É meia-noite de um dia de semana. A VERSA aventura-se pelas ruas do Bairro Alto, agora que a câmara municipal de Lisboa definiu novas regras para a venda de álcool, em toda a cidade. Os bares estão proibidos de vender bebidas alcoólicas para a rua a partir das 23h00, entre domingo e quinta-feira, e a partir da meia-noite, às sextas e sábados. Ninguém diria. Depois de subirmos a Travessa da Queimada viramos à esquerda, para a Rua da Atalaia. A multidão aglomera-se de copo na mão. O barulho é ensurdecedor e para comunicarmos temos de falar, literalmente, aos berros. Há rapazes e raparigas a angariar clientes para alguns bares. Oferecem shots por um euro e ‘baldes’ de vodca laranja de litro por cinco euros. Mas as bebidas saem dos estabelecimentos e o caos continua. Mesmo depois da hora estipulada pelo município. «A rua, no Bairro Alto, faz sentido. Mas faz sentido com esplanadas, com ambientes controlados. Não faz sentido dar azo a botecos que despejam álcool para a rua. Isso há desde sempre. E não chamo boteco por desprimor; são espaços exíguos, onde foram feitos bares, mas os clientes não cabem lá dentro. Os comerciantes, e a nossa associação, sempre lutou por regras e pelo cumprimento das normas», afirma Hilário Castro, presidente da Associação de Comerciantes do Bairro Alto [ACBA].
Ainda assim, o empresário defende que «a maioria dos comerciantes está a cumprir os horários mas há sempre uma franja que não cumpre. Além de ser difícil manter as pessoas dentro dos estabelecimentos, com as bebidas. Muita gente acaba por lhes dizer que compraram a bebida e que vão beber para onde lhes apetece. Os comerciantes acabam por não ter mão nas pessoas».
A fiscalização existe mas nem sempre consegue chegar a todo o lado. «Há muita fiscalização, mais nuns sítios do que noutros, mas há». Ainda assim, de acordo com a Câmara Municipal de Lisboa, desde que a medida foi implementada, só no Bairro Alto já foram levantados 14 autos de notícia por infração. A autarquia realça que «o principal objetivo nas primeiras semanas de aplicação desta medida foi uma preocupação de pedagogia e sensibilização juntos dos comerciantes para a necessidade do cumprimento das novas regras».
Já o policiamento, garante quem lá vive, é escasso. «A partir das duas da manhã, quando os bares fecham, a polícia municipal vai-se embora e o bairro fica ao abandono», refere Fernando Mata, morador e presidente da Associação de Moradores Somos Bairro Alto. «A esquadra da PSP do Bairro Alto queixa-se de falta de recursos humanos. Nós chamamos muitas vezes as autoridades, por causa do barulho, mas eles só vêm se for barulho numa residência, na via pública não vêm. Há algumas operações policiais mas não tantas como desejávamos».
A intenção pode ser boa mas não está a resultar. «Com esta medida pretende-se assegurar um equilíbrio entre os diferentes interesses em presença, salvaguardando, em primeiro lugar, a proteção da saúde pública, do direito ao descanso e da qualidade de vida de quem vive na cidade. Simultaneamente, a definição de regras mais claras e exigentes para o funcionamento da atividade noturna reforça a fiscalização e permite uma atuação mais eficaz sobre os operadores incumpridores, promovendo condições de concorrência mais justas e equitativas entre os comerciantes», define a Câmara Municipal. Fernando Mata contrapõe: «Infelizmente, está tudo na mesma».
CENAS DEGRADANTES
Hilário Castro tem negócios na restauração, no comércio, no alojamento e também é proprietário de um dos bares mais emblemáticos do Bairro Alto, o Páginas Tantas. O bar funciona, e sempre funcionou, dentro de portas e oferece música jazz ao vivo. O presidente da ACBA dá-o como um exemplo de que «nem todos os espaços dependem da rua para fazer o seu negócio. E é isso que o Bairro Alto tem de ser», defende. «É evidente que ninguém está contra as pessoas movimentarem-se na rua, usufruírem de todo este ambiente que temos, do clima. Agora, a partir de determinada hora, as coisas têm de ter regras. Tem de haver respeito, porque o bairro é de todos e é para todos. Não é apenas para que, no final da noite e a altas horas da madrugada, continuemos a assistir a acontecimentos que são deploráveis».
A clientela é, atualmente, constituída por jovens - que migraram da noite em Santos - , muitos deles menores. «Sempre que um bar fosse apanhado pelas autoridades a vender bebidas a menores devia ser penalizado. E ao fim da terceira vez, devia ser fechado. Talvez fosse uma forma de as coisas terem mais norma», propõe, por sua vez, Ricardo Tavares, presidente da Associação de Bares, Discotecas e Animação Noturna [ABDAN]. E recorda um dos tais episódios ‘deploráveis’ a que se vai assistindo no Bairro Alto. «Uma noite cheguei a um bar de um amigo e ele estava branco como a cal. Até pensei que se estava a sentir mal. E estava. Foi quando ele me contou que um miúdo tinha pedido para ir à casa de banho e depois foi-se embora. A seguir foi lá um cliente habitual do bar e chamou-o para ver como é que estava a casa de banho. Tinha fezes espalhadas pelas paredes e até no teto. Ele estava naquele estado porque tinha acabado de limpar aquilo tudo».
SAUDADES DAS PROSTITUTAS
Os moradores sentem saudades dos tempos da prostituição, nos anos 60, quando havia pequenas zaragatas na rua mas o silêncio imperava na generalidade. Dos anos 70 e 80 quando a clientela era selecionada e nem todos entravam no Frágil. Dos anos 90, quando os jovens universitários se divertiam no bairro dentro dos bares. «Eu lembro-me do Bairro Alto da prostituição, mas havia regras. Havia um policiamento muito intenso. Lá havia umas zaragatazinhas motivadas pelo excesso de álcool mas chegava à hora, os bares fechavam, as ruas estavam desertas e não havia barulho noturno, como atualmente há», lembra Fernando Mata, presidente da Associação de Moradores Somos Bairro Alto. E prossegue: «A partir dos anos 80 começaram a abrir aqueles bares de nome que tinham uma clientela muito selecionada. E era um bairro boémio, mas também com regras. Da pandemia para cá, então, foi o fim do mundo. É uma anarquia total!».
Fernando nasceu e mora na Rua Nova do Loureiro, paralela à Rua de O Século e já afastada do miolo do bairro, onde se concentra a animação noturna. Mesmo assim, tem queixas. «Eu acordo às três, quatro da manhã, com grupos enormes de pessoas, que vêm a descer do bairro, e passam aos gritos, a cantar. Já não é a primeira vez que vou à janela pedir-lhes para se calarem», descreve. «Há muitos portugueses, não são só estrangeiros. Este ruído todo está associado ao consumo de álcool porque as pessoas perdem a cabeça. Muitos andam com colunas de som e a polícia municipal volta e meia apreende-as e entrega-as na junta de freguesia. A multa, para as ir levantar, é de 300 euros. Ora, isso não vale a coluna. Eles acabam por ir comprar outra por 60 ou 80 euros e os problemas vão-se perpetuando», lamenta.
A VERSA observou e este morador confirma: A Rua da Atalaia é o principal foco da confusão. «A Rua da Atalaia é a pior rua do Bairro Alto. Os jovens ficam até às quatro, cinco da manhã, porque é uma multidão enorme na rua e essa medida de proibirem a venda de álcool para fora dos estabelecimentos a partir de certa hora não resolveu o problema».
A vida de quem aqui reside está, no entender do presidente desta associação de moradores, transformada num «autêntico inferno». E concretiza: «Há pessoas com muita idade e também há outras que vão trabalhar no outro dia e têm de se levantar às sete da manhã, para irem deixar as crianças à escola e seguirem para o trabalho. Agora, imagine o que é estar até às três da manhã com barulho. É o fim do mundo!». Mesmo quando os bares fecham isso não significa que a multidão disperse. «Há os vendedores ambulantes de bebidas alcoólicas que andam com uns trolleys pela rua. É ilegal mas existe há muitos anos».
PROIBIR E RESPONSABILIZAR CLIENTES
Para acabar com estas situações moradores e alguns empresários defendem a proibição de beber álcool na rua e a responsabilização dos clientes pelos seus comportamentos. «Acho que a única solução era proibir o consumo de álcool na via pública. Bebam dentro dos bares. O bar fecha às duas da manhã os indivíduos vão embora, vão continuar a noite noutro sítio», afirma este morador.
O empresário Ricardo Tavares tem opinião parecida. «Os horários dos bares até deviam, na minha perspetiva, ser alargados até às seis da manhã. Mas a funcionarem no interior e com segurança à porta para evitar que as pessoas se juntassem na rua». Quanto à realidade atual, com clientes a saírem com as bebidas para fora, mesmo depois do horário estipulado pelo município, o presidente da ABDAN advoga medidas de contenção dos noctívagos. «Os clientes é que devem ser responsabilizados pelos seus comportamentos e não os comerciantes. Se eles vêm beber para a rua devem ser penalizados por isso. Aliás, os comerciantes não podem reter um cliente dentro de um bar, isso é um sequestro. É uma coisa absolutamente ridícula».
Quem também se queixa do estado atual do bairro é Luís Paisana, presidente da Associação de Moradores da Misericórdia. «A vida noturna, sobretudo a que existe desde há 20 anos na via pública, é quase incompatível com bairros onde vivem pessoas. O modelo de mono comércio com venda de bebidas alcoólicas a preço baixo, muitas vezes mais barato que a água, em grandes quantidades a um público jovem provoca comportamentos excessivos com ruído e, muitas vezes, violência que não permite o descanso o direito ao sono e à qualidade de vida dos moradores».
Este morador também enfatiza as mudanças que o Bairro Alto tem vindo a sofrer ao longo dos anos. «O Bairro Alto sempre foi um bairro boémio mas a vida noturna era feita à porta fechada com utentes em muito menor número e que respeitavam o espaço porque tinham consciência de que era uma zona residencial». O que vê hoje em dia desagrada-lhe. «Atualmente, com a explosão do turismo - e os impactos conhecidos na habitação, no comércio local e no despovoamento - o Bairro Alto, com a venda de bebidas alcoólicas para a rua a preços muito baratos torna a vida dos moradores que ainda resistem muito difícil».
Rogério Oliveira, dono do restaurante Farta Brutos, que poderá em breve vir a ser distinguido pelo município como Loja com História, conta o que vê na Travessa da Espera. «A partir das onze e meia da noite começa a vir a maralha, miúdos, para beber bebidas de litro e para encherem o Bairro Alto. E que não são bons clientes para o Bairro Alto». Apesar de não se sentir diretamente prejudicado admite que outros negócios, como os bares, nada ganham com esta situação. «Isto para os bares também não é bom porque são miúdos que vão à procura de bebidas muito baratas, de shots a um euro, de cerveja a um euro e vinte, bebidas de litro a cinco euros. Isto não é bom para ninguém».
Além da questão económica há os tais excessos de que todos se queixam. «Isto não é bom para ninguém. Temos miúdos a urinarem nas esquinas, temos gente a vender droga, temos ruas mal iluminadas…». Tudo isto leva Rogério a pensar no pior cenário: «O nosso restaurante está aberto desde 1904, temos cá a mesa onde o José Saramago se sentava para jantar mas, qualquer dia, fecho isto. Perde-se a mesa do Saramago. Sou comerciante, não sou mártir».
DROGA E INSEGURANÇA
O empresário da restauração acredita que tanto a autarquia como a junta de freguesia da Misericórdia deviam olhar para o Bairro Alto com outros olhos. «É só atravessarmos a rua e, do outro lado, perto do Teatro da Trindade, fizeram-se esplanadas bonitas, com todas as condições, para quem quer realmente desfrutar do espaço». E lamenta que muitos guias turísticos indiquem, nas suas páginas, que o Bairro Alto é «um sítio perigoso para onde os turistas não devem vir a partir de determinada hora. Aliás, já vi guias com o Bairro Alto assinalado a vermelho e com essa informação».
Certo é que o morador Fernando Mata revela episódios de alguma insegurança. «Ainda há uns dias um turista belga foi aqui roubado. Levaram-lhe um relógio de luxo no valor de 10 mil euros. Ora, a pessoa também não deve andar assim com valores, mas também ninguém está à espera de ser roubado». O tráfico de droga também tem vindo a intensificar-se, como a VERSA testemunhou, na Rua da Rosa. «Está de tal maneira que os traficantes até já convivem com os moradores, tudo numa boa», adverte o presidente da Associação de Moradores Somos Bairro Alto. De facto, naquela artéria, testemunhamos a presença de alguns homens suspeitos desta atividade, bem como algumas transações do que parecia ser produto estupefaciente.
ESPERANÇA COMEÇA A DESENHAR-SE
A Travessa da Queimada, onde a VERSA começou a noite, está agora esburacada. Começa a desenhar-se o Plano de Requalificação do Bairro Alto que prevê, entre outras medidas, o nivelamento do piso, a instalação de árvores de pequeno porte e trepadeiras e as tão desejadas esplanadas regulamentadas. «Acreditamos que o futuro poderá trazer uma melhoria, tanto para os comerciantes como para os moradores. Quando houver essas esplanadas já não vamos ter uma multidão descontrolada na rua. As pessoas têm de estar mas com regras», avança Hilário Castro.
A confiança está, por agora, toda depositada nas obras que o município está a começar a fazer no bairro. «Temos uma esperança muito grande neste projeto de revitalização do Bairro Alto. Esperamos que possa vir requalificar o espaço público, proporcionar oportunidade aos comerciantes e aos clientes de poderem usufruir do espaço público, mas devidamente controlado e regrado. Onde houver uma esplanada, evita-se que estejam ali 40 ou 50 pessoas aos gritos».
O presidente da ACBA acredita que negócios que já fizeram parte do Bairro Alto poderão voltar. «No Bairro Alto já tivemos as lojas de design, de estilistas consagrados como os Manéis, a Laura Aires, a Fátima Lopes, tudo negócios que fecharam. Temos de pensar numa estratégia para que, no Bairro Alto, voltemos a ter a dinâmica e as atividades comerciais que existiam, outros negócios».
E, mais uma vez, declara guerra aos pequenos espaços que acabam por vender a maior parte das bebidas para a rua. «Todos esses botecos que não têm espaço interior para acolher muitas das vezes mais de 20 ou 30 pessoas, isso acaba por inviabilizar o negócio porque ninguém vive com 20 clientes, e está a tirar lugar a outras atividades que a determinada altura deixaram de ter viabilidade e foram-se embora. Tínhamos lojas de roupa, nichos de comércio alternativo que existiam no bairro. O bairro era um bairro com uma dinâmica viva, com várias lojas, com vidraria, com drogarias, com mercearias, tudo isso acabou. E todos esses espaços viraram, e mal, botecos a despejar álcool para a rua».
DIVERSÃO COM LIMITES
Hilário Castro também olha para a Rua da Atalaia. «É das ruas mais bonitas do Bairro Alto mas há uma política do vale tudo, com pessoas a oferecer shots a um euro. Com os angariadores a pararem as pessoas para que vão beber, que é uma coisa que nós abominamos», confidencia. «Isto é a política do vale tudo. E esta transformação do Bairro Alto foi nesse sentido. E se quando era uma novidade até tinha alguma graça, o problema é que rapidamente se replicou e deixou de ter qualquer graça, antes pelo contrário. É impraticável, e é inaceitável, termos espaços comerciais que tenham três e quatro pessoas na rua a placar os passantes oferecendo shots».
Até as casas de fado, de acordo com o empresário, saem prejudicadas. «Imagine o que é as pessoas saírem de dentro de uma casa de fados e depararem-se com uma multidão de 60 ou 70 pessoas. Para além do ruído que também entra pelas casas de fado, prejudicando o ambiente». Hotéis e alojamento local também não ficam bem nesta fotografia. «Temos aqui unidades de referência, instalaram-se hotéis de cinco estrelas no Bairro Alto. Ninguém gosta de ter isto à porta».
Mais uma vez, o presidente da ACBA bate-se por diversão noturna, sim, mas com regras. «Não podemos ter um pubcrawl, em que um indivíduo se faz acompanhar de uma coluna de som, que é proibida a qualquer outra pessoa e esse indivíduo anda com ela, e depois arrasta uma multidão de muitas dezenas de pessoas para não falar centenas, pelas ruas fora, lá está, para irem beber. Portanto, isto a partir de determinada hora tem de ter regras. Tem de ter regras», repete. «Não podemos ter um grupo de 70, 80 pessoas e às vezes mais, à uma e meia, duas da manhã, de bar em bar».