quarta-feira, 13 mai. 2026

Baixas automáticas disparam no SNS: milhões de dias de ausência geridos sem médico

Quase 1,5 milhões de autodeclarações em três anos mostram mudança silenciosa no acesso à doença ligeira.
Baixas automáticas disparam no SNS: milhões de dias de ausência geridos sem médico

Em apenas três anos, o recurso às chamadas “autobaixas” transformou-se numa prática massiva em Portugal, com o SNS 24 a registar mais de 1,4 milhões de declarações de doença emitidas sem intervenção médica direta.

Os dados dos SPMS revelam um crescimento consistente desde a criação da medida, em maio de 2023, sinalizando uma mudança estrutural na forma como os portugueses gerem episódios de doença ligeira.

A adesão tem vindo a acelerar ano após ano, com os pedidos a concentrarem-se sobretudo nos meses mais frios, quando aumentam infeções sazonais. O inverno destaca-se, assim, como o período de maior pressão sobre este mecanismo digital.

Ao mesmo tempo, centenas de milhares de utentes já esgotaram o limite anual permitido, que prevê duas autodeclarações até três dias cada, o que evidencia a utilização frequente desta solução.

Criada para reduzir burocracia e aliviar os cuidados de saúde primários, a medida permite justificar faltas ao trabalho sem necessidade de consulta médica, libertando recursos para situações mais complexas.

Nuno Jacinto, em declarações à agência Lusa, diz que o impacto é globalmente positivo, ao incentivar a autonomia dos cidadãos e evitar deslocações desnecessárias aos centros de saúde. Ainda assim, admite que o sistema pode ser afinado, nomeadamente na articulação quando a situação clínica se prolonga para além dos dias inicialmente previstos.

A generalização deste modelo, impulsionada pela digitalização e pelas mudanças introduzidas durante a pandemia, está a redefinir a relação dos utentes com o sistema de saúde, e a levantar novas questões sobre o equilíbrio entre acesso, controlo e responsabilidade individual.