituições, movimentos associativos, empresários e muitos outros que ajudaram a fazer aquilo que foi feito.
Outros autarcas ou outros políticos com cargos públicos deviam prestar esse tipo de contas?
Sem dúvida, até por questões de ordem histórica. No meu caso, as próximas gerações ficam a saber porque é que as coisas aconteceram, qual foi a estratégia seguida com as prioridades que foram definidas, sem esquecer uma perspetiva muito pessoal. Tenho sete netos e, pelo menos, ficam com uma memória do avô. Tenho cinco filhas e quando faziam 18 anos, o meu presente era uma carta com mais de 40 páginas. Estavam sempre a dizer-me que devia escrever uma carta para cada neto – tenho a noção que muito provavelmente não estarei cá quando alguns fizerem 18 anos, tenho duas filhas que ainda nem sequer são mães – o que seria um encargo muito grande, mas fica o livro e eles ficam a conhecer uma faceta do avô.
Estas páginas contam também a história de um concelho que mudou. Como o encontrou e como o deixou?
Espero ter deixado o concelho, tal como digo no livro, mais preparado do ponto de vista social, da coesão social e da coesão territorial. Apesar de ainda existirem algumas diferenças entre algumas das áreas do concelho, penso que deixo uma comunidade muito mais preparada para ultrapassar os desafios que se vão colocando, muito fruto das crises que marcaram esse período. Tivemos crises de toda a ordem, logo em 2011, quando assumi a presidência estávamos no pico da bancarrota, depois tivemos crises políticas, sanitárias, com a covid, e belicista, com a guerra na Ucrânia. Todas estas crises têm um impacto económico muito grande e, naturalmente, afetam os mais fragilizados, seja por razões socioeconómicas, seja por razões de doença ou por questões de idade. Hoje o concelho responde de uma forma extraordinária sempre que há algo novo porque saímos sempre mais fortes das várias crises, também fruto de outras políticas que já vinham a ser implementadas. Acredito que a democracia continua a ser o melhor dos sistemas inventados pelo homem, mas vai apresentando algumas fragilidades e uma das formas que encontrámos de colmatar essas fragilidades, ou de reforçar ainda mais a democracia representativa, foi apostar em modelos de democracia participativa e colaborativa. Hoje a comunidade de uma forma geral responde com uma força e com uma disponibilidade, diria até mesmo com amor ao próximo, de uma forma extraordinária. Isso é uma marca que fica, não se vê, nem teve nenhuma inauguração.
E todas estas crises exigiram uma resposta articulada.
Tem de haver estratégia, que é uma coisa que, muitas vezes, falha, e como os portugueses não tem estratégia, as coisas vão andando ao rumo dos acontecimentos. Se houver uma estratégia há, pelo menos, uma linha comum e alicerces, onde podemos ir buscar as soluções para combater os males que, entretanto, possam estar ocorrendo. Por outro lado, estar muito atento às oportunidades, porque a crise cria grandes dificuldades, mas também cria oportunidades e, nesse sentido, Cascais afirmou-se nessas oportunidades. Ou seja, a decisão política tem de estar suportada por aquilo a que chamei de academias: as do saber, neste caso as universidades, as academias do fazer, neste caso a Câmara e as empresas, e as academias do cuidar. Cascais tem uma vantagem muito grande porque, neste momento, temos uma rede social com mais de 150 entidades que consegue abranger um conjunto de áreas muito alargadas que ajudam a fundamentar e a implementar as decisões, que é outra coisa em que também, muitas vezes, falhamos. Somos ótimos enquanto portugueses no diagnóstico e depois falhamos na execução. Cascais também fica com essa preparação e hoje é muito difícil já andar para trás.
Houve decisões mais difíceis de tomar do que outras? Arrepende-se de algumas?
Nenhuma decisão é difícil desde que esteja coerente com a nossa consciência. Faria hoje algumas coisas de forma diferente? Com certeza que sim, acho que até é uma estupidez quando se responde que se fazia exatamente o mesmo. Aprendemos, experimentámos e daí tiramos conhecimento. Agora, arrependimento propriamente dito ou algo que considere que tenha sido completamente errado não porque, pelo menos na minha consciência, tomei as decisões sempre de uma forma coerente. Se esta linha for seguida não há propriamente decisões difíceis. Há algumas decisões mais complicadas e a diversidade de assuntos é enorme, mas com o tal apoio, quer do processo da democracia participativa, quer do processo da democracia colaborativa, quer chamando as tais academias, a margem de erro também fica mais reduzida. Há mais participação e, como tal, há mais escrutínio e minora o risco.
Calculo que há áreas que mais difíceis de decidir do que outras. A habitação é exemplo disso?
Alguns se lembrarão de que há poucos anos se falava que havia casas a mais, depois chegou-se à conclusão que não há. Uma das coisas que decidimos foi conter os perímetros urbanos. Ou seja, não permitir que a urbe invadisse mais espaço natural. Cascais hoje tem em espaços naturais, qualquer coisa como 40 e muitos por cento, quase 50% do território, em que só um terço é parque natural. E ao conter os perímetros urbanos permitiu que o mercado se voltasse para dentro do perímetro, o que teve uma vantagem grande que foi recuperar todo o património edificado, público e privado. Muitas vezes, não se tem essa noção, mas ter um prédio inacabado ou ter um prédio completamente degradado ou ter aquilo a que se chama de vazio urbano só acumula lixo. A desvantagem é que nunca se construiu tão pouco como neste período e isso é demonstrado por dados estatísticos, não só internos, mas também oficiais. Ora, havendo uma qualidade de vida que foi melhorando, naturalmente que a procura é maior e acaba por agravar ainda mais o problema de não haver casas. E a procura aumentou substancialmente, não só de cidadãos de Cascais, mas também de cidadãos nacionais de outras partes do território e de cidadãos não nascidos em Portugal. Costumo dizer que temos 80% das nacionalidades do mundo, mas ainda assim, não temos estrangeiros porque estão todos bem integrados e fazem parte da comunidade e também todos participam dentro desse processo. Sempre fomos um concelho, até pelas nossas características naturais, de acolhimento e em que valorizamos a diferença. Consideramos que a diferença soma, não diminui, multiplica, não divide se for acompanhada de políticas públicas que permitam fazer essa integração. No caso da habitação, o Estado não tem feito habitação. Se recordarmos foi na década de 90 do século passado que houve um programa público de habitação, era à época, o primeiro-ministro Aníbal Cavaco Silva. Ainda assim, Cascais tem hoje uma percentagem de habitação pública maior do que em muitos concelhos do país, temos cerca de dois e meio do parque habitacional em habitação pública. Ora, sendo nós um dos maiores em habitação pública ainda são percentagens muito baixas comparadas com outros países e especialmente para as necessidades que existem. E, por isso, quando apareceu o PRR foi necessário fazer todo um planeamento, toda uma estratégia, até porque tinha uma questão de prazos. Para cumprir e para poder aproveitar o PRR na sua plenitude demos uma primeira prioridade que foi recuperar o stock de habitação pública que existia, no entanto, há uma discussão que se vai ter de fazer no país: não é possível ter rendas de cinco euros por fogo em que, muitas vezes, as famílias quando saem deixam a casa completamente deteriorada e não voltamos a entregar sem as recuperar. É um modelo que está falido e tem de ser alterado. Ou seja, temos situações, em que há um conjunto de cidadãos que atacam a própria sociedade quando esta lhes está a dar um bem tão escasso quanto é a casa.
Então considera normal o discurso de Ricardo Leão sobre de direitos e deveres para todos?
Estou completamente de acordo com o presidente Ricardo Leão, não há nenhum direito sem estar acompanhado de obrigações. Isso é algo que forma o tal conceito de cidadania, em que temos direitos, mas também temos de cumprir com as obrigações. Temos de reverter esta situação, mas a nossa preocupação foi aproveitar o dinheiro do PRR porque era o dinheiro mais barato que havia, não tinha juros, nem sequer tinha de ser devolvido se fosse cumprido, e ao mesmo tempo, lançar nova habitação. O Governo tem feito um esforço muito grande em mudar as próprias leis, em agilizar a construção de nova habitação e de a diversificar porque não tem de ser só o Estado a responder a esta necessidade, não há razão nenhuma para que os privados não sejam chamados. Claro que os privados não têm de cumprir a função social, esta deve ser cumprida pelo Estado, ainda mais é com os nossos impostos. Posso dar uma ideia para explicar melhor: não há nenhuma razão para não haver uma lei que permita que se licencie uma construção para que possa desde o início ter como destino o arrendamento. Ou seja, a câmara arrenda ao privado e depois coloca os imóveis a preços mais acessíveis para a sua população. Depois há outra preocupação que é a necessidade de ter terrenos, já que ainda não se constroem casas nas árvores. E aí seguimos dois caminhos. Um imediato, na altura, tive a oportunidade de propor ao primeiro-ministro António Costa que foi seguida pelo Governo, e bem, foi que considerasse que a habitação pública era equipamento. Até aí, de acordo com a legislação urbanística quando se fazia um loteamento tinha de se fazer cedências de terrenos, quer para equipamentos, quer para espaços verdes. O que acontecia normalmente é que não apareciam nem os equipamentos, nem os espaços verdes e no caso dos equipamentos, as câmaras nem sabiam que equipamentos é que iriam pôr, logo, eram terrenos que estavam desperdiçados. A outra componente que desenvolvemos foi comprar muitos terrenos. Em Cascais não era fácil, mas como tínhamos uma boa relação com a banca conseguimos comprar alguns ativos que tinham chegado por via de dação em pagamento. Com esta política Cascais conseguiu mais do que duplicar o parque habitacional existente e garantir que, nos próximos 15 anos, consiga produzir 800 fogos por ano, garantindo que o problema fica resolvido para as atuais gerações e também já para o futuro. No entanto, surge um outro problema que tem de ser ultrapassado que é a falta de mão-de-obra. E como não quero ficar parado e já fizemos isso no passado com o turismo e com a hotelaria é preciso ir buscar mão-de-obra de forma organizada para quem está a precisar, nomeadamente as construtoras, dando maior relevo aos que falam português. A língua é o primeiro fator de integração, por isso é que, desde há 15 anos que damos aulas de alfabetização de português e isso evita outros problemas, pois caso contrário forma-se guetos.
Com as novas regras, o Governo tem criado entraves à imigração.
Não sendo um especialista nessa matéria mas do que observei é que havia uma situação completamente desregrada e agora passou a haver regras. Isso é positivo, não podíamos estar de portas escancaradas porque depois não sabíamos quem entrava, nem conseguíamos criar condições para dar dignidade aos que entravam. Cheguei a visitar muitos bairros de barracas e aquela situação chocava, apesar de ter noção porque trabalhei muito nesses países é que, ainda assim, tinham condições melhores do que as que tinham nos países de origem. No entanto, para a nossa cultura e para a nossa forma de estar na vida são situações completamente indignas de se viver, além de ter criar um efeito dominó porque depois isso cria mais problemas de saúde e de educação.
Mas é mais fácil gerir uma Câmara com um poder per capita superior em relação a outros concelhos.
Quando entrei a Câmara tinha dificuldades em garantir o pagamento de salários no final do mês e foi preciso fazer uma reestruturação. Fizemos um levantamento de alguns ativos que acabaram por ser vendidos, sendo que o ativo da Câmara depois acabou por aumentar de forma substancial, comprámos muito mais do que vendemos. Nunca se investiu tanto como se investiu nestes últimos anos e ainda conseguimos reduzir os impostos e aumentar os apoios sociais. Isso parece quase a quadratura do círculo, mas é possível fazer-se. Agora, também é preciso que quem decide assuma risco. Muitas vezes com medo da crítica ficamos, como se costuma dizer, nas covas e não fazemos. Claro que quem não fizer nada nunca vai ser criticado.
Mas depois o trabalho é zero.
Depois sofre as consequências, mas normalmente as consequências só aparecem depois de ter terminado o mandato e a história há de o julgar mal. Essa é outra situação que questiono, não é só ao nível de Portugal, é ao nível da Europa e ao nível mundial de como é que as futuras gerações irão avaliar nossa geração. Estou convencido que a avaliação não será boa, até por motivos de ordem ambiental.
O prefácio foi feito por Passos Coelho. Já disse que há um reconhecimento generalizado pelo trabalho que fez, mas também criou anticorpos.
Tenho um reconhecimento muito grande por Passos Coelho e começa-se a generalizar cada vez o reconhecimento do que fez. Fui vice-presidente do PSD, tal como menciona no prefácio, e acompanhei de perto as dificuldades que Portugal passou e que foram absolutamente brutais. Disse que a Câmara não tinha dinheiro para garantir os ordenados no final do mês; nessa altura, Portugal estava em risco de não poder pagar aos professores, aos juízes, aos militares, aos polícias, uma bancarrota total provocada pelo Governo socialista, que teve de chamar a troika. Teve de chamar alguém que viesse apoiar financeiramente e em troca impor um conjunto de obrigações para poder emprestar esse dinheiro. Tudo isto foi acompanhado por outro processo que não estava à vista de todos, nem tem que ficar, mas somos humanos e temos família e há um conjunto de outros fatores adversos que entram dentro da nossa esfera mais próxima, são dificuldades que temos de ultrapassar. Por exemplo, neste percurso todo tive um neto com três anos confrontado com um cancro. Tenho por Pedro Passos Coelho um respeito enorme, uma admiração grande e, acima de tudo, um reconhecimento pelo esforço que fez. Estou mesmo convencido que se não tivéssemos tido um homem com o caráter dele e com a sua determinação teríamos passado muitíssimo pior, como, por exemplo, passou a Grécia. A Grécia passou por um processo semelhante, mais ou menos ao mesmo tempo e que se arrastou durante anos e anos. Tiveram uma crise que foi brutal para a sua população porque não tiveram alguém com essa liderança, determinação e competência. Quando pedi a Pedro Passos Coelho para fazer o prefácio do livro e ele aceitou deixou-me muito alegre.
Passos Coelho já esclareceu que não se vai candidatar ‘a coisíssima nenhuma’, mas Luís Montenegro já marcou as eleições internas do partido.
Vejo algumas coisas no nosso espaço público que revelam um desconhecimento puro da realidade. Montenegro não antecipou, nem marcou à pressa nenhumas eleições internas no partido. E porquê? Da primeira vez que concorreu, as eleições foram em junho. Da segunda vez, porque havia eleições nacionais teve de adiar e foram em setembro e agora voltou ao calendário normal. Os partidos têm estatutos e Montenegro não antecipou rigorosamente nada. Por outro lado, quem conhece as dinâmicas partidárias sabe perfeitamente que um líder que está no exercício de funções de primeiro-ministro nunca perderá qualquer eleição interna. As palavras de Pedro Passos Coelho, que veio pedir reformas, geraram algumas interpretações, a meu ver, erradas. Logo a seguir, Cavaco Silva disse exatamente a mesma coisa, e Montenegro também defende isso, depois a questão é ter condições ou não.
Sendo um Governo minoritário, está numa situação mais frágil para fazer reformas.
Essa é uma das circunstâncias. E mais do que isso é que, neste momento, na minha interpretação, há uma perda de confiabilidade. Todos os partidos estão a jogar no dia de amanhã, no curto prazo, sem porem em primeiro lugar o verdadeiro interesse nacional, e isso complica ainda mais a situação porque o foco está na tática, está no truque e não na estratégia. E isso não é algo que seja bom para o país. Ainda assim, Luís Montenegro tem vindo a tentar implementar um conjunto de reformas, mas a palavra reforma também assumiu um outro peso porque na realidade é uma atualização aos tempos que vivemos. Agora está em discussão a reforma do Código de Trabalho, em que todos reconhecem que há um conjunto de medidas que já estão completamente desatualizadas. O mesmo acontece com a própria Constituição porque vieram novos fenómenos, surgiram novas realidades e o que foi estabelecido há anos fica desatualizado. Portanto, ou queremos ser um país atual, um país que tem capacidade para aproveitar as oportunidades e para superar as dificuldades que está a ter ou então não temos os mecanismos suficientes e necessários para poder reagir.
Em relação à revisão da legislação laboral temos assistido a um impasse. Acredita que é possível chegar a acordo?
Estou convencido que vai haver um acordo, até porque todos têm consciência e têm o sentido de responsabilidade de perceber que esse acordo é necessário. Agora ainda estamos na fase da disputa.
O Presidente da República já disse que seria desejável que esse acordo seja feito em Concertação Social.
O Presidente da República tem tido um papel importantíssimo como fator de estabilização e de credibilização do sistema. Nenhuma sociedade se desenvolve se estiver assente na desconfiança. A confiança é o primeiro fator de desenvolvimento de uma sociedade. Se na nossa família começarmos a desconfiar uns dos outros não é uma família com ambiente saudável, se no nosso clube começarmos a desconfiar uns dos outros, o clube não vai ter grande sucesso. E isto pode ser escalado, como estamos a ver agora a nível mundial. Nesse sentido, é preciso a intervenção do Presidente da República para criar ou restabelecer laços de confiança nos vários agentes. Não têm de pensar todos da mesma forma, nem é saudável que isso aconteça, mas é preciso criar consensos. Esse é um papel que cabe à magistratura de influência que necessariamente o Presidente da República tem. Estou convencido que no final vai haver uma conjugação de interesses e até admito que todo este processo vai acabar por enriquecer a solução final, mas tem de haver ajustes de cada parte.
O clima político, estando mais encrespado, dificulta essa negociação saudável?
Sim, como é óbvio. Até porque houve uma alteração profunda que acredito que seja momentânea, mas há muitos agentes políticos que dizem hoje uma coisa e amanhã dizem o seu contrário só para terem uma primeira página de um jornal ou para serem uma abertura do noticiário. Ou seja, dizem só aquilo que sabem que as pessoas querem ouvir sem perceber quais são as consequências a médio e longo prazo, logo, sem a tal estratégia. Quem estuda organização percebe que tem de haver estratégia, tem de haver definição de políticas e têm de ser estabelecidas prioridades, depois admito que um ou outro truque possa ter de ser feito. Agora está tudo invertido: truques temos muitos e chegamos à estratégia e é zero. Como disse um amigo meu, o mundo é um local que está cada vez mais mal frequentado. Isto é algo que vai afetar negativamente aqueles que estão mais fragilizados, não há nada que concorra positivamente para quem está fragilizado, seja por questões socioeconómicas, seja por questões de doença, seja por o que for. Isso obriga a que os atuais agentes políticos tenham de ter um sentido de responsabilidade muito apurado, não basta fazer mais do mesmo. Já os nossos navegadores que descobriram o mundo diziam que se seguirmos os mesmos ventos e as mesmas rotas chegamos sempre ao mesmo sítio. Se estivermos satisfeitos com o sítio onde chegamos não há que mudar de vento, nem mudar de rota; agora, eu sou dos que não estão satisfeitos, daí defender essa mudança de rotas e essa mudança de ventos, mas isso cria uma responsabilidade acrescida para os atuais líderes políticos.
Por falar na mesma receita, há quem peça apoios semelhantes aos que foram aplicados na covid para atenuar o impacto do conflito no Médio Oriente. Concorda?
Aprendi com a covid que há um conjunto de respostas que não podem ser generalizadas. Por exemplo, a questão da habitação, que é um dos nossos maiores problemas, agora dizíamos: o Estado vai fazer casas para todos e vai arrendá-las por cinco euros por mês por apartamento. Quem é que concordaria? Todos, mas isso seria fatal para o país. Um político que fizesse esta promessa provavelmente no curto prazo teria uma maior aceitação, mas não era sustentável. Temos de definir prioridades e o Governo tem estado a reagir, na medida daquilo que é possível reagir. Claro que quando vou abastecer o carro custa-me mais do que me custava no passado, mas também evidencia uma outra coisa que este Governo tem vindo a melhorar e a resolver, que é a questão dos transportes públicos. Por variadíssimas razões, não podemos manter o sistema que temos, mas também é certo que estávamos completamente desconectados em termos de transporte público. Lembro-me que ia para a escola ou a pé ou de transporte público, hoje isso não acontece.
Sai amargurado por não ter conseguido implementar a faixa de transportes públicos na A5?
Saio, acho que é fundamental, mas pelas informações que tenho do ministro das Infraestruturas está a andar finalmente. A Brisa, que é concessionária da autoestrada, está disposta a fazer o investimento, mas chega ao Governo e diz que é preciso renegociar o prazo de concessão para poder amortizar esse investimento, o Governo aceita mas também diz que há um conjunto de trabalhos que não foram feitos porque não foram precisos e para resolver esse problema é necessário criar uma comissão que avalie quais são os trabalhos a mais e quais são a menos, sabendo que os trabalhos a mais serão mais do que os trabalhos a menos e, a partir daí, definir um prazo. O que é certo é que os vários governos nunca criaram esta comissão interna. Este Governo já criou essa comissão e pelo que sei deverá em breve apresentar os resultados e acredito que seja mais fácil de implementar. A mesma coisa com a linha de Cascais, que é fundamental para o concelho: uma das coisas que me dói é não ter ainda a linha funcional porque, muitas vezes, baralhamos as coisas do ponto de vista ideológico em prejuízo da população. Pedro Passos Coelho tinha a solução delineada, ou seja, a infraestrutura continuava a ser do Estado e concessionava o serviço, ou seja, concessionava as carruagens, o serviço de transporte, mas como estava a um mês das eleições, entendeu que não deveria lançar o concurso. Nessa altura, ganha as eleições, mas cria-se a geringonça, que, por questões ideológicas, disse que não porque estava a passar para privados, o que não era, e anulou. Depois tivemos um conjunto de ministros do PS que não desenvolveram nada, antes pelo contrário, só prejudicaram, até que finalmente consegui estabelecer um acordo com Pedro Nuno Santos. Muitas vezes, os meus companheiros de partido ficam um bocadinho incomodados quando elogio Pedro Nuno Santos, mas é certo que foi com que estabeleci um acordo que ele cumpriu escrupulosamente, coisa que muitos no passado, quer governantes socialistas, quer governantes social-democratas, e alguns deles até numa altura em que eram meus pares enquanto vice-presidentes da Comissão Política Nacional, não cumpriram e alguns até me enganaram. Acredito que as coisas já não tenham forma de andar para trás, nem de parar.
O PSD e Chega acordaram governação na Câmara de Cascais e o PS abandonou a coligação. Como vê esta situação?
Está ligado ao que disse, que é uma questão de confiabilidade e não havendo confiança acho perigoso. Durante os mandatos tinha a vantagem de ter maiorias absolutas mas, ainda assim, abria espaço para que, quer o Partido Socialista, quer o Chega, quer até em tempos o próprio Partido Comunista, tivesse uma participação no dia-a-dia da autarquia. No entanto, não tinha de me entregar a ninguém, ou seja, em qualquer momento continuava a ter as mãos livres para continuar a governar, o que não é o caso atualmente. Nesse sentido, acho que não foi uma boa opção, mas longe de mim estar a exercer críticas e as que tiver de fazer faço-as pessoalmente aos próprios responsáveis atuais.
Já teve oportunidade de falar com Nuno Piteira Lopes, que foi seu vice-presidente?
Sim, ainda há dias tivemos um plenário do partido e, não acentuando as tintas, como se costuma dizer, deixei clara qual era a minha posição sobre essa matéria.
Na última entrevista disse que nunca se sentiu tentado a aceitar outros cargos públicos. Passados estes meses mantém a mesma posição?
Em primeiro lugar, a política faz mal à saúde, isso para mim é claríssimo. Neste processo todo tive um ataque cardíaco, agora a minha saúde e a minha qualidade de vida melhorou de forma substancial. Isso são fatores que me levam a dizer que já dei o meu contributo, mas também já aprendi que na vida não devemos dizer nunca. Portanto, não vou dizer nunca, agora, acho muito difícil ir para a política nacional e ainda mais difícil voltar para a política autárquica. Mas isso leva a outra coisa, que é a seguinte: o exercício da política é o exercício de estarmos ao serviço dos outros, e nesse sentido há muitas áreas onde podemos manter-nos ao serviço dos outros. Como comecei a trabalhar muito novo, com 16 anos, estava em condições de pedir a reforma antecipada, até para os rendimentos da família não caírem. Aliás, isso é outra coisa estranha neste país, que é o facto de a minha reforma ser superior ao meu vencimento como presidente de Câmara, por via dos vencimentos que tive no passado. Não é que a reforma seja alta, os vencimentos dos políticos é que são baixos. Claro que isto para quem ganha um ordenado mínimo é uma ofensa, mas na verdade comparado com as responsabilidades que se tem de assumir e com a exposição pública a que se está sujeito, é baixo. Dou sempre um exemplo: a Câmara municipal de Cascais tem, neste momento, um orçamento que supera os 550 milhões de euros. Se comparássemos isso a uma empresa, quanto é que não ganharia um diretor? Já nem estou a falar do presidente do conselho de administração, mas de um diretor de uma empresa com um ativo superior a 1,4 mil milhões. Claro que o político não pode ser pago da mesma forma, mas consegue-se perceber as grandes diferenças. Quando saí da Câmara a família estava estável do ponto de vista económico-financeiro e, por isso, não estava exposto a ter de me precipitar ou ter de aceitar alguma solução de trabalho que não estivesse de acordo com a minha consciência. Passados estes meses, admito que possa vir a suspender a reforma antecipada e voltar outra vez à iniciativa privada. Há uma coisa que sei: não posso ficar parado e já estou a colaborar com um conjunto de instituições de ordem social para manter alguma atividade e até para ter algum contacto com o próprio terreno e com a população. Estou a colaborar em duas áreas, mas penso que se pode ampliar a outras, que estão relacionadas com a deficiência e com as Scholas Occurrentes, uma fundação pontifícia criada pelo Papa Francisco. Há outras formas de estar ao serviço dos outros e que não tenham de ser partidárias, nem de ser do Governo, pode ser voluntário, pode ser pro bono para continuar a retribuir à sociedade aquilo que a sociedade já me deu.