Atrelado. Emails da direção da PJ tramam ministro

Documentos internos da Judiciária contrariam factos divulgados por Luís Neves no caso do atrelado da droga que apareceu à porta do seu amigo de Barcelos
Atrelado. Emails da direção da PJ tramam ministro

Emails trocados entre os diretores da Polícia Judiciária em setembro de 2025 e outros documentos internos a que a investigação SOL/TVI/CNN Portugal teve acesso desmontam por completo a justificação pública que o ministro Luís Neves veio dar para o facto de ter incumbido o seu amigo empreiteiro de Barcelos de levar para os seus armazéns uma galera cheia de bidões com produtos químicos, que fora apreendida durante uma operação de desmantelamento de uma rede de tráfico de droga em 2024.

Tal solução «foi um puro ato de boa gestão» e «poupou ao Estado muito dinheiro», na ordem dos 150 mil euros, afirmou Luís Neves na conferência de imprensa de 29 de julho.

Só que passou por cima do facto de que aquele valor seria o eventual orçamento para transportar e destruir todo o material apreendido nessa operação (‘Pacoba’), que fora guardado no parque da PJ em Tires e no da Marinha no Seixal: um total de quatro galeras e não apenas a que foi levada para Barcelos por João Santos Carvalho.

Outro facto entretanto apurado pela nossa investigação, e que o ministro da Administração Interna não referiu na sua conferência de imprensa – em que era suposto ter dado todas as explicações sobre este caso e o das obras feitas nas suas casas no Alentejo pela Construbarcelos, depois de esta ter realizado várias empreitadas para a PJ – foi o de que o Ministério Público dera ordem de destruição de todo o material apreendido na Operação Pacoba e que, tal como acontece em todos os processos judiciais, cabia ao Instituto de Gestão Financeira e Equipamentos da Justiça (IGFEJ) pedir a empresas especializadas orçamentos para executar essa tarefa.

«O que acontece habitualmente é que se manda executar o trabalho e as notas de despesa, seja da destruição do material ou de perícias externas, por exemplo, são afetas ao processo-crime em causa e pagas pelo IGFEJ», explica uma fonte da Judiciária conhecedora dos procedimentos, deixando claro que as despesas para eliminar os químicos nunca seriam imputadas ao orçamento da Judiciária. Logo, não se punha a falta de «cabimentação orçamental», alegada por Neves na conferência de imprensa.

Contactado há mais de duas semanas, o IGFEJ, que está sob alçada da ministra da Justiça, Rita Alarcão Júdice, não respondeu até hoje às nossas perguntas sobre as suas responsabilidades neste tipo de procedimentos.

De três empresas especializadas na destruição de químicos, duas avançaram à nossa equipa estimativas para a destruição de acetato de etilo e hexano, as mesmas substâncias que estavam nos 62 bidões de 200 litros levados para Barcelos. A conversão para quilos não é certa, mas mesmo que fossem, no máximo, 12 toneladas, o custo rondaria apenas três mil euros, segundo a empresa Carmona. A destruição de cada tonelada rondaria 250 euros. Já segundo a Ecodeal, habituada a fazer estes orçamentos para a PJ, o preço estimado seria de 3.150 euros por tonelada, o que daria 38 mil euros.

Carregada com material de construção

No âmbito da Operação Pacoba, a PJ apreendeu, em dezembro de 2024, numa quinta em Torres Vedras, quatro galeras (ou atrelados): uma era frigorífica e as outras apenas tinham estrado. A galera que foi depois levada para Barcelos pelo empreiteiro amigo de Luís Neves era a única que tinha uma lona exterior, nas laterais, que dava para abrir e fechar (permitindo, por isso, fazer carregamentos pela parte traseira e também pela lateral).

No total foram apreendidos uma centena de bidões de 200 litros e ainda 13 tinas com químicos tóxicos, voláteis e perigosos, além de 13 depósitos com capacidade para mais de mil quilogramas – cada um – que continham substâncias líquidas igualmente tóxicas, voláteis e perigosas.

Ora a galera que foi levada para Barcelos tinha apenas 62 bidões de 200 litros cada, com químicos para produção de cocaína, que se tornaram provas num processo de tráfico de droga, associação criminosa e branqueamento de capitais, que ainda aguarda julgamento no Juízo Criminal de Lisboa.

Quando uma equipa da PJ a foi recuperar ao parque de estacionamento em frente à Construbarcelos, a 14 de julho último, na sequência da notícia SOL/TVI/CNN Portugal, encontrou a galera carregada de material de construção. Essa equipa da PJ, segundo as nossas fontes, reportou entretanto ao MP que a direção da Judiciária havia determinado que apenas fosse feita a recuperação da galera e dos químicos e que Carvalho não fosse detido.

Suspeita-se de que a galera era usada pela Construbarcelos nas suas atividades enquanto que os materiais químicos estavam armazenados no interior do edifício. Alguns desses bidões apresentavam indícios de terem sido violados e estarem a ser usados.

Aliás, no inquérito-crime que foi ordenado pelo procurador-geral da República na sequência das notícias que publicámos, havendo indícios de crimes de abuso de poder e descaminho, o magistrado titular do processo já pediu à PJ que faça uma perícia a esse material para se perceber o que ocorreu.

A partir daí, vai ainda ser investigados um eventual crime de corrupção, tendo em conta todos os indícios de que o material estaria a ser usado pela Construbarcelos.

Ainda segundo apurámos, a primeira reação do dono, João Santos Carvalho, quando foi interpelado pelos agentes, foi a de negar que tivesse os produtos químicos na sua empresa. O empreiteiro acabou por ceder e revelar onde os guardara, mas recusou-se a dizer quem tinha dado as ordens para levar a galera para a sua empresa. Carvalho declarou ainda na ocasião que a PJ o incumbira de encontrar uma solução definitiva para os químicos, o que deita por terra a ideia de que os bidões estavam à sua porta apenas temporariamente.

A galera e o material que dela restou encontram-se atualmente em Tires (Cascais), no parque de apreendidos que pertence à Judiciária. E todos estes factos estão a ser investigados.

Estes factos e os argumentos entretanto dados por Luís Neves na conferência de imprensa causaram surpresa na PJ.

«Os parques de Tires e do Seixal têm muito espaço. No Seixal, há mais galeras apreendidas à ordem de outros processos. Está por esclarecer o motivo da escolha desta galera em específico para ser levada para Barcelos pelo empreiteiro», comenta uma fonte desta polícia. E revela mesmo: «Depois dessa operação, já foram enviadas para lá mais galeras e mais material… Não há falta de espaço, nem em Tires nem no Seixal, para se poder vir falar na necessidade de eventual arrendamento de outros parques para colocar as galeras ou químicos. E já lá foram depositadas outras coisas depois disso».

Segundo apurámos, também não consta no processo da Operação Pacoba nem nos e-mails e documentos internos a que tivemos acesso qualquer queixa da Marinha ou pedido para o material ser retirado por alegada perigosidade e possibilidade de explosão com o calor.

Até porque, como se pode verificar na nova documentação a que tivemos acesso, o perigo estava sim nas instalações da PJ em Tires e não no parque da Marinha, no Seixal. Além disso, a decisão para deslocar estes materiais para Barcelos foi tomada em setembro, quando a força do sol já esmorecera.

 O que disse Neves

A procuradora da República titular do processo da Operação Pacoba ordenou a destruição do material logo em dezembro de 2024. O transporte da galera em causa para a esfera do empreiteiro de Barcelos terá acontecido em finais de setembro de 2025: sem qualquer acompanhamento especializado, saiu do parque de apreendidos da Autoridade Marítima, no Seixal, em direção ao estacionamento frente à Construbarcelos, alegadamente a pedido de Álvaro Pires (diretor financeiro da PJ, que também teve obras na sua residência feitas pela Construbarcelos) e na sequência de uma decisão que Luís Neves disse na conferência de imprensa assumir «integralmente».

«Foi a decisão adequada» e a que «melhor protegia os interesses do Estado», salientou o ministro da Administração Interna, acrescentando que «voltaria hoje» a fazer o mesmo, pois «foi um puro ato de boa gestão». Explicou ainda: «Pediam 150 mil euros pela destruição deste material. Não tínhamos cabimentação orçamental para o fazer e sabíamos que precisávamos de tempo para baixar o preço desta ação. A recolha deste material em qualquer armazém levar-nos-ia três a quatro mil euros por mês de renda e teríamos de esperar alguns meses, porque é a burocracia, para podermos ter acesso a outro armazém [que não o da Autoridade Marítima no Seixal]».

Em resumo, na versão do ministro: «Esta decisão poupou ao Estado muito dinheiro e permitiu-nos ganhar tempo para encontrar uma solução adequada. E sempre em segurança. Este material foi guardado num local de segurança».

 O que revelam os mails

A investigação SOL/TVI/CNN Portugal teve acesso a e-mails trocados entre elementos da direção da PJ no tempo de Luís Neves – com conhecimento deste –, na segunda metade de setembro de 2025, antes de a galera ter ido para a Construbarcelos.

Como já referimos, nunca se invoca qualquer queixa ou pedido da Marinha. Refere-se, sim, que o parque da PJ em Tires não tem adequados sistemas de prevenção de incêndios e manifesta-se preocupação perante o aumento de apreensões de produtos potencialmente explosivos no âmbito de investigações criminais.

Assim, o que foi discutido foi uma solução definitiva e global para o transporte e destruição de materiais apreendidos em vários processos – entre os quais os químicos da Operação Pacoba.

Num mail de 23 de setembro, Álvaro Pires refere que já havia um orçamento para destruir tudo o que estava «em Tires e nas instalações da Polícia Marítima no Seixal»«Um custo de 126.000 euros, acrescidos de IVA à taxa legal em vigor. Estamos a tentar encontrar uma solução mais económica para a PJ sendo previsível que até afinal da primeira quinzena de outubro os produtos sejam retirados». Estava a referir-se a deslocação da galera para Barcelos e aos 150 mil euros de que Neves vem a dar nota na sua conferência de imprensa.

Este mail foi enviado a Veríssimo Milhazes, diretor nacional-adjunto, com conhecimento de outros diretores, incluindo o então diretor nacional, Luís Neves.

Seis dias depois, em 29 de setembro, José Monteiro, diretor da PJ de Braga, escreve um longo mail a Veríssimo Milhazes, com conhecimento de Neves e Pires, entre outros.

Transmite aos colegas: «Parece absolutamente inquestionável persistir uma situação real, atual e concreta, de grande perigosidade, dada a natureza de elevada instabilidade dos referidos produtos, para a qual importaria encontrar uma solução global e centralizada». Sugere, portanto, que não é lógica qualquer solução ad hoc, como a que Pires tinha em mente.

«Importante seria também, desde já, precaver eventuais situações futuras, com a afetação de locais próprios e seguros para a guarda desta natureza de produtos, de utilização cada vez mais frequente nas organizações criminosas perseguidas por esta polícia», conclui o diretor da PJ de Braga.

Nesse mesmo dia, entra em cena Artur Vaz, diretor da Unidade Nacional de Combate ao Tráfico de Estupefacientes. Dirigindo-se a Milhazes, com conhecimento de Neves e Pires, secunda a posição de Monteiro. Escreve que tem «disponibilidade e interesse» para «uma solução global centralizada para, num primeiro momento, se armazenar este tipo de produtos e, depois de analisados, se proceder à sua destruição ou aproveitamento quando tal seja possível e recomendável quer em termos económicos quer em termos ambientais».

Ou seja, também Vaz rejeita a pretensão de Pires que já pairava no ar: enviar parte dos materiais da Operação Pacoba para junto da Construbarcelos.

O ministro da Administração Interna declarou-nos, através de um porta-voz, que «reitera as afirmações expressas na conferência de imprensa do dia 29 de julho» e que «a decisão em causa teve por base informações que lhe foram transmitidas pelos serviços competentes da Polícia Judiciária, em relação aos quais a direção nacional tinha absoluta confiança». Luís Neves fez também saber que «nada mais tem a declarar sobre este tema» e que «sobre atos de gestão» da PJ «deve ser questionada» a instituição.