Os resultados das audiências são apresentados – todos os dias, todos os meses ou no final
do ano – com grande pompa e circunstância por vários canais televisivos. A forma como a informação passa pode confundir quem a recebe. Afinal ganham todos? Não. Quem ganhou foi a TVI e a CNN Portugal. Mas tudo passa pela forma de comunicar.
As audiências televisivas em Portugal são alvo de atenção contínua por parte dos canais, anunciantes e público. Perante as mesmas medições, é comum ver TVI, SIC, CNN Portugal e CMTV apresentarem resultados aparentemente contraditórios: uns dizem que lideram, outros que "venceram este mês", e ainda outros que "são líderes no seu segmento". Mas será que uns mentem e outros dizem a verdade?
A resposta passa por entender como as audiências são medidas e como os canais utilizam esses dados para se promoverem.
Em Portugal, as audiências televisivas são medidas pela GfK, com base num painel representativo de lares e indivíduos, recorrendo a sistemas eletrónicos como os peoplemeters. Os dados recolhidos são depois disponibilizados diariamente a operadores, agências e anunciantes através de plataformas profissionais, como a Yumi, sendo analisados e citados por meios especializados e generalistas.
A partir deste mesmo conjunto de dados, cada canal pode destacar resultados diferentes: share do total do dia, liderança num horário específico, desempenho num determinado público-alvo ou vitória num período mensal ou anual. Isto permite que, mesmo com números de base idênticos, surjam comunicações públicas com significados distintos.
TVI bate SIC nas generalistas
Nos dados acumulados de 2025, a TVI terminou o ano com vantagem sobre a SIC na média anual, ainda que com uma diferença de décimas no share total. Esta liderança resulta do somatório de audiências ao longo de todo o ano e do maior número de dias vencidos pela estação, um critério frequentemente usado pela TVI nas suas comunicações públicas.
Isto significa que, no conjunto global do ano, a TVI foi o canal generalista mais visto: uma afirmação verdadeira quando analisada nesse recorte temporal.
Objetivamente, portanto, a SIC perdeu em 2025, e tem de lançar mão de dados parciais para reclamar êxitos: liderou em vários meses isolados e em períodos relevantes da grelha, incluindo horários de maior concentração de audiência, como prime time ou o total do dia em determinados meses. E registou programas mais vistos do dia ou lideranças em faixas horárias específicas. E isso permite à estação de Laveiras reclamar vitórias, quando, na verdade, no balanço anual, a SICsurge atrás da TVI.
Ao Nascer do SOL, António Salvador, diretor-geral da GfK, atira: "A TVI é que ganhou em termos globais. Depois, cada um considera o aspeto mais relevante".
CNN Portugal lidera informação
No universo dos canais de informação, a disputa faz-se num campeonato distinto.
Ao longo de 2025, os dados acumulados indicam que a CNN Portugal apresentou um share superior ao da SIC Notícias, permitindo-lhe consolidar a liderança entre os canais de informação.
Feitas as contas, a CNN Portugal terminou o ano com um share de 2,4% e a SIC Notícias 2,1%.
Ainda no meio da informação, a RTP Notícias é a que tem menos audiências, sendo que reclama o facto de ser nomeada como a mais ‘constante’ de todas.
Ao longo do ano, a NOW também viu as suas audiências subirem, mas não liderou.
Destaque ainda para a CMTV, que se assume como líder de audiências nos canais cabo mas tem uma particularidade: António Salvador explica que a CMTV "naturalmente não pode competir porque é uma TV de cabo" que, apesar de se considerar de informação, está registada como generalista. De informação é a NOW. "A CMTV está registada como generalista mas considera que os seus principais concorrentes são a SIC Notícias e a CNN, e, nessa perspetiva, sim, ganhou".
Afinal, todos ganham?
A explicação assenta em três fatores principais. O primeiro está relacionado com os dados. São os mesmos para todos mas as métricas variam. Um canal pode ganhar o total do dia, um horário específico, um determinado mês, a média anual ou até o número de dias vencidos. Mas depois cada canal vai comunica com o indicador que lhe é mais favorável.
Em segundo lugar estão os públicos e os seus interesses. Mesmo quando não lidera no total, um canal pode ser líder em públicos valorizados comercialmente (como determinados escalões etários ou perfis urbanos), dados frequentemente usados em comunicação institucional e comercial.
E, por fim, os distintos "campeonatos". Não faz sentido comparar diretamente canais generalistas (TVI, SIC) com canais de informação (CNN Portugal, SIC Notícias) ou o conjunto do cabo, onde a CMTV se destaca.
Mas António Salvador é perentório: "Todos eles dizem verdades. Não são é verdades absolutas, são verdades relativas". E acrescenta: "Para o cidadão, admito que confunda. Para os anunciantes, que admito que sejam o principal alvo, os principais interessados por estes estudos, as audiências servem para duas coisas: analisar a qualidade da grelha e fazer as alterações que se pretenda e, simultaneamente, para recolher investimento publicitário".
E termina: "Agora, nenhum deles está a mentir, todos eles dizem verdade. Mas é a verdade relativa. Quem teve maior audiência durante o ano passado foi a TVI, isso é inequívoco".
Ou seja, feitas contas, sendo verdade o que todos podem dizer, e sendo que os números utilizados são recolhidos por sistemas de medição reconhecidos e partilhados por todo o mercado, no ano de 2025 a TVI ganhou nos canais generalistas e a CNN Portugal destacou-se na informação.