quinta-feira, 05 mar. 2026

APAV bate recorde: mais de 18 mil vítimas apoiadas num ano, a maioria por violência doméstica

A associação destaca também o crescimento expressivo de outros crimes, como discriminação e incitamento ao ódio, que aumentaram 87% face a 2024, burlas e crimes sexuais contra crianças e jovens.
APAV bate recorde: mais de 18 mil vítimas apoiadas num ano, a maioria por violência doméstica

O número de pessoas acompanhadas pela Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) tem vindo a crescer de forma consistente desde 2020, registando um aumento acumulado de quase 42% em seis anos. Em 2025, a instituição apoiou 18.549 vítimas, o valor mais elevado do período analisado.

Os dados, divulgados a propósito do Dia Europeu da Vítima de Crime, assinalado a 22 de fevereiro, revelam uma subida progressiva: de 13.093 pessoas apoiadas em 2020 para mais de 16 mil em 2024, culminando num crescimento de 11,5% no último ano.

Segundo a APAV, esta evolução reflete tanto a maior abrangência dos seus serviços como o aumento de determinadas formas de criminalidade, com destaque para a violência doméstica. Em 2025, este crime representou 73,9% do total registado, correspondendo a 26.124 denúncias num universo de 35.341 ocorrências — mais 13,1% do que no ano anterior.

Em declarações à agência Lusa, Carla Ferreira, assessora técnica da direção da associação, sublinhou que a violência doméstica continua a ser o fenómeno dominante, concentrando cerca de três em cada quatro vítimas apoiadas. Ainda assim, destacou o crescimento expressivo de outros crimes, como discriminação e incitamento ao ódio, que aumentaram 87% face a 2024, burlas (mais 48%) e crimes sexuais contra crianças e jovens (mais 25%).

O retrato traçado pela APAV mostra que a maioria das vítimas são mulheres (75,5%), com idade média de 37 anos. Entre as mulheres adultas, a média sobe para 45 anos, sendo a violência doméstica responsável por 85,8% dos casos, muitas vezes cometidos por cônjuges ou ex-companheiros. Só neste grupo, foram apoiadas mais de 10 mil mulheres, o equivalente a 28 por dia.

Entre os idosos acompanhados — 2.017 em 2025 — predomina igualmente o sexo feminino, com média de 76 anos, sendo os filhos ou o cônjuge os principais agressores. Já nas crianças e jovens, com idade média de 10 anos, mais de metade são raparigas, vítimas sobretudo de violência doméstica e, em parte significativa, de produção de conteúdos de abuso sexual.

Nos homens adultos, com média de 48 anos, a violência doméstica também lidera as ocorrências, representando 65,5% dos casos, com uma média de seis atendimentos diários.

A responsável alerta ainda para a crescente dimensão do crime em ambiente digital, salientando o aumento de situações de perseguição, ameaça e coação, muitas delas praticadas online. Desde 2019, a APAV gere a linha Internet Segura, através da qual chegam numerosos pedidos de ajuda relacionados com burlas e violência sexual em contexto digital.

Apesar de considerar que Portugal dispõe de um quadro legal robusto no combate a várias tipologias criminais, Carla Ferreira defende que subsistem desafios na aplicação prática das medidas de proteção e no acesso equitativo ao apoio por parte de todas as vítimas.

A associação recorda que, embora a violência doméstica concentre grande parte das respostas institucionais, existem outras vítimas que permanecem menos visíveis. O essencial, sublinha, não é apenas a natureza do crime, mas o impacto profundo que este provoca na vida de quem o sofre.

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