sexta-feira, 07 ago. 2026

Os Filhos de Pai Rico

Ter é um estado. Mas o ser e o saber-fazer são a arte.

Escrevo-vos como um português que tem tentado fazer, falhando também, desde muito cedo. Mas que, ao longo destes últimos vinte e cinco anos, tem tido o privilégio de conhecer dezenas de portugueses extraordinários que começaram, sonharam, ousaram, criaram, contrataram, exportaram, caíram, perderam, voltaram a levantar-se, ganharam, cumpriram e, acima de tudo, acrescentaram valor ao país.

Pessoas que, infelizmente, poucos conhecem e que pouco impacto por vezes têm.

Talvez não sejam filhos de pai rico, mas são filhos do mérito.

Confundimos sistematicamente riqueza com competência. Admira-se mais o ter do que o ser. Aliás, o Professor Adriano Moreira sempre alertava que não poderíamos viver nem construir uma sociedade onde o “primado do ter se sobrepusesse ao primado do ser.”

Infelizmente, como sempre, tinha e tem toda a razão.

É preciso perceber a diferença entre quem administra e quem cria. Pois, de facto, são coisas muito diferentes.

Temos vários empresários conhecidos da praça que ou herdaram o que gerem (apesar de muitas vezes se esquecerem da origem das coisas) ou gerem o que não criaram.

Temos os “lambecubistas” (como bem descreve Miguel Esteves Cardoso) que pelo lambuzar do superior ou do mais rico vivem e posicionam-se social e profissionalmente. Ou, também, aqueles que vivem, directa ou indirectamente, do Estado e que, sem o Estado a sustentá-los, não saberiam nem teriam como se sustentar.

Como bem descrevia o Padre António Vieira, são as rémoras (também denominadas parasitas) que vivem, felizes, apenas, com os restos dos tubarões.

Uma miséria franciscana, hoje, também muito aplaudida.

É um modelo tacanho, pequenino e ridículo.

Finalmente, vivemos numa sociedade e sistema de bajulação e admiração sistémica do "estrangeiro" e da marca do "estrangeiro", ao invés do português e do que é português.

Como se o talento precisasse de passaporte para ser reconhecido. E como se ter o passaporte português fosse um problema ou uma limitação ou fraqueza.

Era o que faltava!

É o cúmulo da estupidez, como bem defendia Cipolla.

Nunca nos esqueçamos de que os países "começam a morrer" quando "têm medo de ser e de existir", como diz José Gil. Isto é, quando deixamos de valorizar o cidadão da nossa Pátria que sonha, que ousa, que arrisca, que faz ou tenta fazer e que, por isso, por vezes falha, mas reconstrói-se.

Que nos foquemos em ter uma sociedade interessada e interessante. Só se assim for, teremos futuro.

Ter é um estado. Mas o ser e o saber-fazer são a arte!

Por tudo isto, saibamos, mesmo, ter a arte de sermos portugueses (como ensinou Teixeira de Pascoaes no livro que o meu amigo Fernando Soares me deu há 18 anos).