quarta-feira, 13 mai. 2026

Assinou uma carta contra a violência e dois anos depois atirou um cocktail molotov à Marcha pela Vida: quem é Nelson Vassalo

Designer de 39 anos, ex-professor da Faculdade de Belas-Artes e militante do PS, Nelson Vassalo ficou em prisão preventiva após ser detido pela PJ por suspeita de terrorismo. O partido suspendeu-o de imediato e admite expulsão.
Assinou uma carta contra a violência e dois anos depois atirou um cocktail molotov à Marcha pela Vida: quem é Nelson Vassalo

Nelson Vassalo tinha 37 anos quando assinou uma carta pública contra o racismo e a xenofobia, em janeiro de 2024, que reuniu mais de cinco mil assinaturas e foi endereçada ao então Presidente da República, ao primeiro-ministro e ao ministro da Administração Interna. Dois anos depois, este designer de 39 anos, natural do Barreiro, foi detido pela Unidade Nacional Contraterrorismo da Polícia Judiciária, suspeito de ter arremessado um cocktail molotov artesanal contra os participantes da Marcha pela Vida, a 21 de março, junto à escadaria da Assembleia da República, em Lisboa.

O engenho incendiário não deflagrou, evitando ferimentos entre as cerca de 500 pessoas que ali se encontravam, incluindo crianças. Ainda assim, a PJ indiciou-o pelos crimes de infrações terroristas, detenção de arma proibida, incêndio, explosão e outras condutas especialmente perigosas e de ofensas à integridade física grave. Apresentado ao Tribunal Central de Instrução Criminal de Lisboa, Nelson Vassalo ficou em prisão preventiva.

Cartão do PS encontrado nas buscas

Nas diligências realizadas à habitação do suspeito, as autoridades encontraram, entre outros materiais, um cartão de militante do Partido Socialista, avançou o Público. A revelação apanhou o próprio partido de surpresa. Em comunicado, o PS confirmou ter tomado conhecimento da filiação "através da comunicação social", anunciando de imediato a suspensão preventiva do militante e a abertura de um processo disciplinar junto da Comissão Nacional de Jurisdição. "A confirmarem-se os factos, poderá ser aplicada a expulsão de militante", avisou o partido, reiterando que "não pactua com nenhum tipo de violência".

De Nova Iorque para as aulas em Belas-Artes

O percurso de Nelson Vassalo inclui vários anos passados em Nova Iorque, onde trabalhou em duas empresas de design entre 2017 e 2023, com passagens intermédias por Munique e por Portugal. De regresso ao país, integrou os quadros da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa como professor adjunto, cargo que exerceu durante apenas um semestre. Segundo o Observador, que contactou colegas e antigos superiores hierárquicos, era descrito como um "excelente profissional", "graficamente avançado" e capaz de "entregar coisas muito acima da expectativa".

O ativista que criou a app contra os edifícios devolutos

Fora do percurso académico e profissional, Nelson Vassalo era conhecido pelo ativismo ligado à crise da habitação. Em entrevistas ao Público, em 2022 e nos anos seguintes, descreveu as dificuldades em arrendar casa em Lisboa apesar de auferir um salário "acima da média" e de já ter mudado de residência mais de 35 vezes ao longo da vida.

Dessa experiência nasceu a aplicação "Devolutos", uma plataforma criada para identificar edifícios vazios em Lisboa e noutras cidades portuguesas, com o objetivo declarado de pressionar por políticas urbanísticas mais responsáveis. A iniciativa gerou polémica: a Associação Nacional de Proprietários ameaçou avançar com uma queixa em tribunal, acusando a plataforma de violar a privacidade dos proprietários.

A investigação da PJ prossegue. As autoridades continuam a averiguar a possibilidade de o designer ter atuado em grupo na tarde do ataque, procurando identificar outros eventuais envolvidos.