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Carlos Brito morreu aos 93 anos, em Alcoutim, no Algarve, onde vivia há largos anos. Deixa atrás de si uma vida que o dispensou sempre de se apresentar com aquele brilho húmido dos recém-convertidos a uma qualquer utopia de bolso. Com meio século de militância, viveu clandestino, dirigiu organizações do PCP, foi muitopróximo de Álvaro Cunhal, líder parlamentar durante 15 anos, deputado constituinte, candidato presidencial, diretor do Avante!. Nunca se viu a enobrecer com as divisas de algum ideal, desalmadamente empenhado em nome da preservação da ordem, nem se quis entre as fileiras dos que cantam um mundo caduco, mas também não se deixou absorver por um futuro tão radioso quanto distante. Como Drummond, poderia ter dito, Estou preso à vida e olho meus companheiros/ Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças./ Entre eles, considere a enorme realidade./ O presente é tão grande, não nos afastemos./ Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Em Maio de 1957, juntamente com Américo de Sousa e Rolando Verdeal, fugiu do Aljube descendo por um algeroz, atravessando os telhados de Lisboa enquanto a polícia política dormia aquele sono moribundo em que até os sonhos surgem alinhados em frascos e etiquetados de forma conveniente, e só estalam de tédio. Chegou ao Largo da Graça a pé e chamou um táxi. Tinha 24 anos, e faltava fazer tudo, tendo pela frente mais clandestinidade, mais perseguições, mais prisões. Ao todo, passou oito anos em clausura, entre Caxias, Peniche e Aljube. «Valeu a pena», insistia há uns anos, numa entrevista à RTP, mostrando como se digerem as patadas da história, que servem para chegar a essa carne comum, a esse sentido de ‘compreensão humana’ daquilo que outros homens passam, e porque se luta antes de tudo pela libertação, contra as imposições degradantes e a tirania sob todas as formas. E considere-se que foi submetido à tortura do sono, ao isolamento e a espancamentos, o que só serviu para lhe enrijecer as convicções.
Natural de Moçambique, nasceu em 1933, mas foi em Alcoutim que cresceu, para onde a família se mudou quando tinha três anos. Mais tarde, instalou-se em Lisboa para estudar no Instituto Comercial, e foi aí que entrou na militância política. Primeiro no MUD Juvenil, depois no PCP. Aos 20 anos, a PIDE deteve-o pela primeira vez. Depois da fuga do Aljube e de novas detenções, acabaria por entrar na clandestinidade comunista. Em 1966 conheceu Álvaro Cunhal em Paris. O encontro marcou o início de uma longa proximidade política. Rapidamente ascendeu aos órgãos dirigentes do PCP e tornou-se um dos homens de confiança do secretário-geral comunista. Em 1967 entrou para a direcção do partido. No 25 de Abril de 1974 era responsável pela organização regional de Lisboa, desempenhando um papel central na reorganização e mobilização do PCP no momento da queda da ditadura.
Ao contrário de muitos quadros clandestinos que desapareceram politicamente depois da Revolução, Carlos Brito tornou-se uma das figuras mais visíveis do PCP democrático. Foi eleito deputado à Assembleia Constituinte em 1975 e permaneceu na Assembleia da República até 1991. Durante 15 anos liderou a bancada parlamentar comunista. Tinha uma imagem de dirigente disciplinado, duro, preparado para o confronto político, mas também de homem intelectualmente mais sofisticado do que a caricatura frequentemente construída em torno do aparelho comunista português.
Em 1980, avançou como candidato presidencial apoiado pelo PCP, mas acabaria por desistir a favor de Ramalho Eanes, numa manobra destinada a impedir a vitória de Soares Carneiro, apoiado pela Aliança Democrática. O recuo foi visto pelo partido como uma decisão tática decisiva num momento político particularmente tenso, poucos anos depois do fracasso do golpe de 25 de Novembro e ainda sob o peso das batalhas em torno do rumo da democracia portuguesa.
Entre 1992 e 1998, dirigiu o Avante!. Nessa altura, começavam já a surgir divergências profundas quanto ao rumo do partido depois do colapso da União Soviética. Carlos Brito passou a defender mudanças internas, maior abertura política, revisão crítica do marxismo-leninismo e aproximação a sectores da esquerda democrática europeia.
O episódio que precipitou a rutura tornou-se quase lendário dentro do universo comunista. Num artigo sobre Luís Sá publicado no Avante!, Carlos Brito descreveu o dirigente comunista como leninista. Álvaro Cunhal discordou da formulação. A discussão rapidamente deixou de ser semântica e transformou-se num debate mais fundo sobre identidade ideológica, centralismo democrático e possibilidade de renovação do PCP após o fim do bloco soviético.
Brito tornou-se então uma das figuras principais da ala dos chamados ‘renovadores’. Participou na elaboração do documento Novo Impulso, defendendo democratização interna e revisão estratégica. A direcção respondeu com processos disciplinares. Em 2002, foi suspenso durante dez meses por «desrespeito» e «afrontamento» das decisões partidárias. Outros dirigentes próximos seriam expulsos. Alguns fundariam a associação Renovação Comunista.
Apesar disso, Carlos Brito nunca se converteu num ex-comunista profissional, desses que trocam décadas de militância por um lugar confortável no comentário ressentido. Continuou a definir-se como homem de esquerda, antifascista, socialista e defensor dos trabalhadores. Divergia do PCP quanto à leitura da União Soviética, da União Europeia ou das convergências políticas à esquerda, mas recusava alinhar naquele anti-comunismo deopereta que tantas vezes serve de passaporte mediático.
Até ao fim, insistiu na necessidade de convergência entre esquerda e centro-esquerda para travar o crescimento da extrema-direita e responder às desigualdades sociais. Via com preocupação o «ressurgimento da mentalidade fascista» e defendia uma política progressista capaz de falar às populações mais pobres e fragilizadas. «A luta continua», repetia ainda recentemente.
Talvez por isso tenha causado desconforto a forma como o PCP reagiu à sua morte. Numa nota curta enviada às redações, o partido registou apenas o seu «percurso antifascista» e a sua «contribuição na Revolução de Abril», sublinhando antes as «conhecidas diferenças e distanciamento político». Foi uma despedida burocrática para alguém que soube pressentir muito a tempo que esse era precisamente o enredo que acabaria por engolir o partido e destiná-lo à irrelevância.
A associação política Renovação Comunista, de que Carlos Brito foi fundador, lembrou que ele se bateu pela necessária renovação do PCP, tendo sido um dos principais promotores do documento estratégico Novo Impulso, de 1998, «com vista à renovação interna, reorganização e democratização do partido», e que essa iniciativa culminou no «sancionamento ilegítimo de Carlos Brito e de outros camaradas».