sexta-feira, 13 mar. 2026

AMI triplica apoio a estrangeiros sem-abrigo no Porto

Este crescimento na representatividade de pessoas estrangeiras acompanhadas reflete uma tendência nacional observada por organizações que atuam no apoio a sem-abrigo, exigindo respostas sociais adaptadas à diversidade de contextos e perfis
AMI triplica apoio a estrangeiros sem-abrigo no Porto

O Abrigo Noturno do Porto, gerido pela Assistência Médica Internacional, quase triplicou o apoio a pessoas estrangeiras em situação de sem-abrigo entre 2020 e 2025, apesar de uma ligeira descida em 2025 face ao ano anterior, segundo dados divulgados pela organização este sábado.

Crescimento acentuado de utentes estrangeiros

Em 2020, as pessoas estrangeiras apoiadas representavam cerca de 10,3% dos utentes no abrigo do Porto. Esse peso subiu de forma contínua ao longo dos anos — 12,1% em 2021 e 17,5% em 2022 —, com um aumento mais expressivo em 2023 (23,5%) e um pico de 30% em 2024. Mesmo com uma ligeira redução para 28,8% em 2025, a proporção de estrangeiros continua muito acima dos níveis de cinco anos antes.

Em paralelo, a percentagem de utentes de nacionalidade portuguesa diminuiu de 81% em 2020 para 70% em 2024, com uma pequena recuperação para 71,2% em 2025.

Perfil e origem dos utentes

Em 2025, o abrigo apoiou um total de 59 homens, dos quais 42 (71,1%) eram portugueses e 17 (28,8%) estrangeiros. Os homens estrangeiros sem-abrigo são oriundos principalmente da Roménia, Marrocos, São Tomé e Príncipe, Angola, Guiné‑Bissau, Cabo Verde, Brasil, Venezuela e Colômbia.

Entre a população estrangeira apoiada em 2025, 22% tinham situação regular, 5% tinham situação irregular e 1,7% estavam em situação inconclusiva.

Percurso educativo e causas da vulnerabilidade

O perfil sociodemográfico dos utentes mostra um aumento dos níveis de escolaridade:

  • 34% com 3.º ciclo,

  • 29% com ensino secundário,

  • 18% com 2.º ciclo,

  • 12% com ensino superior — percentagem esta que tem vindo a crescer ao longo dos anos.

A diretora do abrigo, Suzete Santos, explicou que a situação de sem-abrigo resulta de uma “acumulação de causas” transversais a todos os perfis, com desemprego e precariedade no trabalho a aparecerem em cerca de 90% dos casos, seguidos pela falta de suporte familiar, despejos e desalojamento. A insuficiência financeira associada a situações como divórcio ou viuvez surge também como fator de risco relevante.

Situação no concelho do Porto

Dados oficiais da Câmara Municipal do Porto mostram que, apesar das variações anuais, o número de pessoas em situação de sem-abrigo no concelho tem ficado na ordem das centenas. Em 2024 foram registadas 553 pessoas sem-abrigo, face a 597 em 2023 e 647 em 2022. Entre essas situações, 39,9% eram originárias de outros municípios, 8,2% de Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa e 1,6% da União Europeia, mantendo a nacionalidade portuguesa como maioria.

Este crescimento na representatividade de pessoas estrangeiras acompanhadas reflete uma tendência nacional observada por organizações que atuam no apoio a sem-abrigo, exigindo respostas sociais adaptadas à diversidade de contextos e perfis.