segunda-feira, 09 mar. 2026

Ana Abrunhosa: ‘Vamos ter muito trabalho pela frente nos próximos dois anos’

A presidente da Câmara de Coimbra diz que a resposta articulada às cheias permitiu 'evitar o pior'e 'salvar vidas'. E aponta as prioridades: apoios rápidos, nomeadamente para os agricultores, e recuperação de infraestruturas essenciais. Quanto ao confronto com o ministro da Agricultura, diz que é assunto do passado: 'Somos humanos'.
Ana Abrunhosa: ‘Vamos ter muito trabalho pela frente nos próximos dois anos’

Coimbra foi uma das zonas mais afetadas pelas cheias. Olhando para trás, acha que poderia ter evitado alguma coisa? Que balanço faz?               

Em primeiro lugar, quero solidarizar-me com outras regiões que foram muito afetadas, como Leiria, Pombal, Marinha Grande e Ferreira do Zêzere. Coimbra foi afetada pela tempestade Kristin, mas depois foi muito mais afetada pelas cheias e pelas inundações. Trabalhámos de forma muito articulada com a proteção civil no âmbito municipal e sub-regional e de forma permanente com o Governo. Tivemos eventos extremos da natureza, chuvas completamente anormais. Aliás, o presidente da APA referiu várias vezes que em dois dias tivemos chuva correspondente a 20% de um ano. Dentro de todo o panorama do que poderia ter acontecido estou muito confortável com a atuação que todos tiveram.

 

Houve uma resposta articulada...

Sim e com todas as entidades que são fundamentais e que, muitas vezes, são invisíveis, como a Segurança Social, Cruz Vermelha, INEM, Saúde, Polícia, GNR e Polícia Municipal. Uma articulação que permitiu o planeamento e a antecipação de muitas coisas, sobretudo porque previmos o pior e preparámo-nos para o pior e creio que salvámos vidas. Essa é a nossa obrigação, nomeadamente a opção do corte da A1 de forma imediata. Caso contrário, teria, infelizmente, havido fatalidades. Não só com o corte da A1, mas também na questão de proibir a circulação de pessoas nas zonas das cheias. Infelizmente, tivemos a morte de um casal que se pôs à estrada em condições pouco seguras e que se desorientou. Fizemos avisos reiteradamente para as pessoas evitarem estas situações e tivemos de pedir às pessoas para saírem de casa porque considerámos que não era seguro ficarem em casa. Um alerta que foi feito numa perspetiva do que veio a acontecer, que foi o de rebentamento do dique, não sabíamos qual seria o comportamento e se iria rebentar num sítio, ou se iria rebentar em dois ou três. Infelizmente, rebentou, mas tivemos a sorte de ter rebentado para o lado direito, em que não atingiu populações, mas atingiu agricultores, que é atualmente a nossa calamidade. É o enorme o prejuízo que os agricultores do Baixo Mondego têm. Precisam de começar a época, o milho e o arroz são culturas muito importantes para o país e para as exportações da região e, neste momento, têm de ter garantia de água e têm as propriedades totalmente inundadas de areia.

 

Com perdas muito elevadas...

Com perdas muito elevadas. Nesta terça-feira falei com um jovem agricultor que ainda não pode quantificar todas as perdas porque ainda tem zonas inundadas, mas a quantificação que já fez vai em quatro milhões com a agravante que tem as propriedades cheias de areia e dificilmente vai poder fazer esta época. É fundamental que dentro das medidas que venham para o terreno sejam aplicadas o mais rapidamente possível e que se trabalhe em proximidade com quem está no terreno. É só isto que pedimos e é isso que temos tido do lado do Governo.

 

O primeiro-ministro anunciou o programa PTRR. Será suficiente ou vai ficar aquém das necessidades?

É sobretudo um documento metodológico de curto e de longo prazo, em que se propõe um prazo de reflexão, o que é importante, mas o que nos interessa é termos  rapidamente medidas e apoios para cuidarmos, por exemplo, das infraestruturas e de equipamentos. Dou um exemplo: temos seguros no mercado e em outros equipamentos que foram danificados, no entanto, em relação a redes de estradas, saneamento e de comunicações não temos seguros e em muitos locais tivemos abatimentos de estradas e a circulação está profundamente condicionada. Há o risco de termos mais colapsos e temos de fazer investimentos grandes. Em muitos municípios, os investimentos que têm de ser feitos ultrapassam o orçamento. Este é um documento sobretudo metodológico de um processo que o Governo quer ter para ter medidas de curto, médio e longo prazo, o que me parece bem enquanto abordagem, o que me parece que tem de ser mais claro é o apoio imediato para situações que também são urgentes. Estamos a dialogar com o Governo nesse sentido, quer no âmbito da comunidade intermunicipal, quer no âmbito da Associação Nacional de Municípios, e admito que seja difícil ao Governo identificar um pacote financeiro, até porque muitas áreas ainda estão alagadas e não conseguimos contabilizar a totalidade dos danos. Precisamos de saber que tipo de apoios é que vamos ter, se é a fundo perdido, se é uma parte a fundo perdido e outra parte com empréstimo, sobretudo para repormos condições de normalidade, de circulação, de fornecimento de água e de, naturalmente, as populações terem comunicações e energia elétrica. Isso é coisa mais urgente.

 

Ainda há falhas de comunicações e de abastecimento de água e energia?

Temos ainda falhas de comunicações, de fornecimento de água não e de fornecimento de energia elétrica muito pontuais, mas naturalmente noutros concelhos muito mais afetados pelo ciclone, porque falamos de um ciclone em Leiria, Pombal, Marinha Grande, continua a haver uma percentagem da população muito grande sem eletricidade. Sabemos que a E-Redes está a fazer tudo o que é possível, mas quem está a sofrer vai perdendo a paciência. Basta pensar nessa situação e na forma como nos sentiríamos se não pudéssemos garantir aquilo que todos os dias é invisível para nós: abrir a porta do frigorífico, ir buscar ao congelador comida para cozinhar. Essas rotinas em milhares de famílias estão interrompidas, a sua vida foi interrompida e o retomar da normalidade vai ser muito custoso. Há outra questão que o plano ou o Governo têm de esclarecer rapidamente: os casos de habitações totalmente destruídas. Percebemos que os apoios vão até 10 mil euros, naturalmente deve ser dada prioridade à habitação permanente, mas é preciso que se perceba o tipo de apoios que as famílias vão ter.

 

O PRR poderia ser canalizado para alguns projetos de recuperação?

Essa é a intenção do Governo e bem, mas o PRR tem uma data de execução curta e há obras que têm uma data de execução muito longa, não podem ser enquadradas no programa. Acredito que o Governo estará com toda a diligência a fazer essa reflexão.

 

O dano mais visível foi na A1, mas admitiu que era preciso rever outras infraestruturas.

Temos estradas nacionais e municipais cortadas, taludes abatidos, ribeiras urbanas que galgaram e que causaram prejuízos. No caso do rio Mondego é preciso que rapidamente se estabilize as suas margens. Temos rapidamente de fazer os arranjos na obra hidráulica do baixo Mondego e depois fazer uma intervenção mais estrutural. Os agricultores precisam já de água para a nova colheita que ainda não está garantida, sabemos que o Ministério do Ambiente e a APA estão a trabalhar nisso. Claro que a reabertura da A1 é uma notícia maravilhosa. Já estamos habituados a que o ministro das Infraestruturas e Habitação seja célere nas decisões, mas quero congratular-me em nome da região pela solidariedade e pela prioridade que foi dada nesta intervenção, com centenas e centenas de veículos a trabalharem todos os dias para recuperarem uma infraestrutura que não é só da região centro, mas também é do país. Vimos com muito agrado que em poucas semanas se tenha feito quase o impossível.

 

Para quando a recuperação total do concelho? É possível apontar uma data?

Não. Já estamos a fazer procedimentos de contratação para vários prejuízos e vamos fazer alterações orçamentais sem estar à espera dos apoios, já que a legislação permite começar a recuperar danos. Estamos a recuperar danos do mercado municipal e do edifício dos Transportes Urbanos de Coimbra. Nas estradas, como os danos são muito grandes e algumas são municipais, temos de ter a necessária articulação e coordenação com a Infraestruturas de Portugal. Diria que em dois anos vamos ter muito trabalho pela frente, até porque há obras que vão ser demoradas, mas estamos determinados a avançar rapidamente e a não baixar os braços. Temos a certeza que contaremos com o apoio do Governo.

 

Qual foi a pior e a melhor decisão que teve de tomar nesta gestão de crise?

As decisões que fui tomando foram sempre muito partilhadas, embora fosse eu a assumi-las. A pior, aquela que me custou mais, foi retirar pessoas de suas casas, mas fi-lo com a consciência que estávamos a proteger vidas. A decisão, o momento mais difícil foi no dia 12 à tarde quando, em contacto com a APA e com a ministra do Ambiente, percebemos que poderíamos ter uma noite de quinta para sexta-feira terrível, em termos de chuva e que a barragem da Aguieira já estava em 99% e não iria poder receber mais água e toda a que recebesse iria ser injetada no Rio Mondego. Nessa altura, pusemos a população de sobreaviso. Esperámos toda a noite que nada acontecesse e depois durante a manhã, felizmente, as coisas correram bem, mas foi o mais difícil. Esses foram os momentos mais complicados, além, naturalmente, da rutura do dique que levou à queda de A1. Estes foram os piores momentos que vivemos.

 

Disse que contou com o apoio do Governo. A saída da ministra da Administração Interna prejudicou o desenvolvimento dos trabalhos?

Não, tivemos em reuniões da Autoridade Nacional de Proteção Civil e a ministra fez o seu papel. No terreno tivemos sempre o secretário de Estado da Proteção Civil e tivemos todas as autoridades de proteção. O mais alto responsável da proteção civil andou pelo país. Em momento algum a intervenção da ministra prejudicou o que quer que fosse, pelo contrário, tivemos da parte do Ministério da Administração Interna toda a informação necessária.       

 

Concorda com as críticas feitas por outros autarcas, que acusaram o Governo de ter agido de forma tardia e de ter chegado ao local tarde?

É muito fácil a posteriori fazer essas críticas, mas em Coimbra isso não aconteceu, mas o que aconteceu em alguns territórios foi uma calamidade, é quase uma guerra. E também acredito que não tenha havido plena consciência, até porque as comunicações eram terríveis, do que estava a acontecer e não estou a falar de Coimbra, estou a falar dos municípios muito afetados. É perfeitamente natural o desespero dos autarcas e é natural que considerem que por muitos meios que tenham são sempre insuficientes. Nestas alturas, é absolutamente natural que esperemos sempre mais porque queremos responder às nossas populações, são os autarcas que estão a dar a cara. Obviamente que respeito opiniões diferentes da minha, mas em Coimbra não senti essa falta de apoio.

 

A sua experiência como presidente da CCDR do Centro, e mais tarde depois como ministra da Coesão, ajudou-a a lidar com esta crise?

Ajudou muito, porque sabia os canais institucionais que tinha de agilizar, até à própria metodologia de planear as evacuações e todo o trabalho de comunicação de serenidade que fomos fazendo às pessoas. O nosso histórico de vida ajuda-nos sempre.

 

Mas há quem diga que, pela sua experiência e por ter estado muito tempo no terreno, também tem uma parte da responsabilidade...

Não sei como é que era possível ter essa capacidade. As infraestruturas têm várias gestões, a hidráulica do rio de Mondego é da APA, a das estradas é das Infraestruturas de Portugal. Não percebo que responsabilidade é que possa ter, mas admito que haja opiniões diferentes.

 

Já se mostrou contra o prolongamento do estado de calamidade defendido pelo PS. Porquê?

O estado de calamidade tem um objetivo que é a proteção civil. A partir do momento em que estamos a falar da reconstrução, o que precisamos é de ter medidas de apoio e para isso não é preciso estado de calamidade. Bem sei que na Serra da Estrela o estado de calamidade durou um ano, mas nos incêndios de 2017 foi declarado por um determinado período. O que é complicado é que haja municípios que hoje não têm o estado de calamidade e que deveriam, mas o Governo já mostrou essa abertura. Temos municípios que ficaram totalmente destruídos, ou cujas estradas ficaram totalmente destruídas e que não foram considerados inicialmente como estando em estado de calamidade. Há municípios que sofreram e que não justifica naturalmente o estado de calamidade, há outros que justifica, mas deve haver apoios para todos, sobretudo quando estiverem em causa infraestruturas essenciais para a vida das pessoas.                                                  

Nestas últimas semanas tem recebido muitos elogios em relação à sua liderança, o encontro desta semana com o ministro da Agricultura poderá ter beliscado essa visão?

Não vivo para elogios, vivo para cuidar de Coimbra e para cuidar da região. Para mim o assunto está encerrado, a conversa com ministro da Agricultura está tida e o nosso foco agora é apoiar os agricultores que foram profundamente afetados. Tenho a certeza que podemos contar com o ministro da Agricultura nesse apoio porque é uma pessoa conhecedora, o seu percurso de vida na área da agricultura evidencia isso e o que conta é que estejamos unidos a apoiar os agricultores, o resto é uma pedra no assunto.

 

Esse confronto poderia ter sido evitado?

Não vou falar mais sobre o assunto, creio que a postura de serenidade é sempre a melhor para termos diálogo. Somos humanos, o mais importante está tratado, que é o diálogo que houve com os agricultores e com os autarcas. Isso é que era importante porque foi esse o objetivo da visita do ministro. 

 

Já admitiu que uma das maiores alegrias foi a população ter confiado nas suas palavras. Foi fácil convencer as pessoas a saírem das suas casas?

Em alguns casos sim, mas tivemos sempre as autoridades que de forma pedagógica alertavam e estavam presentes no terreno e explicámos as coisas. As pessoas entenderam e confiaram. Essa é a nossa maior alegria. Ainda esta semana conversei com uma pessoa que esteve fora de casa duas semanas e agradeceu porque sentiu que o que fizemos foi para proteger vidas.

 

Foi uma das apoiantes de António José Seguro. O que espera do mandato?

Alguém sereno, alguém tranquilo, que é profundamente conhecedor dos problemas do território, que se preocupe com as assimetrias, porque se há algo que estas calamidades trazem é o aprofundamento das assimetrias. Tenho a certeza que tem essa sensibilidade, tem essa determinação para em conjunto com o Governo na resolução desta calamidade essas assimetrias não se acentuem, que os mais frágeis não fiquem ainda mais frágeis e que os isolados não fiquem ainda mais isolados.

Leia sem distrações! Navegue sem anúncios em todos os sites do Universo IOL e receba benefícios exclusivos!
TORNE-SE PREMIUM