quinta-feira, 16 abr. 2026

Artur Vaz. “Os narcosubmarinos são uma grande ameaça”

As redes internacionais de tráfico de droga estão a mudar os métodos de transporte. Os narcosubmarinos já atravessam o Atlântico com cocaína, são praticamente invisíveis mas a PJ fez a maior apreensão de sempre, há poucas semanas, numa destas embarcações. A preocupação das autoridades é crescente.
Artur Vaz. “Os narcosubmarinos são uma grande ameaça”

Os narcosubmarinos, que na realidade são semissubmersíveis que navegam com a parte superior à tona de água, fazem parte de um modus operandi conhecido há mais de 20 anos na costa americana. «Até agora este método estava circunscrito àquela zona, para transportar droga (cocaína) entre a América do Sul central e os Estados Unidos. Para fazer viagens de alguns milhares de quilómetros mas não para atravessar um oceano», começa por explicar Artur Vaz, diretor da Unidade Nacional de Combate ao Tráfico de Estupefacientes da PJ.

São embarcações construídas em materiais que dificultam a sua deteção, como a fibra de vidro e a madeira, e tornam-se praticamente invisíveis no mar. Conseguem transportar quantidades de droga muito maiores do que outras embarcações, como os veleiros, e estão a deslocar-se para a Europa. «A primeira embarcação deste tipo de que temos registo – embora houvesse já algumas suspeitas anteriormente – foi detetada e apreendida no norte de Espanha, na Galiza, em novembro de 2019», avança Artur Vaz.

Este método de transporte de droga é «perigoso e audaz», avalia. «A aparente vantagem [para os traficantes] é o facto de este tipo de embarcações serem de muito difícil deteção. Não estamos a falar de submarinos, são embarcações que navegam à tona de água, mas a maior parte vem submersa, apesar de não terem capacidade para submergir».

«É necessário gente audaz para se meter numa empreitada destas. Para, no fundo, tripular uma embarcação deste tipo e atravessar o Atlântico, que é um mar que, muitas vezes, nos surpreende pela adversidade das condições», analisa o diretor da Unidade Nacional de Combate ao Tráfico de Estupefacientes da PJ. Aliás, foi em condições de grande adversidade climatérica que a Operação Adamastor foi concluída. Já lá vamos.

Desde 2019, passaram-se seis anos até voltarem a ser detetados e apreendidos semissubmersíveis, perto da costa ocidental da Europa, em 2025. «Tivemos alguns casos de avistamentos e, no ano passado, a PJ, em articulação com a Marinha e a Força Aérea, foi também capaz de detetar e intercetar duas embarcações deste género». 

Já em janeiro deste ano, a Operação Adamastor levou à apreensão da maior quantidade de cocaína e sempre, e acabou por chamar a atenção para o assunto. «A primeira embarcação, que foi apreendida na Galiza, trazia três toneladas de cocaína. A primeira do ano passado trazia seis toneladas e meia. Depois houve outra que trazia menos. A que foi detetada durante a Operação Adamastor transportava dez toneladas de droga. Foi um trabalho feito em colaboração com a Marinha e a Força Aérea, em condições de mar muito adversas. Nestes casos existe sempre esta articulação com as forças armadas, que são quem tem os meios para irmos até ao local».

Mais quantidade por transporte

Os ‘submarinos’ da droga, apesar de não serem embarcações muito grandes – podem ter entre 18 a 20 metros – conseguem transportar cargas muito maiores do que outro tipo de navios. «A ameaça, perante nós, tem vindo a aumentar devido às quantidades. E, nesse aspeto, estes narcosubmarinos são uma grande ameaça. Aqui há uns anos, num veleiro, eram apreendidos 200, 300, 400 quilos. Agora é às toneladas. Nos contentores a mesma coisa. Há muito mais droga, muito mais consumo. As redes criminosas também arriscam muito mais e tentam sempre, numa carga, meter o máximo possível porque, se passar, vai render-lhes muito mais».

No semissubmersível apanhado durante a Operação Adamastor viajavam quatro tripulantes. «O grosso dos compartimentos é para transporte de droga e de combustível para o motor. Resta uma pequena parte para as pessoas permanecerem. Há uma ponte de comando, como em todas as embarcações, e umas escotilhas para o exterior». 

Apesar da aparência rudimentar, os semissubmersíveis têm, naturalmente, motor e instrumentos de navegação. «Não atravessam o Atlântico a olhar para as estrelas. Estas são embarcações que são construídas por pessoas que, eu diria, não sei se são engenheiros, mas têm capacidade e conhecimentos».

Normalmente, a droga não chega a terra. É em alto mar que outras embarcações, «de todos os tipos, desde lanchas de alta velocidade, veleiros, a barcos de pesca» fazem o transbordo da carga e a trazem para terra.

A TVI noticiou que, além do semissubmersível ‘caçado’ pelas autoridades, com 10 toneladas de droga a bordo, haveria outro que não foi apanhado. Artur Vaz não confirma nem desmente. «Repare uma coisa: a nossa ação incidiu sobre aquela embarcação em concreto. Não lhe posso estar a dizer se houve mais ou se houve menos. O que é certo é que nós detetámos aquela. Há a possibilidade de que possa ter havido outra, mas é uma mera possibilidade», afirma Vaz. «Não sei de onde é que veio essa notícia. Admitimos que possa ter havido outra embarcação», acaba por aceder. «Uma coisa é certa: as autoridades portuguesas, a PJ, vão a todas».

A droga seria propriedade do Primeiro Comando da Capital (PCC), a maior e mais conhecida organização criminosa brasileira. Esta é outra informação que, pelo menos por enquanto, não é confirmada pela PJ. «Só falamos com base em evidências. Não podemos estar a associar, por uma mera suspeita, ou porque parece, a droga a um determinado grupo. As coisas têm de ser objetivas. Em relação ao PCC fazem-se muitas observações que nós desconhecemos em que é que estão baseadas».

"Não conseguimos apreender toda a droga"

Artur Vaz dá conta de que há uma panóplia de organizações criminosas a trabalhar no negócio da droga, naquela que é uma das rotas da cocaína, entre a América do Sul e a Europa. «Há uma multiplicidade de grupos a fazer este trabalho. Há um elevado número de organizações criminosas que se dedicam à prática de vários ilícitos na Europa, mas o número mais significativo trabalha na área do tráfico de droga».

Estes grupos, tal como o PCC, são multinacionais. «Têm pessoas daqui, dali… E mudam consoante as circunstâncias. São organizações muito dinâmicas que agem consoante as oportunidades e as necessidades. Podem ser brasileiros, colombianos, há um ou outro português, espanhóis, marroquinos, neerlandeses… Depois, estão implantadas e têm ligações a vários países».

Nas rotas da cocaína atuam, ainda, organizações do Leste da Europa. «Infelizmente, há outros grupos, por exemplo albaneses. Grupos dos Balcãs que também sempre foram muito ativos no tráfico de cocaína, nas rotas da cocaína», explica Artur Vaz. «É um negócio ilícito que atrai muito os grupos criminosos porque é muito rentável. Não tenho bem um número presente, mas com base em relatórios oficiais, que incluem a Europol – ou seja, dados com base científica – do total de cinco mil e tal organizações que foram consideradas, por diversos fatores, as mais ameaçadoras, as mais fortes, dessas, mais de 30% estavam envolvidas no tráfico de droga. O motivo é o dinheiro fácil que as pessoas procuram quando se envolvem neste tipo de atividades».

Além dos transportes em semissubmersíveis a droga continua a ser introduzida na Europa pelos outros métodos já conhecidos. «O fluxo de droga é muito grande e as redes de tráfico continuam a utilizar a via aérea, os correios, contentores, veleiros e todo o tipo de embarcações, muitas vezes com a droga escondida no casco. Noutros casos, a droga vem em contentores e, em determinado ponto, deitam a droga ao mar e vão outros barcos recolher», revela Artur Vaz.

Os semissubmersíveis são um método relativamente recente no transporte transatlântico e que surge à medida que as autoridades vão fazendo cada vez mais apreensões, nos outros meios de transporte habituais. «Estas organizações estão em constante adaptação e vão, no fundo, tentando construir novas soluções quando têm dificuldades. Na perspetiva deles, para terem êxito, não podem, como é evidente, ser detetados». Apesar de tudo, Artur Vaz assume que nem sempre esse sucesso está do lado das autoridades. «Claramente, temos de assumir que não conseguimos apreender toda a droga. Temos de ser honestos. E estes chamados narcosubmarinos são uma grande ameaça».

Das grandes quantidades à rua

Quando a droga que escapa às autoridades chega aos consumidores, vendida ao grama ou à quarta, já houve um longo processo de distribuição. «As organizações que estão por detrás destes transportes têm vários clientes, ou seja, distribuem por outras sub-redes, que têm outros clientes, outros traficantes… Imagine que vêm sete, oito, nove toneladas; podem ter dois ou três clientes em Espanha. Isto é quase como uma rede de distribuição», explica o Diretor da Unidade Nacional de Combate ao Tráfico de Estupefacientes, da PJ. E prossegue: «Mandam 500 kg para aqui, mil para ali. Esses distribuem por outros e por aí adiante. São cadeias de distribuição em que todos vão ganhando a sua comissão, pelo meio». 

Cabe às autoridades «evitar e combater estes grandes transportes de droga. Temos, também, de combater aquilo que é a distribuição interna, dentro do país, e depois prevenir e combater a distribuição local aos consumidores, nos locais de consumo». 

Para este efeito existe uma articulação entre a PJ e outros órgãos de polícia criminal, como a PSP e a GNR. Estes últimos «têm atuado, e devem atuar mais, naquilo que é o tráfico de rua. Têm um papel muito importante na prevenção e na vigilância em locais conotados com o tráfico e com o consumo de droga».

Outras entidades, como as alfândegas, também contribuem para este processo de combate ao tráfico. «As alfândegas têm um papel muito importante nos portos e nos aeroportos. Têm tido um papel muito relevante naquilo que é a deteção e apreensão de muita droga que chega às fronteiras portuguesas, através de contentores, ou por via aérea». 

Até empresas privadas de transportes chegam a colaborar com as autoridades. «Por qualquer motivo ou outro, estas empresas são utilizadas, porque muitas vezes as organizações criminosas parasitam as linhas de transporte aéreo e marítimo. Há empresas que são sérias, não querem ser conotadas com isto. Este trabalho tem vindo a desenvolver-se, na Europa, de forma cada vez mais intensa com entidades privadas».

Em janeiro, aquando da Operação Adamastor, a Europol partilhou um relatório dando conta de que os portos de Hamburgo, Antuérpia e Roterdão, antes muito procurados pelos traficantes, estão a ser substituídos pelos novos métodos de tráfico, como o transporte nos semissubmersíveis. A Operação Adamastor deu origem àquela que «será a maior apreensão jamais efetuada» de cocaína em Portugal, segundo a mesma entidade europeia. Mas para Artur Vaz o trabalho nunca está completo ou perfeito. «Enquanto houver consumidores e houver tráfico não podemos estar satisfeitos», conclui.