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Os amigos descrevem-no como uma pessoa generosa. Sempre pronta a ensinar e aprender. Um homem bom, no «verdadeiro sentido da palavra». Foi um autodidata e começou a sua carreira muito novo. Talvez tenha sido por isso que rapidamente se tornou um dos melhores no país. Abraçava a guitarra portuguesa como ninguém e, mesmo depois de dar o seu último concerto – em fevereiro de 2024 –, garantiu que nunca a ia largar. O músico e compositor português, António Chainho morreu no dia 27 de janeiro, aos 88 anos, na sua residência em Alfragide, nos arredores de Lisboa. O falecimento aconteceu precisamente no dia em que celebrava o seu aniversário.
Um bom colega e amigo
«Conheci o António Chainho há cerca de 55 anos, mais coisa menos coisa, em São Francisco da Serra», diz à VERSA o também guitarrista Carlos Soares da Silva. «O pai, o Ti Jorge, tinha uma taberna onde, com muita frequência, se cantava e tocava, principalmente fado. Um amigo meu, o Xico Aragão, que tocava guitarra portuguesa, levava-me com frequência para tocar por lá. Algumas vezes o Chainho estava e tocámos juntos muitas vezes, por entre petiscos e cantorias», lembra.
Segundo o músico, foi numa dessas petiscadas, há cerca de 25 anos, desta vez no café da Bia, a irmã, que surgiu o convite para o acompanhar em digressões pelo estrangeiro, já que em Portugal o Fernando Alvim era o viola «oficial». «Por problemas de saúde do Fernando, comecei a acompanhá-lo nas deslocações longas: Índia, Indonésia, Sri Lanka, China, Coreia do Sul, entre muitas outras», conta, revelando que em Nova Deli chegaram a ser raptados. «Vimos o caso mal parado. Felizmente, depois de uma noite passada num hotel no meio do mato, voltaram a levar-nos ao aeroporto e tudo acabou bem», brinca. «Além de um músico de excelência, o António era um senhor. Amigo do seu amigo como poucos. Ajudava sempre que necessário. Estava sempre a partilhar os seus conhecimentos. Nunca guardava ou escondia nada. Um homem bom na verdadeira aceção da palavra», garante Carlos Soares da Silva, acrescentando que o que mais o diferenciava era o facto deste ter dito de aprender quase sem recursos. «Não havia gravadores; o pai tocava qualquer coisa, mas não a nível profissional, portanto o António teve de se esforçar muito mais», afirma. «A técnica era ouvir uma variação ou um fado no rádio, memorizar um bocadinho e esperar que voltasse a passar para aprender mais um bocado, sempre de ‘olho no rádio’», detalha o amigo. «Do Chainho fica a sua obra em disco e DVD, as escolas que fundou em Lisboa e Santiago do Cacém, a sua generosidade e a sua grandeza. Tudo aquilo por que ele viveu continua. Seria injusto dizer que fica um vazio, porque ele deixou muito para o preencher», acredita.
Da terra natal para a capital
Mas onde tudo começou? António Chainho nasceu a 27 de janeiro de 1938, em São Francisco da Serra, no concelho de Santiago do Cacém, distrito de Setúbal. O seu pai era guitarrista amador e, aos seis anos, António começou a tocar guitarra. Como o braço do instrumento era demasiado grande para o seu corpo, deitava-o no colo, explorando formas de manuseá-lo. Rapidamente se tornou melhor do que ele, apesar de ter aprendido quase tudo sozinho. Foi a ouvir as suas grandes inspirações na Emissora Nacional que desenvolveu a técnica. Tentava reproduzir os sons já que era «muito bom de ouvido». Das suas referências faziam parte o Armandinho, o Jaime Santos, Raul Nery, José Nunes e Francisco Carvalhinho. E chegou a ter um desgosto com eles quando chegou a Lisboa pela primeira vez. «Quando cheguei a Lisboa e quis conhecer esses grandes guitarristas, fui insultado, mas mesmo insultado. Estreei-me na Severa. Certo dia, sabendo que o admirava muito, o gerente da casa sentou-me à mesma mesa com o Francisco Carvalhinho, que me voltou as costas. Mesmo quando estava a tocar, virava-se de lado para que eu não visse os movimentos. Chegou a dizer ao gerente: ‘Não tem nada que vir para aqui aprender’. Não liguei muito. Saí. É curioso que depois gravei com ele», contou à Sábado em 2021.
Apesar de ter um grande amor pela sua terra, depois de regressar de Moçambique – onde fez o serviço militar e onde atuou pela primeira vez na Rádio Clube da Beira – decidiu fixar-se na capital onde já tinha passado dois meses antes de viajar para África. «Servi tropa em Beja e depois vim para Lisboa tirar a especialidade. Na altura, eu tinha uma guitarra que era o grande divertimento da Companhia. Certo dia, um primo levou-me a um café que havia ali para os lados da avenida Almirante Reis, onde estava o filho do Alfredo Marceneiro e outros fadistas muito conhecidos... era uma espécie de casa de fado vadio que estava sempre cheia. A dada altura pediram para o magala pegar na guitarra. Ninguém me conhecia. Toquei... e andaram comigo aos ombros», disse na mesma conversa. Segundo o guitarrista, primeiro foi mobilizado para Angola, mas trataram de assassinar o governador do distrito de Cabo Delgado e, de repente, lá foi parar a Moçambique, à Beira. «Levei a guitarra na bagagem, mas chegou lá toda desfeita devido às baixas temperaturas no porão do avião. A própria Companhia, através do meu comandante, mandou vir de Lourenço Marques uma guitarra nova. Chamaram-me logo, mal souberam que tinha chegado um rapaz que tocava guitarra. O tenor Carlos Guilherme era então o ‘rei da rádio’», lembrou.
Uma semana depois de ter chegado a Lisboa fez o seu primeiro programa de televisão, começando a ser conhecido no meio do fado. Tal como explicou à mesma publicação, seguiram-se as atuações, já profissionais, em casas de fado e restaurantes típicos, como o restaurante A Severa, no Bairro Alto, marcando aí o início oficial da sua carreira artística. Era elogiado pela sua clareza do toque, o sentido melódico e o enorme respeito que tinha pela tradição da guitarra portuguesa. «Estive em Moçambique entre 61 e 63. A guerra rebentou seis meses depois de eu sair de lá. Cheguei a Lisboa em 1965, depois de ter permanecido mais de um ano na minha aldeia. Vários amigos que se correspondiam comigo não descansaram enquanto não me levaram para Lisboa. E até se ofereceram para fazer um programa de fados e guitarradas na sociedade de São Francisco da Serra», explicou ainda António Chainho.
Foi nos anos 70 que começou a destacar-se não só como acompanhante, mas como guitarrista solista e compositor, ajudando a afirmar a guitarra portuguesa como instrumento autónomo, o que não era comum à época. Levou o seu som a várias partes do mundo e sempre se preocupou com o seu futuro ( temia que o instrumento pudesse perder relevância caso não existisse formação para novos instrumentistas). Por isso, mais tarde, veio a tornar-se um grande pedagogo, apesar de não o ser de uma forma tradicional. António gostava de ensinar. E os amigos e colegas confirmam-no.
Carla Chainho, prima do mestre, lembra-o como uma pessoa muito afável, cordial, amigo do seu amigo e bom conselheiro. «O que mais me agradava nele talvez fosse a sua maneira de ser, de encarar a vida com uma certa leveza, mas consciente da sua complexidade, adorava viver e inclusivamente era uma pessoa que tinha cuidado com a alimentação e não era de excessos», confidencia à VERSA. «Durante a sua infância contactou bastante com o meu pai que era seu primo em primeiro grau. Frequentava a casa da minha avó Lucília que morava em São Francisco da Serra e foi na casa da minha avó que me ouviu cantar pela primeira vez era eu ainda adolescente», recorda a familiar. «Disse inclusivamente que para além da voz eu tinha ‘ouvido’ para a música. Incentivou-me sempre a estudar porque a vida da artista não era/é fácil», acrescenta. Alguns anos mais tarde contactou-a via telefone, para saber se Carla tinha disponibilidade para participar num concerto solidário no AMAC, o que para si «foi uma honra e uma excelente surpresa». Chegou a participar em dois concertos solidários. «Sempre gostei muito de fado, algo que me foi incutido sobretudo pelo meu pai, mas nunca quis ser artista. No entanto, tive o privilégio de ser acompanhada à guitarra Portuguesa pelo meu primo, e sinto-me honrada e grata por isso. Para mim é um orgulho ter na família um artista conhecido a nível nacional e internacional e ao mesmo tempo ter consciência de que era uma pessoa simples, de fácil trato e genuíno», remata.
Já Vítor Proença – ex-presidente das câmaras de Santiago do Cacém e Alcácer do Sal –, conheceu-o em 1997. «E foi logo desconcertante pois atuou, num sábado à noite, na Biblioteca de Santiago do Cacém, apinhada de pessoas. Ele arrepiou-as. Atingiu o máximo quando tocou umas variações em homenagem a um dos seus inspiradores, Jaime Santos», lembra o amigo, dizendo que já o conhecia musicalmente há algum tempo, em particular a acompanhar Carlos do Carmo. Depois, acabou por privar várias vezes com o músico, conhecia as suas irmãs, as sobrinhas, e a sua companheira. «Guardo eternamente um passeio que demos, em companhia do advogado Modesto Pereira e de sua esposa, Natalina Pereira, à ilha do Farol, num Agosto de 2016. Embarcámos juntos, em Faro, num táxi marítimo e desfrutámos um dia de convívio e amizade maravilhosos», revela-nos. «Lembro-me de tantos momentos, um deles no CCB quando estávamos com a Maria da Fé e ele disse: ‘Podes medir e avaliar um bom fadista quando entendes todas as palavras e ele, ou ela, te faz arrepiar’», continua, acrescentando que certa vez, o músico descreveu-lhe a sua presença no estádio Maracanã, no Brasil, onde atuou como convidado da Maria Bethânia. «Ali estavam cerca de 200 mil pessoas. Ele foi uma referência junto dos maiores guitarristas e músicos de todo o Mundo», frisa. «Foi sob minha presidência na Câmara de Santiago do Cacém, que o Município atribuiu o nome de António Chainho ao Auditório Municipal. E o mesmo com a atribuição do seu nome à Escola da Guitarra Portuguesa», lembra ainda.
Segundo o mesmo, António Chainho tinha um «dom» e uma «alma especial» quando se abraçava à sua guitarra portuguesa e «quase a fazia falar». «Mas tinha, igualmente, muitas horas diárias de ensaio, sempre treinando os seus dedos e mãos milagrosas», garante. «Que a sua memória e o foco que ele procurou num instrumento tão português, perdure», deseja.
A vontade de fazer diferente
Apesar de ter raízes profundas no fado, António Chainho foi um verdadeiro explorador musical. Misturou fado com jazz, música clássica, flamenco e até sons do mundo, algo considerado ousado para a época. Além disso, realizou colaborações com artistas improváveis - como Gal Costa, Maria Bethânia. Bernardo Sassetti, Mário Laginha, Carlos Barreto, Alexandre Frazão e Janita Salomé -, mostrando que a guitarra portuguesa podia dialogar com tudo. Do fado colaborou com artistas como Carlos do Carmo, Hermínia Silva, Lucília do Carmo, Maria Teresa de Noronha, José Afonso, Paulo de Carvalho e Marta Pereira da Costa.
«O Mestre era uma pessoa muito especial que guardarei sempre com muito carinho. Partilhámos várias vezes o palco, passámos muitas tardes e manhãs a tocar juntos em sua casa, em Alfragide. Aprendi muitas das suas guitarradas, ensaiámos tocá-las a vozes, observava-o atenta… Admirava a facilidade com que tocava e usava o polegar da mão direita. Parecia fácil, mas depois tentava repetir e era muito confuso. E repetia e insistia até finalmente entender o que parecia fácil e tão natural para o mestre», conta à VERSA Marta Pereira da Costa, recordando que foram mais de 60 anos dedicado ao instrumento. «Grandes vozes do Fado, como Carlos do Carmo, Maria Teresa de Noronha ou Hermínia Silva foram acompanhadas à sua guitarra, e depois decidiu, com coragem, dar-lhe voz e seguir uma carreira a solo. Atuou nos mais diversos palcos pelos quatro cantos do mundo. Fez uma carreira admirável onde levou e elevou o nome de Portugal no mundo com a sua e nossa guitarra portuguesa», diz a guitarrista. «Em Portugal criou escola e partilhou o seu conhecimento com os seus alunos. Eu tinha por ele uma enorme admiração e carinho. Sabia que os momentos em que tocámos juntos eram preciosos, assim como todas as aprendizagens. Vou sentir tanta falta... Ouvirei os seus discos e tocarei os seus temas. Procurarei continuar a seguir os seus passos levando a guitarra para o mundo. Obrigada querido Mestre por tudo o que fez pela nossa guitarra portuguesa», agradeceu ainda.