Como tem sido a sua nova ‘obra’ à frente do Museu do Aljube, Resistência e Liberdade? O que pensa fazer diferente?
Foi com enorme entusiasmo que encarei o desafio lançado pelo Conselho de Administração da Egeac - Lisboa Cultura. Em qualquer novo trabalho, o primeiro momento é de avaliação do que está feito, para se perceber bem o que é necessário fazer. Num segundo momento, precisamos projetar objetivos e atividades. E lidar com os inúmeros projetos e solicitações que chegam ao Museu, nacionais e internacionais, pedidos de apoios e parcerias, pedidos de informação, muitas demonstrações da importância que este Museu tem.
Há muitos jovens a visitar o museu?
O nosso público é constituído maioritariamente por visitantes entre os 35 e os 50 anos, mas temos um número bastante significado de jovens, quer em grupos, quer em visitas individuais, que representam mais de 20% do total dos visitantes.
A sua passagem pelo Gabinete de Estudos Olisiponenses, onde coordenou trabalhos sobre a escravatura, terá tido influência na sua nomeação. A sua ligação à Maçonaria tem sido útil ao novo desafio?
A Maçonaria é-me sempre útil, na medida dos referenciais éticos e dos valores humanistas que me ajudou a construir. Aqui no Aljube, encontrei alguns nomes de maçons que reconheci, lutadores pela Liberdade.
O Gabinete de Estudos Olisiponenses (GEO) foi uma passagem muito importante no meu percurso, quer pelo trabalho desenvolvido, quer pelas relações de trabalho e pessoais que construi. O GEO tem um quadro excecional de funcionários.
Curiosamente, sabe muito sobre cemitérios, pois estudou o fenómeno a fundo. Como se sente quando entra no museu, onde tantos foram torturados?
Onde foram torturados por terem coragem de lutar por ideais. E o Museu presta homenagem a essa coragem, recuperando a sua memória e o seu exemplo.
Como reage às críticas de que o museu pode ter uma visão deturpada da oposição ao Estado Novo?
O trabalho sobre as heranças difíceis não é fácil. Falamos de tempos de opressão, de violência, de traumas muitos e profundos. A narrativa do Museu assenta em trabalho científico, desenvolvido por especialistas e de antigos presos políticos e a sua missão é resgatar as memórias e homenagear a oposição e resistência ao Estado Novo. Todas as críticas são aceites, na medida em que possam melhorar o que é feito, pelo que quem tenha algo a dizer pode fazer chegar as suas contribuições.
No dia 27 de junho vão percorrer as ruas de Lisboa, baseando-se na exposição temporária que teve o sugestivo título, ‘Adeus, Pátria e Família’. Segundo a própria promoção, a exposição versa sobre como a «geografia de Lisboa revela a história e memória LGBTQIA+». Na época, não havia esse tipo de movimentos e os homossexuais não eram bem aceites pelo Estado Novo nem pelo Partido Comunista. Isso estará retratado?
Essa foi uma exposição que esteve patente de 28 de junho de 2022 a 29 de janeiro de 2023. Não tive oportunidade de a ver, mas presumo que os responsáveis pela exposição fizeram uma investigação aprofundada e a espelharam nos conteúdos que mostraram.
Acha que uma exposição sobre os Gulag ou sobre Auschwitz terá espaço no museu?
A temática do Museu prende-se com a realidade portuguesa, pelo que não faz sentido ter uma exposição cujo tema seja Gulag ou Auschwitz, o que não invalida que sejam abordados no desenvolvimento de outras exposições.
Haverá espaço também para uma exposição sobre o período pós-colonial nas antigas colónias?
Todos os temas relevantes podem e devem ser tratados, e uma exposição sobre esse período é pertinente, até porque os países africanos que foram ex-colónias portuguesas estão a desenvolver estudos muito interessantes sobre esse período.
O Papa Leão XIV escreveu a Carta Encíclica Magnifica Humanistas, mostrando a sua preocupação com a Inteligência Artificial. Subscreve as preocupações do Papa?
Concordo com as preocupações do Papa, muito embora reconheça os enormes benefícios que a IA traz à Humanidade. No entanto, como ele, considero as preocupações éticas como fundamentais no desenvolvimento de todas as ferramentas.
É a favor de os menores de 16 anos não terem acesso a redes sociais?
É um assunto que me divide. Por um lado, os jovens até aos 16 anos não têm, na sua maioria, sentido crítico que lhes permita perceber as fronteiras distintas entre realidade e fantasia, verdade e mentira e perceber a manipulação. Por outro lado, as proibições podem ser contraproducentes.
De África só conhece Cabo Verde. Vibrou com o empate deste país frente à Espanha? Ou é alérgica a futebol?
Claro que fiquei contente. É um país lusófono, partilhamos muitas caraterísticas e falamos a mesma língua. E tenho alguns amigos de Cabo Verde.
O que pensa de Ronaldo ser titular na seleção?
O Ronaldo deve, sim, estar na seleção como titular. E jogar, se jogar bem. Se não, deve ser substituído.