quinta-feira, 16 abr. 2026

Calor extremo duplica limitações à vida diária desde 1950

Os cientistas defendem que medidas como infraestruturas adaptadas, maior arborização urbana e acesso à refrigeração podem ajudar a reduzir os impactos, embora o acesso a estas soluções continue a ser desigual, mesmo em países ricos
Calor extremo duplica limitações à vida diária desde 1950

O tempo de exposição da população mundial a temperaturas que impedem a realização segura de atividades físicas quotidianas duplicou desde a década de 1950.

Um estudo científico publicado esta terça-feira na revista Environmental Research: Health, revela que o aumento do calor extremo está a provocar mais horas por ano em que tarefas simples se tornam potencialmente perigosas para o corpo humano.

O trabalho de investigadores da Universidade Estadual do Arizona analisou dados climáticos globais recolhidos entre 1950 e 2024.

Jovens enfrentam o dobro das horas de calor extremo

De acordo com os resultados, pessoas entre os 18 e os 40 anos enfrentaram, nas últimas duas décadas, cerca do dobro das horas anuais de calor que limitam severamente a qualidade de vida, quando comparadas com indivíduos da mesma idade entre 1950 e 1979.

Os cientistas definem estas situações como períodos em que temperatura e humidade elevadas tornam insegura qualquer atividade mais exigente do que tarefas leves à sombra, como varrer o chão.

“A maioria dos estudos sobre calor centra-se na sensação térmica. Este estudo coloca uma questão diferente: o que pode o corpo humano fazer em segurança com este calor?”, explicou Jennifer Vanos, coautora do estudo.

Idosos são os mais afetados

O impacto é ainda mais significativo entre os maiores de 65 anos, cuja capacidade de regular a temperatura corporal é menor.

Segundo os dados analisados, esta faixa etária passou de cerca de 600 horas por ano de calor limitador da vida diária entre 1950 e 1979 para aproximadamente 900 horas anuais nas últimas décadas.

O estudo, cujo principal investigador é Luke Parsons, mostra que, globalmente:

  • Jovens adultos passaram de 25 horas anuais de calor extremo no período 1950-1979 para cerca de 50 horas por ano entre 1995 e 2024;

  • Idosos enfrentam centenas de horas adicionais por ano em que atividades quotidianas se tornam perigosas.

2024 foi o ano mais crítico

Em 2024, considerado o ano mais quente de que há registo, mais de 43% dos jovens adultos e quase 80% dos idosos foram expostos a períodos de calor e humidade que limitaram severamente a qualidade de vida.

Na década de 1950, esses valores eram significativamente mais baixos: 27% entre jovens e cerca de 70% entre idosos.

Europa entre as regiões mais afetadas

O estudo identifica várias regiões onde o aumento do calor extremo tem sido mais acentuado, incluindo:

  • sudoeste e leste da América do Norte;

  • sul da América do Sul;

  • região oriental do Saara;

  • grande parte da Europa;

  • sudoeste e leste da Ásia;

  • sul da Austrália.

Outro trabalho científico conduzido por Gottfried Kirchengast, do Centro Wegener para o Clima e Alterações Globais, indicou recentemente que o calor extremo aumentou cerca de dez vezes em partes da Europa central e do sul entre 2010 e 2024, face ao período 1961-1990.

Calor extremo já causa quase meio milhão de mortes por ano

Os investigadores alertam que temperaturas superiores a 30 graus Celsius podem provocar stress térmico e aumentar o risco de problemas de saúde, sobretudo entre idosos.

Estima-se que o calor extremo seja responsável por quase meio milhão de mortes anuais em todo o mundo.

Os cientistas defendem que medidas como infraestruturas adaptadas, maior arborização urbana e acesso à refrigeração podem ajudar a reduzir os impactos, embora o acesso a estas soluções continue a ser desigual, mesmo em países ricos.

Redução de combustíveis fósseis é essencial

Os autores sublinham que travar o aquecimento global continua a ser essencial para limitar o agravamento deste fenómeno.

“A menos que deixemos de queimar petróleo, carvão e gás, as limitações da qualidade de vida causadas pelo calor extremo tornar-se-ão cada vez mais comuns”, alertou Luke Parsons.

Segundo os investigadores, o crescimento e envelhecimento da população mundial significam que cada vez mais pessoas poderão enfrentar longos períodos do ano em que atividades diárias simples se tornam inseguras devido ao calor extremo.