O que pensa da proposta do Governo de exigir trabalho social obrigatório para beneficiários da futura Prestação Social Única?
Qualquer prestação social deve ser uma justa expressão de um direito-dever e de solidariedade com responsabilidade. No regime contributivo, o dever está no pagamento das contribuições que pagam as pensões e outros apoios. No regime não contributivo, pode associar-se um subsídio a um dever de inserção social. Neste contexto, as actividades “socialmente necessárias ou úteis” fazem parte desta contraprestação. Foi um governo do PS que, no RSI, determinou que “as actividades que satisfaçam necessidades sociais têm um limite máximo de 15 horas semanais e 8 horas diárias”. Exactamente o que o actual Governo propõe…
Faz algum sentido o Governo ceder à pretensão do Chega de diminuir a idade da reforma para aprovar as alterações à legislação laboral?
Não, de todo. Diminui-la aceleraria a insustentabilidade do sistema público de pensões, ou seja, seria uma medida contra as gerações futuras. Isso não impede que possa haver ajustamentos nas carreiras contributivas mais longas. E seria sobretudo oportuno criar a opção de “pensões parciais”, como forma voluntária de antecipar a actual idade legal, mas de um modo equilibrado e sustentável.
Como se conseguirá um justo equilíbrio entre competitividade económica, personalismo laboral, harmoniosa conciliação de tempos e justiça distributiva?
Andamos a discutir e legislar para um mundo que já não existe. Estamos num momento decisivo de profundas mudanças na geografia das profissões, na natureza e filiação do trabalho, na demografia, e sobretudo na adaptação a novos desafios da era digital.
Em política social e laboral, não há óptimos sociais, mas pode e deve haver boas soluções na moderação das divergências. Entre o empregador e o trabalhador há a empresa. Entre a empresa e o emprego há o trabalho. Entre o empregador e a empresa há a responsabilidade social. Entre a empresa e o trabalhador há a família. É nestes balanceamentos que se deve encontrar o denominador comum das políticas laborais e sociais.
Foi ministro da Segurança Social e do Trabalho, e também das Finanças. A aposta no turismo não está a afunilar o futuro do país?
Tem sido uma boa aposta, mas com riscos de uma dependência muito concentrada. Um, o do seu excesso que prejudica a qualidade que importa preservar. Outro, o de estar sujeito a factores externos que não controlamos.
Diz-se que há um milhão e seiscentos mil imigrantes a viver em Portugal. O país está preparado para garantir uma reforma a quem agora desconta, independentemente da sua nacionalidade? E o sistema de Saúde aguentará tantos ‘novos clientes’?
Os descontos não discriminam a nacionalidade, como é óbvio. Ouço frequentemente dizer que são esses novos emigrantes que permitem que o sistema previdencial tenha vindo a ter excedentes. É uma visão de curtas vistas. Tal acontece porque a maioria das prestações sociais – sobretudo pensões – só lhes serão pagas muito posteriormente.
Há dez anos aprendeu italiano, até para traduzir. Desde essa época aprendeu outra língua ou qual foi o seu maior investimento pessoal desde 2020?
Adoro a língua italiana. O meu maior investimento pessoal é alimentar a curiosidade que sempre me move. E escrever.
A botânica continua a ter um lugar muito importante da sua vida?
Muito importante. Ora aí está um dos meus investimentos pessoais.
A agricultura nunca o fascinou? Planta legumes no Alentejo para os consumir?
O que me fascina é a vida vegetal, das árvores e não só. Sim, no meio delas, no Alentejo, tinha umas domésticas hortas.
Se fizer um jantar com familiares e amigos permite telemóveis à mesa?
Refeições com telemóveis é uma prática que, com familiares ou amigos, não temos, a não ser por excepção.
O que pensa da proibição de as crianças usarem os telemóveis na escola? E, já agora, a decisão de alguns países de proibirem o acesso às redes sociais a menores de 16 anos?
Tendo a concordar com restrições e acessos condicionados, ainda que considere que essas proibições são como tentar parar o vento com as mãos.
Se encontrasse Deus e Este lhe perguntasse do que se arrependia de ter feito, o que Lhe diria?
Procuro encontrar Deus na oração para Lhe pedir perdão para os meus pecados e compaixão diante das minhas fraquezas.
Gostou da Carta Encíclica Magnifica Humanistas do Santo Padre Leão XIV?
Muito. Documento de leitura obrigatória na Igreja e não só. Reafirma o imperativo da dignidade e da centralidade humana, do discernimento e da ética na era da Inteligência Artificial. Adverte-nos para o perigo do reducionismo digital e para o domínio da máquina sobre o homem.
É preciso ter muita fé para acreditar que o Benfica poderá ser campeão na próxima época?
Fé não digo, mas fezada é sempre necessária para acalentar os sonhos e a esperança.
Consegue fazer o 11 de sempre do Benfica?
Reconheço que se o fizesse seria decerto um 11 sempre injusto e saudosista. Do tempo em que o futebol era mais espontâneo e genuíno e menos programado. Apenas diria que seria Eusébio + 10.
Continua a não conseguir ir ao estádio da Luz?
Vou sempre que posso ver os jogos na Luz. Na companhia de amigos, disfarço o nervosismo.
Quem acha que será o Campeão do Mundo?
A resposta desportivamente correcta é Portugal. Se não, que seja a Inglaterra.
Ainda tem a sua papagaia Pelé? O que lhe tem ensinado a dizer de novo?
Já tem quase 30 anos. Como nós, “burro (papagaio) velho não aprende línguas”. Mas tem um extenso e educado vocabulário.
Onde e quando ganhou o fascínio pela botânica? Ainda espera escrever mais livros sobre esta área?
Quando, no liceu, hesitei entre as ciências económicas e a agronomia. Optando pela ciência da árvore das patacas, nunca deixei de me interessar pelas árvores e plantas que estudo há décadas. Sim. Estou a escrever um novo livro, uma espécie de viagem botânica virtual pelo mundo.