terça-feira, 18 ago. 2026

As diferentes vidas da mouraria

Um colégio, bem junto ao Castelo de S. Jorge, ‘alberga’ 105 crianças de 13 nacionalidades. Na rua, a realidade é bem diferente, onde prostitutas, traficantes, comerciantes, moradores antigos e imigrantes têm uma convivência difícil. 

Ao entrarmos no antigo convento da Ordem Terceira da Penitência, bem próximo do Castelo São Jorge, Lisboa, o nosso olhar fixa-se na variedade de nomes espalhados pelas paredes: Huzaifa, Layanta, Leonor, Kay Lee ou Luciana. Estamos no ‘colégio’ do Centro Social Menino de Deus e no interior estão, habitualmente, 105 crianças, 40 das quais de pais nascidos em Portugal – a maioria, de pais estrangeiros, já nasceu em Portugal. Aqui não há conflitos de integração, não há problemas de comunicação e todos brincam no enorme espaço comum do convento, que foi mudando de utilidade ao longo dos séculos. Chegou a ser um asilo, depois um lar para operárias, mas há um denominador comum à história do local: quase sempre recebeu crianças pobres da zona. Com a instauração da República, o convento passou para as mãos do Estado, só sendo devolvido ao Patriarcado de Lisboa em 1946. «Há cerca de dez anos, passou a creche, e temos aqui crianças de um e de dois anos, no primeiro andar, e as de três, quatro e cinco anos estão no pré-escolar. No total são 105 crianças, de 13 nacionalidades», diz-nos a irmã Matilde, uma das cinco que vive no convento. «Duas têm mais de 90 anos. Há 30 anos vivíamos aqui 24. Éramos 18, mas acolhíamos irmãs que vinham de Angola, de Moçambique».

Enquanto nos guiava pelo convento, acabou a hora da sesta, e as crianças fazem questão de nos dar as boas vindas, com uma algazarra própria da idade. «Estes são os mais pequeninos, acabaram de se levantar, o Leo é o educador, é brasileiro. A Patrícia, ajudante, é portuguesa. Levantaram-se agora e estão um pouco animados». É percetível que a maioria é de origem indostânica, com o Bangladesh à cabeça, seguindo-se a Índia e o Nepal. «Na creche não se paga absolutamente nada, é um acordo com a Segurança Social, é a tal creche feliz. Já o pré-escolar paga conforme o rendimento per capita. Acontece que os rendimentos que nos apresentam são extremamente baixos, porque as pessoas, algumas, acabaram de chegar, não têm IRS, nem nada. Portanto, é uma instituição com dificuldades económicas, no fundo, por isto, porque as mensalidades são extremamente baixas. Depois temos [Congregação das Irmãs de São José de Cluny] acordos com a Segurança Social, como todas as IPSS, mas temos que ter ajudas de benfeitores, e também fazemos ‘feirinhas’, etc. para compensar», explica a irmã Matilde. O padre Edgar, que é responsável por quatro paróquias, com nove igrejas, e que fez de ‘guia’ e de jornalista entra em ação: «Em Alfama, Mouraria, Castelo, uma das questões que eu levanto é por que não existe um único assistente social aqui, uma única creche da Santa Casa. Não existe nada».

A irmã Matilde volta a ter a palavra. «Quem também ajuda aqui muito são os da Ordem de Malta. Há uma pediatra, a dra. Joana, e é ela que coordena. Temos sempre voluntários, à terça e à sexta, para apoiar as crianças. As enfermeiras vêm fazer a triagem, numa determinada altura, porque elas fazem o seu trabalho de medicina, de enfermagem. Mas, no fundo, é para apoiar nas atividades normais para as crianças. Depois fazem ateliês, até temos aí o programa deles na altura do Natal, do Carnaval, da Páscoa».

Como já se percebeu, bem no coração do Socorro, há um espaço em que muitos colaboram para integrar crianças de tantas proveniências. Questionada sobre se há problemas religiosos devido a essa diversidade a irmã é certeira: «Não. Não temos missa, mas passamos os nossos valores. Por exemplo, durante o Natal temos numa mesa o chamado Despertar da Fé, em que falamos de Deus. Em todas as religiões há um despertar, há a vida, há um acreditar em algo para além de nós. E então isto é o germinar para a vida. E depois fala-se de Deus. Fala-se do nascimento, do Natal, com esta germinação, como é que se nasce. E fala-se no Menino Jesus». Em cima da mesa estão vários bolbos, uma pinha, um ovo, símbolos que representam o germinar, as diferentes religiões,

«Nós aqui falamos de religião. E as crianças, evidentemente, ouvem. E os pais também ouvem. Nós somos uma escola católica. Dizemo-lo sempre de uma forma muito clara. Os pais sabem. Eles põem cá os filhos. Nós não estamos a instruí-los propriamente na religião católica, mas a nossa base é essa».

A pergunta era inevitável, até atendendo às recentes polémicas. Fazem a árvore de Natal, em dezembro? «Fazemos. E presépio também. Mas reforço a mesa do despertar da vida, que simboliza, como disse, as diferentes religiões, e que uma irmã cuida durante todo o ano. Mas tivemos presépios por todo lado, e eles colaboraram. Eles próprios fizeram o presépio, as figuras, em cartão. E os que não são da nossa religião também fazem. No dia 13 de Maio fazemos aqui uma procissão à volta com o andor, tal e qual como em Fátima. As crianças não fazem distinção e todas participam». Mas isso não poderá ser encarado como uma catequização à força? «Não, estamos abertos a todos mas passamos a mensagem católica, a mensagem universal».

O padre Edgar Clara rapidamente se torna o ‘amigo’ das crianças, pois adoram ouvi-lo a imitar patos ou gatos. E é dessa forma que consegue ‘acalmá-los’ para a devida foto de família. O convento, uma autêntica Torre de Babel do Martim Moniz, durante a Jornada Mundial da Juventude, em 2023, serviu de casa a 80 peregrinos ucranianos, destacando-se cinco padres, quatro dos quais casados. «Não foi fácil gerir tantos peregrinos, mas foi gratificante. Os padres católicos do rito oriental podem ser casados. Ou melhor, os casados podem ser ordenados padres», revela Edgar Clara.

Entrar no mundo real

Deixamos o convento para trás e entramos no chamado mundo real, onde a tranquilidade e boa convivência entre as crianças não é propriamente replicado nas ruas da Mouraria, Alfama ou Castelo. Existe uma certa animosidade latente devido aos costumes de uns e de outros, nomeadamente higiénicos e culturais, passe a redundância. Num cocktail que inclui sem-abrigo, prostituas, algumas com mais de 70 anos, traficantes de droga, e moradores portugueses com imigrantes, nem sempre a convivência é pacífica. O padre Edgar faz questão de falar com todos e paramos junto a um sem-abrigo de nacionalidade britânica. «Não podemos dizer que esta pessoa, do ponto de vista mental, esteja bem, porque não está. É uma coisa muito estúpida porque o vais deixando estar aí. Este Scott... Perguntei à Comunidade Vida e Paz se me podiam dar informações sobre ele, ninguém sabia. E questionei. Mas isto é só para dar copos de leite à noite? E copos de sumo? E o diabo a sete? Não dá para perceber. Como é que nós temos, na nossa sociedade, pessoas que estão na rua, com tantas organizações e não há uma solução, não há uma».

Edgar manda, com alguma frequência, toxicodependentes para institutos de reinserção social. «Se falarmos, por exemplo, com a Associação Vale de Acór, do padre Pedro Quintela, um dos problemas que eles têm é que recuperam uma pessoa, do ponto de vista da droga, mas depois não têm sítio onde colocar a pessoa, porque já não está funcional para estar inserida na sociedade. Portanto, ou volta outra vez à droga ou continua lá a viver, porque já não tem casa, já não consegue viver sozinha. Falando com os rapazes que fumam charros, todos se riem quando eu digo que, por exemplo, a erva pode meter os neurónios baralhados, a pessoa pode ir para o lado de lá e já não voltar. E todos se riem. Mas a verdade é que os hospitais estão cheios de gente que só fumava erva, e que alucinou. É uma coisa que está escondida, que não queremos falar».

Toxicodependentes que ‘viram’ padres e freiras

«O padre Pedro Quintela, por exemplo, tem para aí uns 100 jovens a recuperar da droga, que é um projeto chamado Projeto Homem, em Almada. Estão lá 100 rapazes e raparigas. Depois temos a Comunidade Vida e Paz, também devem ter uns 100 ou mais, entre toxicodependências e outros tipos. Depois há uma comunidade muito curiosa que é a Cenáculo, em Fátima. É uma comunidade que foi criada em Verona, por uma freira, a irmã Elvira, que via todos os dias os toxicodependentes pela rua, e tinha aquele desejo de recuperar os miúdos. O que ela fez? Pediu à superiora, que disse não, não, não. Do bispo também recebeu a mesma resposta, não podes, não podes. Ao final de sete anos, quer a superiora, quer o bispo, disseram bom, pode ser que estejamos a lutar contra a vontade de Deus, pode ser que a vontade de Deus seja esta, e deixaram-na fazer uma comunidade. E por que lhe diziam sempre não? Porque era uma mulher com a 4.ª classe. O que é que ela começou por fazer? Começou por dar regras claras aos rapazes e raparigas que acolhia. Primeira coisa, tens de fazer a cama todos os dias. Olha, tens de cuidar das galinhas, tens de cuidar do campo. Agora têm que viver aqui nestes quartos, com estas regras. Quando tiverem problemas entre vocês, quando é para discutir, vão à capela para discutirem em conjunto. E foi assim que ela conseguiu montar a comunidade».

O projeto da irmã Elvira fez escola e, neste momento, haverá 70 comunidades espalhadas pelo mundo. «Para entrarem em Fátima, os candidatos fazem várias entrevistas, podem não estar na rua, podem estar com os pais e terem um vício, de serem toxicodependentes ou outra coisa», explica Edgar. O modelo é o mesmo e não faltam animais na quinta para serem tratados. «Nem todos aguentam um ano, a maioria volta à droga ou aos outros vícios. Há uns que continuam no vício e há outros que recuperam. Alguns vão para padres e freiras», principalmente os que estiveram no Cenáculo.

Sem-abrigo e toxicodependentes, portugueses e estrangeiros, marcam o dia-a-dia do Martim Moniz. «Podes dizer a um sem-abrigo se quer um emprego, mas ele precisa é que lhe arranjem um psiquiatra ou um psicólogo para endireitar a vida», conclui Edgar. Enquanto vamos andando pelo bairro, vemos um sem-abrigo a deitar comida no caixote do lixo. «É comum isso acontecer. Eles vão buscar ao Banco Alimentar ou a outra instituições e depois deitam fora o que não querem ou tentam vender», comenta Edgar.

Uma prostituta poeta

Chegados às traseiras do Centro Comercial Martim Moniz encontramos uma das prostitutas de serviço que aborda o padre. Aos 70 anos, Elvira, curiosa a coincidência de nomes, desabafa contra o mundo, principalmente contra os albergues. Fala num português muito aceitável, mostra escritos, onde não se notam erros de português. «Senhor padre, é desumano o que eles fazem. Não se faz. É a vergonha nacional. Ninguém vem aqui ajudar-nos. As pessoas esquecem-se porque mandam as pessoas para os albergues, mas é tudo uma engrenagem. Percebe? As monitoras têm Teslas. Têm Audis. Quem cabritos não tem, cabras não vende, de algum lado vem, não é?». Num discurso fluente, Elvira vai revelando as suas paranoias. «O senhor acredita que estive num albergue e espetaram-me com três doenças seguidas? Isto porque eu mandei um caixote do lixo da casa de banho pela janela fora, nojento. Então, a senhora de lá, a coordenadora, fez-me uma represália. Mandou as colegas da camarada abrirem-me as janelas de noite. Conclusão, uma pneumonia. A seguir, uma gripe. E a seguir, uma colite. Estou aqui com bombas de ar».

Mostrando que escreveu ao presidente da câmara a protestar com a sua situação, Elvira diz a Edgar que não tem problemas de dinheiro, pois recebe pensão de viuvez, mas prefere dormir no aeroporto, onde está quentinho, do que dormir em albergues do Estado, pois insiste que é desumano o que lhe fazem: «Eles não me queriam lá porque eu não tomava comprimidos para nada. Os outros estão todos medicados e é disso que eles gostam». Se tem uma pensão de viuvez qual a razão para se prostituir? «Só o faço se quiser». Enquanto isso, travestis à antiga, com muitos anos em cima, passam na rua ao lado da Benformoso. Os clientes das prostitutas e dos travestis são, regra geral, também idosos, muitos africanos.

Quinta geração nascida no Bairro

«O que é que tu tens», pergunta Edgar à dona do restaurante Café Parreirinha, bem no coração da Mouraria. «Olhe, tenho aqui uma dor», diz. «E queres o quê? Que te cure?», responde o padre. «Ai, ainda bem senhor padre». Quando entramos na conversa, Cristina Ferreira, a dona do restaurante, de 57 anos, pede-nos que só digamos coisas boas. «Ultimamente têm dito muito mal da minha Mouraria, do meu bairro». Edgar questiona-a se é mesmo do bairro. «A minha neta é a quinta geração nascida neste bairro, mas já somos muito poucos». A palavra continua do lado de Cristina: «Olhe, eu não gosto muito de falar de algumas coisas, pois fico sempre rotulada de racista. E não sou racista. A minha melhor amiga, desde sempre, é negra. Só que acho que esta gente, esta imigração que veio para aqui, não sabe o que é limpeza. Eles não sabem respeitar a cultura de ninguém. Eles comem, bebem, mandam para o chão. Basta passar pela Rua do Benformoso para ver aquilo. É horrível. Além disso, estão a apanhar as lojas todas, está a deixar de haver lojas portuguesas. E isto parecendo que não, afeta um pouco tudo. Afeta na habitação, porque nós queremos casas para os nossos filhos e não temos. Porquê? Porque se o senhor tiver quem lhe pague cinco mil euros, não me vai levar a mim mil euros. Por mais engraçado que eu seja para o senhor. É a realidade. Porque hoje o que conta no nosso país é o dinheiro».

Uma das críticas mais frequentes na zona, seja na Mouraria, Alfama ou Castelo, é de que os imigrantes indostânicos podem fazer alterações aos imóveis, ocupar as vias públicas, vender carne sem qualquer inspeção, ao contrário dos portugueses que são fiscalizados por tudo e por nada. «Repare, fiz um telhado novo, tive que pôr um tal e qual, nem as telhas poderiam ser mudadas. Foi um caso sério para arranjar telhas iguais. Este senhor [aponta para a loja da frente] abriu uma porta, deitou abaixo uma parede, daqui lá para o outro lado, veio a [Polícia] municipal, e que fique claro que a mim não me estorvam nada, eles nem vendem o mesmo que eu, mas eu pergunto, como se pode fazer assim, e não se age, não se faz nada neste país? Como é possível deixarem fazer tudo a uns e nós sermos obrigados a cumprir tudo?», acrescenta Cristina, que termina a confessar que lhe fizeram uma oferta, um homem do Bangladesh, muito tentadora para vender o restaurante, mas que recusou. «Tive uma oferta à compra da minha casa, aqui do restaurante. Esta é que é a minha casa, pois passo aqui 14 e 15 horas. A minha casa mesmo onde eu moro é um dormitório. Eu vou lá, tomo banho, deito-me, durmo, levanto-me de manhã e venho-me embora para aqui. Enquanto eu puder, enquanto tiver forças para trabalhar, nunca vou vender esta casa. Porque se eu um dia vender esta casa deixa de existir a essência do bairro. Porque já só resta esta e mais uma que há ali em cima e depois não há mais».

Graça Guerra, dona do restaurante Santo André, de 54 anos, vive no bairro desde os 10 anos, não difere muito das críticas de Cristina Ferreira, mas sublinha que a Mouraria, há 20 anos, estava muito abandonada. «Há muitas coisas más com estas mudanças dos últimos dez anos, mas também há coisas muito boas que se ficam a dever a estas transformações. As boas é que deu trabalho a muitas pessoas, e também se recuperou muito património velho».

O padre Edgar chama a atenção para o facto de alguns residentes terem recebido indemnizações para deixarem as casas, mas que não gostam que se saiba. «Há muitas realidades diferentes. Por exemplo, há um fundo de investimento francês que comprou 17 prédios. Dos 17, 12 eram da Segurança Social. O país vendeu os prédios que nós precisávamos. Cada apartamento aqui, na Rua dos Lagares, custa um milhão, duzentos e cinquenta mil euros. Não é para a bolsa de todos», diz. 

Os sentimentos são sempre contraditórios e quando começamos a falar com os habitantes locais gostam de dizer bem, mas rapidamente apontam o que gostam menos. Paulo, da equipa da Higiene Urbana, ao perceber que estamos a fazer uma reportagem nas ‘terras’ de Edgar Clara, também quer dizer de sua justiça: «Somos uma cambada de totós e o Governo não vê isto. Ninguém vê isto. Sinto-me triste porque nós temos uns governantes que não prestam para nada. Não olham ao português, olham só aos estrangeiros. A minha neta foi para a escola. Não teve aqui lugar porque tinha que dar a prioridade aos estrangeiros, aqui na Gil Vicente. Teve que ir para a Nuno Gonçalves. Não ficou na Gil porque tinha que dar prioridade aos filhos dos estrangeiros porque eles não trabalham. Isto faz algum sentido?».

Outras das preocupações são o aumento do custo da habitação, o facto de a higiene não ser uma das preocupações para os indostânicos, e claro, o tráfico de droga que aumentou muito. Há mesmo quem fale numa comunidade afegã muito dedicada ao tráfico, mas também há quem diga que a maioria dos dealers são portugueses.

A volta de Edgar

Deixemos a restauração e avancemos em direção à famosa Rua do Benformoso. Enquanto vamos subindo a rua dos Cavaleiros, vamos contando as lojas desertas. «Esta abriu esta semana, aquela abriu há dois anos, esta há 15 dias, mas não se vê ninguém a comprar nestas lojas ou restaurantes. Não sei do que eles vivem. Esta é igual à outra mais abaixo, é melhor nem olhares lá para dentro, porque é tudo muito porcalhão. E vais ver agora aqui, na Rua do Terreirinho, onde nem sequer passam pessoas, mas tens aqui um restaurante que abriu agora, que até está fechado. Aquela loja também abriu há pouco. Ali à direita há uma mesquita, segundo me disseram. Repara que muitos dos que abriram agora, estão fechados», explica Edgar. Como é que justifica que se abram tantas lojas e restaurantes iguais, e que não têm quase clientes? «Sinceramente, não sei. Só consigo responder a uma coisa, estou aqui há 15 anos e estas lojas estavam quase todas devolutas. E sei que agora estão a abrir como cogumelos, principalmente no último ano. E quase sempre sem clientes. Nem sequer há mercado para isto. Quando se tem porta sim, porta sim, porta sim, sempre a mesma coisa, num espaço tão pequenino como este, onde ninguém vive, ou muito poucas pessoas vivem, melhor dizendo...».

Continuando no nosso percurso, Edgar começa a chamar uma paroquiana, gritando «ó menina» e imitando um gato de seguida. «Apresento-te aqui a menina mais linda à face da terra». «Maria Amélia, muito prazer», responde-me. «Vivo aqui há 76 anos, a minha idade». «Nasceste cá?», pergunta Edgar. «Nasci!». «És do tempo de Adão e Eva», brinca o padre. «Quase», responde Amélia.

Fazendo o papel de repórter, algo que estudou na universidade, Edgar questiona: «Houve muitas mudanças aqui, não houve?». «Então não houve? Já depois do senhor estar cá. Mas não foi para melhor, foi para pior. Agora não há respeito por ninguém. Mas temos que andar para a frente que é o caminho». Já não há aquela coisa do bairro? Vivem cá muito poucos? «Sim, uns mudaram-se, eu como não tenho possibilidades deixo-me estar na mesma casa. Fui batizada ali naquela igreja, fiz a primeira comunhão, o crisma, tudo naquela igreja. A minha filha foi viver para o Seixal. Por acaso, veio cá hoje visitar-me. Senhor padre, vou-lhe pedir um favor, já que o vejo. Reze pelo meu filho». «O seu filho está doente? Cirrose?». «Não, tem aqueles problemas que sabe». «Fica descansada». «E o dinheiro?». «Não, não tens que pagar missas. Se não tens dinheiro...».

Entramos na loja de venda de artigos de pele e de cortiça que outrora foi de revenda. Carteiras, casacos. Um cão responde ao miar de Edgar. «Estás uma fera», brinca o padre. Amélia entra na loja e faz um último pedido.

O dono da loja, Abreu José, está na loja «há 35, 36, 37, 38 anos, já não sei».

Vão muitos portugueses comprar os produtos da loja? «Poucos e turistas também já são poucos. Eles são muitos, mas não compram. Também já devem ter falta de trocos na carteira». «Já não vendemos a grosso porque as lojas diversificaram-se, fecharam. As nossas lojas portuguesas que vinham cá comprar, de facto, essas acabaram. Por exemplo, eu nas ilhas, Açores e Madeira, tinha uma rede de clientes que se abasteciam aqui, agora não há um. Isto piorou muito nos últimos dez anos».

Um cheiro a Bangladesh

Entramos na Rua do Benformoso, onde somos transportados para outro continente, tal o número de indostânicos, assim como o aspeto das lojas e dos passeios. Não faço ideia qual a razão, mas lembrei-me de uma das cenas do filme Era Uma vez na América, quando o personagem interpretado por De Niro, em criança, percorre ruas de Nova Iorque, onde os italianos ditavam leis. Ali a rua tem pouco espaço para o passeio, pois muitas lojas usam-no para colocar as suas caixas, os seus produtos, obrigando os transeuntes a andar pelo meio da estrada. Num talho, a carne da montra está tão ressequida que faz lembrar carne seca que os brasileiros usam na sua famosa feijoada. «Isto não é uma questão de racismo, nem de xenofobia. O que se trata aqui é um choque cultural que, de repente, num espaço tão curto de anos, de repente começas a perceber que aquilo que é, aquilo que sempre foi, de repente já não é. E estás votado ao nada. Quer dizer, estás órfão», desabafa Edgar.

«Olha ali as bandeiras da Palestina, olha ali uma das antigas moradoras. Olá menina! Tudo bem?», grita Edgar para a senhora que está à varanda. Com o menino Jesus, na varanda, a senhora grita: «É para eles saberem quem é o nosso Senhor». «Aqui ainda vivem algumas pessoas, mas são muito poucas. Vale muito a pena vir, por exemplo, na procissão da Senhora da Saúde que passa por aqui, em que tu vês claramente onde é que estão os portugueses que metem as suas colchas. Aqui há é muitas bandeiras da Palestina».

Enquanto caminhamos, vemos os homens a mascarem as tais especiarias que servem «como um género de pasta de dentes e que eles depois cospem contra as paredes ou portas».

 Antes de chegarmos à Rua do Benformoso, muitos falaram da história das violações, do consumo e venda de droga a céu aberto, dos candeeiros partidos ou da falta de higiene latente, apesar da junta de freguesia de Santa Maria Maior procurar alterar alguma coisa. Se é verdade que alguns dizem que não tem havido aumento de criminalidade, mas que o sentimento de insegurança cresce devido ao consumo de droga à frente de todos, um grupo de jovens, incluindo israelitas, moçambicanos, americanos, franceses ou alemães, entre outras nacionalidades, procura alterar a realidade do bairro, tendo criado um grupo de WhatsApp com cerca de 90 membros – no grupo Mais Força Mouraria, no Facebook, já há 800 membros. São também imigrantes, e optaram por comprar ou alugar casa na zona. Basicamente, procuram ser uma ponta com a junta de freguesia, a polícia e até a Igreja. Registam, em vídeo, os assaltos, as agressões, o tráfico, o consumo a céu aberto e a falta de higiene de parte dos novos habitantes. Além dos indostânicos, falam também de africanos, brasileiros e, claro, de portugueses ligados ao tráfico. «Quando havia um problema, ligávamos para a esquadra e ninguém aparecia. Agora, ligamos 10 ou mais pessoas, e a PSP acaba por vir. O trabalho do subintendente Tiago Mota tem sido excelente, dando-nos alguma esperança», diz o israelita que prefere não dizer o nome. Num ‘mundo’ onde não faltam bandeiras palestinianas, não deve ser fácil afirmar-se judeu, apesar do seu aspeto nada o indicar. O grupo quer limpar as ruas e procura autorização para plantar árvores. «Onde há luz e limpeza, os toxicodependentes desaparecem», acrescenta. Também por isso dizem que a limpeza deve ser uma aposta forte. A seu lado, o moçambicano, com origem belga, explica que o sentimento de insegurança faz com que tenha que ir buscar a namorada ao Metro, quando o sol já se pôs. Defendendo que a desordem alimenta desordem, diz «que a sociedade está um pouco fraca e doente. Um país que tinha muita honra e respeito por si próprio não deixava as coisas acontecer desta forma. É uma questão de vontade e de coordenação política», defende.