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Há cenários muito complicados», avança Ana Santos, Chefe de 1º Intervenção e uma das 18 mulheres do Regimento de Sapadores Bombeiros (RSB) de Lisboa que tem, ao todo, sensivelmente mil operacionais. A bombeira recorda uma das suas primeiras saídas, pouco depois de ter chegado ao quartel, em 2001. «Saímos para abrir uma porta com socorro e, no interior da residência, deparamo-nos com um cadáver. Essa ocorrência marcou-me bastante».
Ana tem muitas histórias para contar e algumas de arrepiar os mais sensíveis. A propósito do Dia do Bombeiro, celebrado a 4 de maio, a VERSA quis saber destas e de outras estórias e passou um dia no quartel de Alvalade, com os sapadores bombeiros. Ana Santos lembra outra situação que a melindrou: «Outra das primeiras ocorrências que apanhei foi um acidente de viação com encarcerados. A gravidade do acidente, com dois veículos, era muito grande e deixou-me marcas», confessa.
Sangue-frio e grande robustez física são requisitos obrigatórios para os sapadores bombeiros. No entanto, quando há situações traumatizantes, não falta o apoio psicológico, garantido, neste caso, pelo Departamento de Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho (DSHS) da câmara municipal de Lisboa. «Quando são ocorrências mais complicadas temos a facilidade de ter contacto com as psicólogas. Elas deslocam-se ao quartel e debatem-se os assuntos. E, se for necessário, temos consultas disponíveis a que podemos ir de uma forma mais particular, falando diretamente com a psicóloga. Eu, por exemplo, já fui», revela Ana Santos.
O tenente-coronel Alexandre Rodrigues, comandante do RSB de Lisboa, anui: «De facto há situações muito traumáticas. E quando nós temos uma ocorrência que envolve vítimas, onde quem está a comandar aquela operação identifica que há ali uma situação que possa ser traumatizante, faz um relatório e envia para o DSHS. Depois, esse departamento chama o trabalhador para ir a uma consulta com a psicóloga».
A tragédia da Glória
Alexandre Rodrigues, que pertence ao exército e está em comissão de serviço no RSB de Lisboa, continua a pensar no acidente do Elevador da Glória, que acabou por ceifar a vida a 15 pessoas e ferir 22. «A situação do elevador, do ponto de vista de tragédia, foi aquela mais complicada que apanhei face àquilo com que, quando cheguei ao local, me deparei. Foi realmente uma tragédia muito grande o que aconteceu nesse dia».
Os sapadores chegaram ao local do acidente muito depressa. «Os nossos primeiros elementos, em dois minutos, conseguiram ir do quartel do Martim Moniz ao local do desastre. Conseguiram salvar uma série de pessoas graças não só à rapidez de chegada, mas também ao conhecimento técnico que têm».
Paulo Guerreiro, comandante do 3º Batalhão do RSB de Lisboa, chegou pouco depois à Calçada da Glória e ainda se emociona ao falar do caso. «Ainda estavam lá as pessoas que já tinham perdido a vida mas continuavam encarceradas. Todas aquelas que tinham sobrevivido já as tínhamos retiradas. E houve outras que ainda estavam vivas mas acabaram por nos morrer nos braços, tal era a gravidade dos ferimentos», avalia. Uma imagem não lhe sai da cabeça: «Era um homem que estava completamente esmagado, debaixo dos destroços, só as pernas é que estavam à vista».
Paulo Guerreiro recorda outros casos chocantes, como o de uma tentativa de suicídio no metro. «A pessoa não morreu mas ficou sem uma perna. E houve um dos nossos bombeiros que pegou na perna e teve de a meter num saco, com o objetivo de o membro poder ser recuperado. Infelizmente, já não foi possível e ele acabou por ficar amputado. Agora imagine o que é ter de apanhar uma parte de um corpo, fracionada. É traumático para quem manipula e é traumático, também, para quem está a coordenar, embora não manipule», revela o comandante do 3º Batalhão do RSB de Lisboa, que viu inúmeros atropelamentos ferroviários desde que entrou para os bombeiros, no início dos anos 90.
Já a sua primeira ocorrência não podia ser mais diversa. «Fomos apanhar um pombo, que estava preso, ali na rua da Madalena. Coitado, o pombo estava muito debilitado e acabou por falecer nas nossas instalações. Foi depois entregue ao canil, porque nós tínhamos de levar para lá todos os animais que encontrávamos, vivos ou mortos». Damos por falta, nesta altura, de um elemento que costuma existir nos quartéis: um cão. «Tínhamos aqui uma cadela, muito meiguinha, a Sirene. Faleceu», recorda Guerreiro.
Corrida louca na estrada
A VERSA chegou ao quartel de Alvalade, um dos 10 espalhados pela cidade – sem contar com a Escola de Sapadores Bombeiros, em Marvila, onde estão disponíveis valências diferenciadas, como os mergulhadores ou a brigada cinotécnica – pelas 09h30 de uma terça-feira de sol e muito trânsito em Lisboa. Pouco depois duas chamadas para ocorrências, intervaladas por poucos minutos: a primeira para o fecho de águas; a segunda para uma abertura de porta sem socorro.
Passavam poucos minutos das 10h30 quando volta a haver chamada para ocorrência. Trata-se de um simulacro de incêndio numa escola do Bairro Padre Cruz, a cerca de sete quilómetros de distância e com a Segunda Circular a abarrotar de carros pelo meio.
Assim que é feita a chamada os bombeiros largam tudo o que estão a fazer, equipam-se e saem em tempo recorde do quartel. O carro que é enviado tem de tudo um pouco, desde equipamento para primeiros socorros, mangueiras, cordas, até ferramentas para desencarceramento. Com a sirene a tocar os bombeiros seguem em marcha de emergência até ao local do sinistro simulado. Os automobilistas afastam-se como podem do caminho dos bombeiros que, em apenas oito minutos, conseguem atravessar o trânsito caótico e chegar, em segurança, à escola, na freguesia de Carnide.
A VERSA seguiu todo o percurso atrás do carro dos bombeiros, numa viagem que para os jornalistas se revelou arriscada e emocionante mas que faz parte do quotidiano dos soldados da paz. Desde a saída do quartel até ao final da ocorrência – ainda que seja um simulacro – os sapadores atuam como se fosse uma ocorrência real.
Na escola já foram retirados os ‘feridos’ e os bombeiros extinguem um ‘foco de incêndio’ numa das salas de aula. Toda uma equipa que inclui a proteção civil, a polícia, responsáveis da escola e do município, acompanha as operações. A ocorrência é dada por terminada às 11h15, ou seja, cerca de 45 minutos após a chamada.
Miúdos e graúdos ficam a compreender melhor como agir em caso de uma situação real semelhante. «Todas estas ações são muito relevantes, não só em termos de conhecimento da população e prevenção mas também para que nós fiquemos a conhecer melhor o terreno, as instalações e as pessoas que, em cada local, estão responsáveis pelos primeiros momentos do socorro», observa o comandante do RSB, Alexandre Rodrigues. «Aliás, uma das nossas funções também passa pela prevenção. Amanhã, por exemplo, vai estar um grupo de idosos aqui no quartel a receber algumas informações relativas à prevenção».
Regressamos ao quartel onde, por volta do meio-dia, é servido o almoço. Caso não haja ocorrências, depois da refeição é feita uma formatura e os bombeiros são chamados a fazer alguns exercícios. Tiago Amado, 34 anos, sapador bombeiro, explica como funciona o quartel. «Cada dia é um dia diferente. Não temos dias iguais e é isso que também me cativa nesta profissão. Nós iniciamos o dia com a rendição dos turnos. Fazemos uma formatura em que há a apresentação do turno que vai entrar ao serviço. De seguida, fazemos a verificação das viaturas. Consoante a escala de serviço cada bombeiro está escalado à sua viatura e fazemos a verificação do material dessa viatura», revela.
«De seguida, temos o horário de preparação física, isto se não houver ocorrências. Estamos a falar das atividades sem ocorrências pelo meio. Depois temos a hora de almoço, e uma formatura pós-almoço, para fazer a manutenção do quartel. A seguir a essa formatura temos instrução prática de diversos temas. Há um plano mensal da atividade a exercer nessa instrução. Depois temos o resto do dia livre para trabalharmos em equipa alguma área em que tenhamos mais dificuldade. É assim o nosso dia a dia», sumariza o sapador.
Tal como os seus camaradas, também Tiago já viveu experiências duras. Recorda um atropelamento, numa passadeira, no Campo Grande, que o marcou particularmente. «Era uma criança de 14 anos. Um carro não parou no semáforo e acabou por abalroar a vítima. Era uma menina e tinha vários traumatismos, acabou por falecer no hospital», descreve. «Nós lidamos, no nosso quotidiano, com diversas tipologias de ocorrências e há algumas que resultam em mortos. Neste caso, ser uma menor foi o que mais me chocou. Depois foi ver a reação da equipa, no final de tudo aquilo. Durante o trabalho estamos focados no trabalho, em socorrer. No pós-ocorrência, quando se faz o briefing, é que se fala mais abertamente com o turno, para se ultrapassar alguma coisa que não tenha ficado bem resolvida na nossa cabeça. Tentamos resolver as coisas entre o grupo mas, felizmente, também temos o apoio psicológico».
Socorro de proximidade
A cidade de Lisboa está dividida em três grandes áreas. «Temos a zona mais histórica e central, que nós chamamos o 1º Batalhão. O edificado é mais antigo. Normalmente esse edificado, face à tipologia de construção, com estrutura de madeira ou com paredes resistentes, exteriores. e depois com estruturas de madeira, não responde muito àquilo que são as exigências de segurança dos incêndios. É a zona mais crítica da cidade, onde, quando temos incêndios, face à carga térmica, com paredes de madeira, estruturas de madeira, tabiques, pode ser mais grave. O tempo de chegada aqui é mesmo fulcral, além dos conhecimentos, claro», explica o tenente-coronel Alexandre Rodrigues. O 1º Batalhão é composto por quatro quartéis: «Um na avenida D. Carlos, um no Martim Moniz, outro na Graça e, por último, na avenida Defensores de Chaves».
O 2º Batalhão abrange Monsanto, a maior área florestal da capital, e zonas adjacentes. «Temos edificado moderno mas também outro, mais antigo. E depois temos Monsanto. Este batalhão tem os quartéis de Santo Amaro, de Benfica e um no interior de Monsanto. O quartel de Benfica é o segundo quartel com mais trabalho. Quanto a Monsanto, que é o grande pulmão da cidade, temos um patrulhamento muito amplo de toda a floresta, por exemplo, com motas, para conseguirmos entrar mesmo dentro da mata. Apesar dos nossos esforços, no ano passado tivemos duas situações de fogo posto que, felizmente, conseguimos debelar».
Na zona norte e oriental de Lisboa localiza-se o 3º Batalhão que abrange os quartéis de Alvalade, Alta de Lisboa e Encarnação. «Nesta zona da cidade temos edifícios mais recentes. Se tivermos aqui um incêndio, teoricamente, chegamos mais rápido e fica normalmente circunscrito a uma divisão ou pouco mais». Porém, nesta parte de Lisboa há outros desafios, de acordo com a explicação do comandante do RSB. «Temos edifícios de grande altura. Mas em termos de viaturas, são viaturas que podem ser maiores, mais largas e mais compridas. Enquanto as viaturas para a zona da baixa pombalina são mais pequenas para conseguir entrar ali no Bairro Alto, em certas zonas da própria Baixa, ou na Madragoa». No quartel de Alvalade está estacionada, entre outras viaturas, uma auto-escada capaz de subir a 45 metros de altura.
Os "Anjos da cidade"
Em 2025 houve 1226 incêndios, urbanos, rurais ou em caixotes do lixo, em Lisboa. Desses, 306 foram em edifícios. «É quase um incêndio por dia», observa Alexandre Rodrigues. Acidentes foram 2876, contando com rodoviários, ferroviários e aquáticos. «Nós, normalmente, por ano temos entre 20 a 22 mil ocorrências. Em 2025 tivemos um total de 22 504 ocorrências», especifica o comandante do RSB.
Os sapadores bombeiros fazem, ainda, teleassistência a idosos solitários. «Temos um conjunto de bombeiros que são os ‘Anjos da Cidade’. Há cada vez mais pessoas idosas, que vivem sozinhas e não têm família. Neste momento, temos 1123 pessoas com um colar ou uma pulseira, que vivem sozinhas. Se tiverem um problema acionam a pulseira ou o colar e o nosso carro, que estiver mais perto, vai lá ver o que é que se passa com estas pessoas. Isto foi um projeto que começou em 2014 e que tem tido muito sucesso».
Os ‘Anjos da Cidade’ foram chamados 611 vezes no ano passado. Normalmente, os idosos são referenciados por outras entidades mas, em caso de necessidade, pode ser o próprio idoso a solicitar este apoio através da Linha SÓS – 800 204 204.
Quem quiser ser bombeiro sapador tem de inscrever-se, quando são abertos concursos. Neste momento, está a decorrer um concurso para 80 vagas e previsto outro para o final do ano. São feitas várias provas para aceder à recruta. «Há uma inspeção médica, provas físicas, provas psicotécnicas e ainda tem uma prova de conhecimentos. Essa prova de conhecimentos é a primeira que os candidatos fazem e depois é que são chamados à inspeção médica. Daqueles que passarem, este ano temos 80 vagas», explica o tenente-coronel Alexandre Rodrigues.
Este curso começará no final do verão. «Está previsto para o início em setembro e tem uma componente de formação teórica, de seis meses, mais seis meses de formação prática em contexto de trabalho. Isso perfaz 910 horas, mais 910 horas: é ano até entrarem como efetivos para a carreira de bombeiro sapador».
Tiago Amado nunca pensou ser bombeiro. Licenciou-se em Engenharia de Proteção Civil e, enquanto estudava, foi voluntário. «Fui ganhando o gosto, soube da abertura de concurso para o RSB de Lisboa e decidi candidatar-me. Consegui entrar e não estou nada arrependido. Efetivamente, gosto muito do que faço», garante o sapador.
Ana Santos também não se vê a ter outra profissão. «O facto de podermos ajudar a população e de todos os dias serem diferentes é muito aliciante». A Chefe de 1º Intervenção dá ainda conta de como é feita a recruta. «Inicialmente assustei-me com as provas físicas mas, como temos um acompanhamento ao longo da recruta, vamos evoluindo o que torna as coisas mais fáceis. Embora seja, sempre, uma profissão muito exigente em termos físicos», enfatiza. «Somos avaliados durante a recruta, quando passamos a pronto somos avaliados novamente, temos de prestar provas físicas todos os anos e isso obriga-nos a ter sempre uma condição física bastante elevada em relação à população em geral, como é óbvio».
E, além do trabalho, também o amor pode acontecer num quartel de sapadores bombeiros. «O meu marido também é sapador. Conhecemo-nos no quartel de Marvila [Escola de Sapadores Bombeiros], começámos a falar, casámos e temos dois filhos», finaliza Ana Santos, que pertence aos 2% de mulheres que compõem o contingente total do RSB de Lisboa.