Coimbra foi uma das zonas mais afetadas pelas cheias. Olhando para trás, acha que poderia ter evitado alguma coisa? Que balanço faz?
Em primeiro lugar, quero solidarizar-me com outras regiões que foram muito afetadas, como Leiria, Pombal, Marinha Grande e Ferreira do Zêzere. Coimbra foi afetada pela tempestade Kristin, mas depois foi muito mais afetada pelas cheias e pelas inundações. Trabalhámos de forma muito articulada com a proteção civil no âmbito municipal e sub-regional e de forma permanente com o Governo. Tivemos eventos extremos da natureza, chuvas completamente anormais. Aliás, o presidente da APA referiu várias vezes que em dois dias tivemos chuva correspondente a 20% de um ano. Dentro de todo o panorama do que poderia ter acontecido estou muito confortável com a atuação que todos tiveram.
Houve uma resposta articulada...
Sim e com todas as entidades que são fundamentais e que, muitas vezes, são invisíveis, como a Segurança Social, Cruz Vermelha, INEM, Saúde, Polícia, GNR e Polícia Municipal. Uma articulação que permitiu o planeamento e a antecipação de muitas coisas, sobretudo porque previmos o pior e preparámo-nos para o pior e creio que salvámos vidas. Essa é a nossa obrigação, nomeadamente a opção do corte da A1 de forma imediata. Caso contrário, teria, infelizmente, havido fatalidades. Não só com o corte da A1, mas também na questão de proibir a circulação de pessoas nas zonas das cheias. Infelizmente, tivemos a morte de um casal que se pôs à estrada em condições pouco seguras e que se desorientou. Fizemos avisos reiteradamente para as pessoas evitarem estas situações e tivemos de pedir às pessoas para saírem de casa porque considerámos que não era seguro ficarem em casa. Um alerta que foi feito numa perspetiva do que veio a acontecer, que foi o de rebentamento do dique, não sabíamos qual seria o comportamento e se iria rebentar num sítio, ou se iria rebentar em dois ou três. Infelizmente, rebentou, mas tivemos a sorte de ter rebentado para o lado direito, em que não atingiu populações, mas atingiu agricultores, que é atualmente a nossa calamidade. É o enorme o prejuízo que os agricultores do Baixo Mondego têm. Precisam de começar a época, o milho e o arroz são culturas muito importantes para o país e para as exportações da região e, neste momento, têm de ter garantia de água e têm as propriedades totalmente inundadas de areia.
Com perdas muito elevadas...
Com perdas muito elevadas. Nesta terça-feira falei com um jovem agricultor que ainda não pode quantificar todas as perdas porque ainda tem zonas inundadas, mas a quantificação que já fez vai em quatro milhões com a agravante que tem as propriedades cheias de areia e dificilmente vai poder fazer esta época. É fundamental que dentro das medidas que venham para o terreno sejam aplicadas o mais rapidamente possível e que se trabalhe em proximidade com quem está no terreno. É só isto que pedimos e é isso que temos tido do lado do Governo.
O primeiro-ministro anunciou o programa PTRR. Será suficiente ou vai ficar aquém das necessidades?
É sobretudo um documento metodológico de curto e de longo prazo, em que se propõe um prazo de reflexão, o que é importante, mas o que nos interessa é termos rapidamente medidas e apoios para cuidarmos, por exemplo, das infraestruturas e de equipamentos. Dou um exemplo: temos seguros no mercado e em outros equipamentos que foram danificados, no entanto, em relação a redes de estradas, saneamento e de comunicações não temos seguros e em muitos locais tivemos abatimentos de estradas e a circulação está profundamente condicionada. Há o risco de termos mais colapsos e temos de fazer investimentos grandes. Em muitos municípios, os investimentos que têm de ser feitos ultrapassam o orçamento. Este é um documento sobretudo metodológico de um processo que o Governo quer ter para ter medidas de curto, médio e longo prazo, o que me parece bem enquanto abordagem, o que me parece que tem de ser mais claro é o apoio imediato para situações que também são urgentes. Estamos a dialogar com o Governo nesse sentido, quer no âmbito da comunidade intermunicipal, quer no âmbito da Associação Nacional de Municípios, e admito que seja difícil ao Governo identificar um pacote financeiro, até porque muitas áreas ainda estão alagadas e não conseguimos contabilizar a totalidade dos danos. Precisamos de saber que tipo de apoios é que vamos ter, se é a fundo perdido, se é uma parte a fundo perdido e outra parte com empréstimo, sobretudo para repormos condições de normalidade, de circulação, de fornecimento de água e de, naturalmente, as populações terem comunicações e energia elétrica. Isso é coisa mais urgente.
Ainda há falhas de comunicações e de abastecimento de água e energia?
Temos ainda falhas de comunicações, de fornecimento de água não e de fornecimento de energia elétrica muito pontuais, mas naturalmente noutros concelhos muito mais afetados pelo ciclone, porque falamos de um ciclone em Leiria, Pombal, Marinha Grande, continua a haver uma percentagem da população muito grande sem eletricidade. Sabemos que a E-Redes está a fazer tudo o que é possível, mas quem está a sofrer vai perdendo a paciência. Basta pensar nessa situação e na forma como nos sentiríamos se não pudéssemos garantir aquilo que todos os dias é invisível para nós: abrir a porta do frigorífico, ir buscar ao congelador comida para cozinhar. Essas rotinas em milhares de famílias estão interrompidas, a sua vida foi interrompida e o retomar da normalidade vai ser muito custoso. Há outra questão que o plano ou o Governo têm de esclarecer rapidamente: os casos de habitações totalmente destruídas. Percebemos que os apoios vão até 10 mil euros, naturalmente deve ser dada prioridade à habitação permanente, mas é preciso que se perceba o tipo de apoios que as famílias vão ter.
O PRR poderia ser canalizado para alguns projetos de recuperação?
Essa é a intenção do Governo e bem, mas o PRR tem uma data de execução curta e há obras que têm uma data de execução muito longa, não podem ser enquadradas no programa. Acredito que o Governo estará com toda a diligência a fazer essa reflexão.
O dano mais visível foi na A1, mas admitiu que era preciso rever outras infraestruturas.
Temos estradas nacionais e municipais cortadas, taludes abatidos, ribeiras urbanas que galgaram e que causaram prejuízos. No caso do rio Mondego é preciso que rapidamente se estabilize as suas margens. Temos rapidamente de fazer os arranjos na obra hidráulica do baixo Mondego e depois fazer uma intervenção mais estrutural. Os agricultores precisam já de água para a nova colheita que ainda não está garantida, sabemos que o Ministério do Ambiente e a APA estão a trabalhar nisso. Claro que a reabertura da A1 é uma notícia maravilhosa. Já estamos habituados a que o ministro das Infraestruturas e Habitação seja célere nas decisões, mas quero congratular-me em nome da região pela solidariedade e pela prioridade que foi dada nesta intervenção, com centenas e centenas de veículos a trabalharem todos os dias para recuperarem uma infraestrutura que não é só da região centro, mas também é do país. Vimos com muito agrado que em poucas semanas se tenha feito quase o impossível.
Para quando a recuperação total do concelho? É possível apontar uma data?
Não. Já estamos a fazer procedimentos de contratação para vários prejuízos e vamos fazer alterações orçamentais sem estar à espera dos apoios, já que a legislação permite começar a recuperar danos. Estamos a recuperar danos do mercado municipal e do edifício dos Transportes Urbanos de Coimbra. Nas estradas, como os danos são muito grandes e algumas são municipais, temos de ter a necessária articulação e coordenação com a Infraestruturas de Portugal. Diria que em dois anos vamos ter muito trabalho pela frente, até porque há obras que vão ser demoradas, mas estamos determinados a avançar rapidamente e a não baixar os braços. Temos a certeza que contaremos com o apoio do Governo.
Qual foi a pior e a melhor decisão que teve de tomar nesta gestão de crise?
As decisões que fui tomando foram sempre muito partilhadas, embora fosse eu a assumi-las. A pior, aquela que me custou mais, foi retirar pessoas de suas casas, mas fi-lo com a consciência que estávamos a proteger vidas. A decisão, o momento mais difícil foi no dia 12 à tarde quando, em contacto com a APA e com a ministra do Ambiente, percebemos que poderíamos ter uma noite de quinta para sexta-feira terrível, em termos de chuva e que a barragem da Aguieira já estava em 99% e não iria poder receber mais água e toda a que recebesse iria ser injetada no Rio Mondego. Nessa altura, pusemos a população de sobreaviso. Esperámos toda a noite que nada acontecesse e depois durante a manhã, felizmente, as coisas correram bem, mas foi o mais difícil. Esses foram os momentos mais complicados, além, naturalmente, da rutura do dique que levou à queda de A1. Estes foram os piores momentos que vivemos.
Disse que contou com o apoio do Governo. A saída da ministra da Administração Interna prejudicou o desenvolvimento dos trabalhos?
Não, tivemos em reuniões da Autoridade Nacional de Proteção Civil e a ministra fez o seu papel. No terreno tivemos sempre o secretário de Estado da Proteção Civil e tivemos todas as autoridades de proteção. O mais alto responsável da proteção civil andou pelo país. Em momento algum a intervenção da ministra prejudicou o que quer que fosse, pelo contrário, tivemos da parte do Ministério da Administração Interna toda a informação necessária.
Concorda com as críticas feitas por outros autarcas, que acusaram o Governo de ter agido de forma tardia e de ter chegado ao local tarde?
É muito fácil a posteriori fazer essas críticas, mas em Coimbra isso não aconteceu, mas o que aconteceu em alguns territórios foi uma calamidade, é quase uma guerra. E também acredito que não tenha havido plena consciência, até porque as comunicações eram terríveis, do que estava a acontecer e não estou a falar de Coimbra, estou a falar dos municípios muito afetados. É perfeitamente natural o desespero dos autarcas e é natural que considerem que por muitos meios que tenham são sempre insuficientes. Nestas alturas, é absolutamente natural que esperemos sempre mais porque queremos responder às nossas populações, são os autarcas que estão a dar a cara. Obviamente que respeito opiniões diferentes da minha, mas em Coimbra não senti essa falta de apoio.
A sua experiência como presidente da CCDR do Centro, e mais tarde depois como ministra da Coesão, ajudou-a a lidar com esta crise?
Ajudou muito, porque sabia os canais institucionais que tinha de agilizar, até à própria metodologia de planear as evacuações e todo o trabalho de comunicação de serenidade que fomos fazendo às pessoas. O nosso histórico de vida ajuda-nos sempre.
Mas há quem diga que, pela sua experiência e por ter estado muito tempo no terreno, também tem uma parte da responsabilidade...
Não sei como é que era possível ter essa capacidade. As infraestruturas têm várias gestões, a hidráulica do rio de Mondego é da APA, a das estradas é das Infraestruturas de Portugal. Não percebo que responsabilidade é que possa ter, mas admito que haja opiniões diferentes.
Já se mostrou contra o prolongamento do estado de calamidade defendido pelo PS. Porquê?
O estado de calamidade tem um objetivo que é a proteção civil. A partir do momento em que estamos a falar da reconstrução, o que precisamos é de ter medidas de apoio e para isso não é preciso estado de calamidade. Bem sei que na Serra da Estrela o estado de calamidade durou um ano, mas nos incêndios de 2017 foi declarado por um determinado período. O que é complicado é que haja municípios que hoje não têm o estado de calamidade e que deveriam, mas o Governo já mostrou essa abertura. Temos municípios que ficaram totalmente destruídos, ou cujas estradas ficaram totalmente destruídas e que não foram considerados inicialmente como estando em estado de calamidade. Há municípios que sofreram e que não justifica naturalmente o estado de calamidade, há outros que justifica, mas deve haver apoios para todos, sobretudo quando estiverem em causa infraestruturas essenciais para a vida das pessoas.
Nestas últimas semanas tem recebido muitos elogios em relação à sua liderança, o encontro desta semana com o ministro da Agricultura poderá ter beliscado essa visão?
Não vivo para elogios, vivo para cuidar de Coimbra e para cuidar da região. Para mim o assunto está encerrado, a conversa com ministro da Agricultura está tida e o nosso foco agora é apoiar os agricultores que foram profundamente afetados. Tenho a certeza que podemos contar com o ministro da Agricultura nesse apoio porque é uma pessoa conhecedora, o seu percurso de vida na área da agricultura evidencia isso e o que conta é que estejamos unidos a apoiar os agricultores, o resto é uma pedra no assunto.
Esse confronto poderia ter sido evitado?
Não vou falar mais sobre o assunto, creio que a postura de serenidade é sempre a melhor para termos diálogo. Somos humanos, o mais importante está tratado, que é o diálogo que houve com os agricultores e com os autarcas. Isso é que era importante porque foi esse o objetivo da visita do ministro.
Já admitiu que uma das maiores alegrias foi a população ter confiado nas suas palavras. Foi fácil convencer as pessoas a saírem das suas casas?
Em alguns casos sim, mas tivemos sempre as autoridades que de forma pedagógica alertavam e estavam presentes no terreno e explicámos as coisas. As pessoas entenderam e confiaram. Essa é a nossa maior alegria. Ainda esta semana conversei com uma pessoa que esteve fora de casa duas semanas e agradeceu porque sentiu que o que fizemos foi para proteger vidas.
Foi uma das apoiantes de António José Seguro. O que espera do mandato?
Alguém sereno, alguém tranquilo, que é profundamente conhecedor dos problemas do território, que se preocupe com as assimetrias, porque se há algo que estas calamidades trazem é o aprofundamento das assimetrias. Tenho a certeza que tem essa sensibilidade, tem essa determinação para em conjunto com o Governo na resolução desta calamidade essas assimetrias não se acentuem, que os mais frágeis não fiquem ainda mais frágeis e que os isolados não fiquem ainda mais isolados.