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O ar em Portugal ficou mais poluído em 2025 do que em anos anteriores. É o que confirma o Relatório Mundial da Qualidade do Ar de 2025, divulgado a 24 de Março de 2026 pela IQAir, empresa suíça de referência mundial na monitorização da qualidade do ar. A concentração média anual de partículas finas PM2.5 registada no país subiu para 7,9 microgramas por metro cúbico, quando em 2023 estava nos 6,8. No ranking dos países mais poluídos da IQAir, Portugal ocupa a 114.ª posição num total de 143 países, regiões e territórios analisados, o que significa que 113 países têm o ar mais poluído que o português. A posição relativa é favorável à escala global, mas esconde um agravamento real que os números de PM2.5 tornam inequívoco.
O relatório, que analisou dados de 9 446 cidades em mais de 40 000 estações de monitorização espalhadas pelo mundo, chegou ao mercado com uma conclusão de alarme: apenas 14% das cidades do mundo cumprem as directrizes anuais da OMS para PM2.5, valor que caiu em relação aos 17% do relatório anterior, e apenas 13 países e territórios registaram concentrações médias abaixo dos cinco microgramas por metro cúbico recomendados pela Organização Mundial de Saúde. IQAir Na Europa, apenas Andorra, a Estónia e a Islândia integram este grupo. Portugal fica de fora.
A cidade que ninguém esperava no topo da lista
Das 35 cidades e localidades portuguesas incluídas no ranking de cidades da IQAir, a mais poluída não é uma grande metrópole nem uma zona industrial de peso. Valongo encabeça a lista nacional com uma concentração média anual de 13,8 microgramas de PM2.5, seguida de Lousã com 12,5, Vila Baleira com 11,3, Canidelo com 10,8, Nazaré com 10,6 e Gondomar com 10,3. Faro aparece como a cidade portuguesa com o ar mais limpo, com uma média de apenas 2,7 microgramas por metro cúbico. IQAir
Valongo tem cerca de cem mil habitantes na Área Metropolitana do Porto e não se destaca pela presença de grandes unidades industriais. O valor que regista, quase três vezes acima do limite recomendado pela OMS, resulta de uma conjugação de factores: tráfego intenso nas vias de acesso ao Porto, queima doméstica de biomassa nos meses frios e uma orografia que favorece a acumulação de partículas em suspensão nas épocas mais críticas. Todas as cidades no topo da lista nacional ultrapassam os cinco microgramas recomendados pela OMS, e o resultado coloca uma questão directa às autarquias e ao Estado sobre o que está a ser feito para inverter a tendência.
Porque é que o ar ficou pior
A degradação registada em Portugal não é um caso isolado. Em 2025, os incêndios florestais, intensificados pelas alterações climáticas, desempenharam um papel determinante na deterioração da qualidade do ar em várias regiões do mundo, com emissões recordes de biomassa na Europa e no Canadá a contribuírem para aproximadamente 1 380 megatoneladas de carbono.
Na Europa, 23 países registaram aumentos nas concentrações médias anuais de PM2.5 em 2025, enquanto 18 registaram descidas. A Suíça e a Grécia viram os seus valores subir mais de 30% devido ao fumo transfronteiriço dos incêndios e à poeira do Saara proveniente de África. Malta registou a maior descida, de quase 24%, após a transição de combustíveis pesados para energias renováveis.
Portugal partilha com a Suíça e a Grécia a vulnerabilidade à poeira sahariana, que entra pela costa atlântica e afecta de forma significativa as concentrações de PM2.5, sobretudo no sul do país. A isso acresce a queima sazonal que os incêndios de verão impõem às regiões do interior e do litoral norte, precisamente onde se concentram as cidades mais afectadas do ranking nacional.
O que é o PM2.5 e porque importa
O PM2.5 designa partículas com menos de 2,5 micrómetros de diâmetro, invisíveis a olho nu e suficientemente pequenas para penetrar nos pulmões e entrar na corrente sanguínea. A exposição crónica está associada a cancro do pulmão, doenças cardiovasculares, AVC e morte prematura. A OMS fixou o limite anual recomendado em cinco microgramas por metro cúbico. A União Europeia ainda admite até 25, mas está a rever essa directiva no âmbito do Pacto Ecológico Europeu.
Os piores e os melhores do mundo
Os cinco países mais poluídos do mundo em 2025 foram o Paquistão com 67,3 µg/m³, o Bangladesh com 66,1 µg/m³, o Tajiquistão com 57,3 µg/m³, o Chade com 53,6 µg/m³ e a República Democrática do Congo com 50,2 µg/m³. A cidade mais poluída do mundo foi Loni, na Índia, com uma concentração anual média de 112,5 µg/m³, um valor mais de 22 vezes acima do limite recomendado pela OMS. No extremo oposto, Nieuwoudtville, na África do Sul, registou o ar mais limpo do planeta, com uma média de apenas 1,0 micrograma por metro cúbico.
Monitorização a enfraquecer quando mais se precisa
Outro sinal preocupante no relatório desta semana é a erosão das redes de monitorização. Em Março de 2025, a administração Trump encerrou o programa global de monitorização da qualidade do ar nas embaixadas e consulados do Departamento de Estado norte-americano, deixando milhões de pessoas sem acesso a dados. O Centro de Investigação sobre Energia e Ar Limpo reportou que os esforços de monitorização foram enfraquecidos em 44 países e que seis ficaram completamente sem qualquer sistema de controlo.
O director executivo da IQAir, Frank Hammes, sublinhou que "a qualidade do ar é um activo frágil que exige gestão activa para proteger a saúde pública" e que "sem monitorização não podemos compreender plenamente o que está no ar que respiramos".
Em Portugal, a rede de monitorização da Agência Portuguesa do Ambiente permanece activa mas com cobertura irregular no interior. Os dados da IQAir representam por isso um complemento relevante, e os resultados de 2025 mostram que o problema não está onde muita gente suporia.