Boas noites, procuro este senhor conhecido meu. Está desaparecido há 48h. Ele tem problemas de cabeça. Já foi feita a participação à polícia. Se alguém o viu que contacte para o 96*******». Este anúncio é verdadeiro e está plasmado na página de Facebook ‘Pessoas Desaparecidas em Portugal SOS’. Vem acompanhado pela fotografia do idoso desaparecido. Na ânsia de ajudar a encontrar o homem, que se esfumou na zona do Cacém, o amigo coloca o seu número de telemóvel à disposição para informações.
A porta está aberta a um novo esquema, idealizado por burlões, que se aproveitam destes casos. «Temos registado, a nível nacional, posteriormente a comunicações de pessoas desaparecidas, situações de tentativa de burla a familiares dessas pessoas», começa por declarar a comissário Catarina Monteiro, Chefe do Núcleo de Procurados e Desaparecidos, do Departamento de Investigação Criminal da Direção Nacional da PSP. «Tem acontecido muito», enfatiza a agente principal Anabela Ferreira, da Brigada de Investigação Criminal de Desaparecidos da Divisão de Investigação Criminal do Comando Metropolitano de Lisboa.
O esquema é simples e praticado sem qualquer empatia pelo sofrimento de quem busca por informações de familiares ou amigos desaparecidos. «Muitas vezes são partilhados contactos diretos. E o que é que nós temos assistido? Pessoas que, aproveitando-se daquilo que é o sofrimento dos familiares dos desaparecidos, entram em contacto com esses mesmos familiares e dizem que têm a pessoa consigo. Depois acrescentam que se o familiar quiser alguma informação tem de transferir uma quantia em dinheiro», descreve Catarina Monteiro.
DESCONFIAR SEMPRE
Quem está nesta situação deve ficar de olhos bem abertos aos sinais desta nova burla. «Todas as situações que temos verificado são facilmente detetáveis. Os burlões utilizam uma linguagem não muito cuidada, com um português, por vezes, não muito apurado e há ali, claramente, uma insistência de conseguir algum dinheiro dando pouca informação», esclarece a Chefe do Núcleo de Procurados e Desaparecidos, do Departamento de Investigação Criminal da Direção Nacional da PSP.
Familiares e amigos de desaparecidos podem começar a pedir mais informações ao burlão, ainda sem se terem apercebido de que se trata de um esquema. «Muitas vezes, os familiares pedem fotografias dos desaparecidos, ainda a acreditarem que aquilo é verdade, e as fotografias que lhes são remetidas são as mesmas fotografias que foram publicadas nas redes sociais». Mesmo assim, há quem caia nesta nova burla. «Ainda assim, fruto daquilo que é a angústia que as pessoas estão a viver, muitas vezes toldadas pela necessidade que têm de saber alguma informação sobre o paradeiro do desaparecido, fazem a transferência dessas quantias monetárias».
A comissário alerta para o que fazer perante uma situação deste género. «Caso alguém se depare com este tipo de situação deve comunicá-la, de imediato, às autoridades». Ao mesmo tempo, a vítima deve estar munida de dados importantes. «O que é que é importante? Os prints das conversas, porque normalmente são pelo WhatsApp, o contacto do telemóvel que foi utilizado pelo suposto burlão e, eventualmente, se conseguirem informações, por exemplo, de para onde foi transferido o dinheiro, todas essas informações são relevantes», enfatiza Catarina Monteiro. Mas, acima de tudo, avisa a comissário, essencial é «antes de fazerem qualquer tipo de transferência, que contactem as autoridades».
Não colocar o contacto pessoal nos anúncios de desaparecidos é outro método para ficar longe dos burlões. Em muitos casos, na Internet, familiares e amigos já pedem para que, quem souber de alguma informação, contacte as autoridades. De qualquer forma, Catarina Monteiro adianta que a angústia leva a que nem todos se lembrem disso. «As pessoas estão muito desesperadas e à procura de informações e, de facto, isto tem acontecido com alguma frequência. Durante um contacto desse tipo, é necessário que as pessoas tentem perceber se faz sentido. Por exemplo, se as fotografias que lhes estão a ser reencaminhadas são as que já foram divulgadas pelos próprios familiares. Se a pessoa que está a ligar sabe mais alguma informação, como por exemplo, que roupa é que o desaparecido tem vestida, como é que ele está…», aconselha a comissário.
Anabela Ferreira, agente principal da Brigada de Desaparecidos da DIC Lisboa avisa: «É de desconfiar sempre! Porque, normalmente, quando uma pessoa está desaparecida, quem a encontra ou quem tem alguma informação não pede dinheiro em troca». A polícia acrescenta: «Ainda por cima, quando são pessoas comuns, que não têm um histórico de dívidas e que, por isso, possam estar sequestradas sob ameaça para recuperação de algum tipo de valor monetário. Em situações normais, de desaparecidos, não faz sentido que uma pessoa seja sequestrada para depois ser pedido dinheiro à família».
19 MIL DESAPARECIDOS EM SEIS ANOS
Certo é que, segundo as estatísticas da PSP, o número de desaparecidos tem vindo a aumentar em Portugal, desde 2020. Nesse ano desapareceram, no que respeita às ocorrências afetas à PSP, 2570 pessoas. Dessas, 82 continuam desaparecidas. Este ano, só até ao último dia de maio, já tinham desaparecido 1441, tendo aparecido 1037. Mas os números ganham dimensão quando somados. Entre 2020 e maio de 2026 o total de desaparecidos foi de 18685 pessoas. Destes, 9745 eram homens e 8940 eram mulheres. Não existe uma contabilização total dos desaparecidos, uma vez que os dados estão espalhados também pelos outros órgãos de polícia criminal (OPC), nomeadamente a GNR e a Polícia Judiciária.
As competências também são diferentes, conforme os OPC. «Tudo o que é desaparecimentos voluntários, ou seja, não há crime, é competência da PSP, naquilo que é a área territorial da PSP. Se não é GNR, isso está dependente daquilo que é a área territorial», avança a comissário Catarina Monteiro.
Se houver indícios de certas tipologias de crime, esses desaparecimentos passam para a alçada da Polícia Judiciária (PJ). «A Lei da Organização de Investigação Criminal, define os crimes que são da competência reservada da Polícia Judiciária. É o caso do homicídio, rapto, sequestro, são tudo crimes que são da competência de investigação da Polícia Judiciária. E nessas situações, nós registamos a comunicação do desaparecimento, mas havendo a suspeita de crime, será sempre comunicada à Polícia Judiciária. Em situações, por exemplo, de subtração de menores, já são da competência da PSP e da GNR». A VERSA tentou debater o assunto com a PJ, mas este OPC declinou o nosso pedido de entrevista.
24 HORAS SÃO MITO
Para efeitos policiais e de aplicação dos procedimentos em vigor, a PSP definiu que se considera que uma pessoa está desaparecida quando o seu paradeiro seja desconhecido e inexplicável, por um lapso temporal considerado invulgar ou suspeito, para as pessoas que conhecem os padrões de comportamento, os planos ou rotinas da pessoa em causa.
Na prática, isto significa que não é preciso esperar 24 horas, no caso de desaparecimento de menores, nem 48 horas no caso de adultos, como muitos ainda acreditam. «Essa questão das 24 horas, 48 horas, isso é um mito que se tem espalhado e que às vezes gera alguma confusão. As pessoas acham que têm de esperar esse tempo até comunicar à polícia e isso é uma falácia. As pessoas, assim que percebem que há algum tipo de anormalidade no que seria o comportamento de alguém, devem imediatamente deslocar-se à polícia para que, o quanto antes sejam tomadas as diligências, para que a história tenha um desfecho mais feliz», observa o chefe João Oliveira, da Brigada de Investigação Criminal de Desaparecidos da DIC de Lisboa.
Os idosos, muitos com patologia do foro mental, e os menores, são quem mais preocupa as autoridades. Porém, qualquer pessoa pode desaparecer. E os motivos, apesar de muitas vezes haver sinais, nem sempre são evidentes. «Há pessoas que sentem uma ansiedade e têm de se afastar daquilo que para elas, naquela altura, pode parecer um problema ou que está a trazer-lhes angústia», enfatiza a agente principal Anabela Ferreira. «Nós tivemos duas situações seguidas em que os desaparecidos, quando conseguimos localizá-los, eles não sabiam que a família estava preocupada com eles, porque achavam que a família não queria saber deles».
Para conseguir chegar a um desaparecido a polícia começa por fazer uma lista de 20 perguntas ao denunciante. Essas perguntas medem o grau de risco - alto, médio ou baixo - do desaparecido, tanto para si próprio como, em alguns casos, para terceiros. Depois, apesar de cada caso ser um caso, avança-se para o terreno. As buscas podem ser feitas com drones - normalmente em casos de idosos que se suspeita estarem desorientados em determinada localização - através de buscas domiciliárias - em busca, por exemplo, de uma carta de despedida - ou pode ser pedida a localização celular, ficando o OPC com uma ideia aproximada da última localização do desaparecido. «Acontece de tudo um pouco. Até já andamos com uma fotografia na mão a perguntar na rua se tinham visto aquela pessoa», conta João Oliveira.
FINAIS FELIZES
Pelo meio, ficam na memória dos polícias os casos de sucesso. E é a pensar neles que se apoiam para os outros casos, com desfechos tristes. «Temos de pensar mais no que corre bem do que no que corre mal. E aprender sempre com todos os casos», observa o chefe João Oliveira.
Os casos com final feliz raramente se esquecem e são o oxigénio destes polícias. «Tivemos um jovem adulto desaparecido, que não tinha residência fixa mas a família sabia onde ele parava, aqui em Lisboa. Entretanto, os pais perderam o contacto e foram à esquadra, em meados de abril de 2025, fazer a participação do desaparecimento do seu filho», recorda a agente principal Anabela Ferreira.
O rapaz era toxicodependente e a polícia tinha esse conhecimento. «Foi recolhida a informação inicial, foram feitos contactos com os hospitais, tentámos fazer o percurso dele, as suas rotinas. Sabíamos que era uma pessoa com adição e, portanto, um doente com algumas recaídas. Os pais e outros familiares também sabiam mas perderam-lhe o rastro e temiam o pior», descreve a polícia. «Depois de feitas todas as diligências não o conseguíamos localizar. Mas, por duas ou três vezes, durante a nossa hora de folga num percurso entre transportes públicos, uma equipa nossa cruzou-se com ele mas tomou a liberdade de não o interpelar, até porque ele ia para a zona de consumo e iria retrair-se».
Entretanto, a polícia avisou o tribunal e avançou para novas diligências. «Sabíamos, tínhamos estado a falar e tirado informações com familiares uns dias antes, que era uma pessoa que, em determinadas alturas, abria uma janela de tempo e ficava recetivo a tratamento. Recorremos a um grupo de parceiros externos [equipa de rua de redução de riscos e minimização de danos junto de população toxicodependente] e a verdade é que, uns meses depois, a família estava a localizar o jovem».
Uma história com um final verdadeiramente feliz. «O rapaz pediu o seu tempo à família e quando achou por bem, numa das visitas, avisou os pais que estava preparado para pedir ajuda, pediu essa ajuda e, neste momento, está em recuperação».
João Oliveira também conta uma história de sucesso. «Houve uma situação, no ano passado, de uma filha que veio participar o desaparecimento do pai. Era um homem na casa dos 60 anos, bastante lúcido e capaz, mas chegámos à conclusão de que havia ali uma adição, no caso ao jogo, o que levantava problemas financeiros», lembra o chefe da PSP. «O senhor tinha consigo uma arma de fogo e numa discussão até fez um disparo, sem consequências. Certo é que tínhamos um desaparecido com ideação suicida, que não estava a conseguir processar bem o que lhe estava a acontecer e era preciso retirar-lhe a arma de fogo. Representava um perigo para ele e, eventualmente, para terceiros».
Para resolver este caso, a polícia recorreu à localização celular. «Deu-nos uma localização grande, mas às vezes, a nossa experiência associada à sorte dá os seus frutos. Eu e a agente principal Anabela agarrámos no carro e fomos à procura, nas imediações do hospital Fernando da Fonseca. Andámos por lá e localizámos a viatura e a arma. Entretanto, fomos contactados pela filha a dizer-nos que o pai tinha ficado online. Finalmente, conseguimos encontrá-lo e convencê-lo a ir à urgência do hospital, para que ficasse assinalado e pudesse ter acompanhamento. Evitou-se o pior», conclui com orgulho este elemento da Brigada de Investigação Criminal de Desaparecidos da DIC Lisboa.