quarta-feira, 15 jul. 2026

Américo Aguiar pede ajuda a Deus para perdoar EMEL (vídeo)

O cardeal e bispo de Setúbal aproveitou a homilia de bênção aos ciclistas que participaram na Bike Tour, que partiu do Cristo Rei e terminou em Oeiras, no passado domingo, para pedir a Deus que perdoe à EMEL ‘as maldades e os sofrimentos que causam a tantas pessoas diariamente’.

O cardeal Américo Aguiar, e bispo de Setúbal, gosta de usar nas suas homilias algum humor e sarcasmo, mas no último domingo, na capela do Santuário do Cristo Rei, em Almada, surpreendeu todos os presentes, bem como aqueles que assistiam à missa através da TVI. A homilia servia, acima de tudo, para abençoar a corrida Bike Tour, que começava precisamente junto ao Cristo Rei e terminava em Oeiras, mas Américo Aguiar, depois de contar a sua última experiência numa corrida semelhante, que lhe deixou dores «numa certa parte, ainda hoje», provocando sorrisos nos presentes, continuou a missa num tom didático e ao mesmo tempo divertido. O cardeal lembrou que o Cristo Rei foi «construído para agradecer a Deus o facto de Portugal não ter entrado na II Grande Guerra Mundial».

Sempre bem-disposto, Aguiar prosseguiu com o recurso ao Evangelho, mas ao minuto 17 conseguiu a maior gargalhada da homilia: «Estamos aqui para rezar pelo dom da paz, que tanto é necessário no mundo inteiro, como no coração de cada um, na casa de cada um, e na instituição de cada um, nomeadamente que cada um de vocês tem na camisola, que causa a todos urticária, que é a EMEL» [gargalhada geral, talvez com a exceção das irmãs presentes]. Sem se desmanchar, o bispo de Setúbal, continuou: «Portanto, vamos rezar pela EMEL, pelos seus profissionais, para que Deus lhes perdoe as maldades e os sofrimentos que causam a tantas pessoas diariamente».

Para os mais desatentos, diga-se que a EMEL é a empresa da Câmara de Lisboa responsável por multar [bloquear e rebocar] os carros mal estacionados, em Lisboa, área fora da ‘jurisdição de Américo Aguiar.

De seguida, recordou a Santíssima Trindade e como Deus amou tanto o mundo que entregou o seu filho. Não se percebeu se Américo Aguiar queria insinuar que Carlos Moedas deve entregar a EMEL às urtigas, mas a mensagem não chegou seguramente aos Paços do Concelho, em Lisboa, pois a EMEL é um excelente patrocinador da câmara da capital.

Vale a pena seguirmos até ao minuto 39 da homilia, e darmos a palavra ao bispo Américo Aguiar, nomeado cardeal pelo Papa Francisco. A transcrição é longa, mas justifica-se. «Oremos. Concedei-nos senhor, nosso Deus, que a participação neste divino sacramento, e a profissão de fé na Santa e eterna Trindade, e na indivisível unidade, nos alcancem a saúde do corpo e da alma. Por Cristo, Nosso Senhor». Quem é católico sabe que os fiéis respondem «Ámen». E assim foi.

«Estamos a terminar a nossa celebração, em pedalada constante, vamos pedir a Deus então a bênção de todos estes ciclistas, desportistas, entre loucura e martírio, mas para que cheguem todos são e salvos, algures a Oeiras Valley, como se diz, mas acima de tudo que sejam um testemunho para a comunidade. Sabemos que o desporto é particularmente importante na vida, deve ser na vida das pessoas, das nossas comunidades, e eu estou convencido que este ciclo de eventos em voltas deste pedalar Portugal, vai conquistando mais pessoas para o ciclismo, e, acima de tudo, estou convencido que é cada vez mais uma coisa familiar, que é algo particularmente bonito».

A PENITÊNCIA DA EMEL

Na assistência estavam dezenas de ciclistas que iriam participar na corrida e que se levantaram, seguramente, bastante cedo, para não perderem a missa de Américo Aguiar. Fora da capela do santuário do Cristo Rei estavam mais umas centenas de desportistas, também devidamente equipados com capacete e tudo.

Mas não tiremos a palavra à estrela da manhã. «Naquela edição que participei, e de que recupero muito lentamente, vi uma bicicleta enorme, em que ia o pai, a mãe e os miúdos, todos na mesma bicicleta, com vários lugares, e eu acho que só o pai é que pedalava. Mas isso é outra conversa. Eu acho que os outros iam na maior, mas a vida é assim» [mais risos na assistência].

O bispo de Setúbal, e estamos sempre a falar do mesmo sacerdote, não vá alguém pensar que o bispo e o cardeal são pessoas diferentes, ‘sprintou’ mesmo para o fim da homilia, dirigindo-se uma vez mais aos ciclistas presentes: «Meus queridos amigos, irmãos e irmãs, aqueles que nos acompanham lá em casa, estamos todos em comunhão convosco, e as bicicletas vão ficar um pouco mais pesadas, pois são 10 milhões em cima das vossas bicicletas, para que tudo corra da melhor maneira, e o objetivo final do evento se cumpra e que todos os que participaram na organização cheguem ao fim do dia cansados, mas felizes porque correu tudo bem. Isso é que é importante. Saúdo o vice-presidente da câmara de Almada, que está aqui connosco, e vamos agora lá para fora, não dar um tiro de partida, senão eu podia acertar em alguém e era logo uma baixa de início, mas, acima de tudo, para pedir a bênção de Deus para que tudo corra da melhor forma...»

Ate aqui tudo normal, mas, mais uma vez, Aguiar sacou uma enorme sorriso nos presentes, quando pediu também a bênção a Deus «para que a EMEL, enfim, sinta a penitência de Deus em tantos sofrimentos que são colocados nos cidadãos diariamente nas suas vidas».

O SOL não sabe se Carlos Moedas, responsável máximo da EMEL, ouviu a homilia ou respondeu posteriormente a Américo Aguiar. Há duas semanas, o nosso jornal questionou a Câmara de Lisboa sobre as queixas de comerciantes e moradores sobre a verdadeira caça à multa levada a cabo, diariamente, menos aos fins de semana, pelos funcionários da EMEL. O SOL perguntou também se a ‘empresa’ camarária respeita o Código da Estrada, há quem diga que não, e se os seus funcionários continuam a receber comissões por bloquearem e rebocarem veículos que não impedem a circulação, entre outras. Perguntámos também se houve um investimento nos últimos tempos para rebocarem mais carros, entre muitas outras perguntas, e as respostas que deram foram evasivas e escassas.

ESCRITÓRIO DE ADVOGADOS AO ATAQUE

Depois dessa reportagem foi noticiado, pela Lusa, que há um escritório de advogados, especialista em direito rodoviário, que vai recorrer aos tribunais administrativos e para a Provedoria de Justiça, alegando que a EMEL ignora defesas escritas e aplica as coimas sem permitir o direito de defesa. Segundo Carlos Barroso, que disse representar «centenas de clientes», «o Estado não pode aplicar — e a EMEL é Estado —, uma coima sem existir o direito de defesa, pois pode haver um erro no auto».

«A EMEL recebe a nossa defesa e, ao invés de fazer a instrução do processo e depois proferir a decisão — e é livre de proferir a decisão final com a contraordenação, que é a manutenção da coima ou a absolvição da pessoa avisada — o que é que faz? Responde com um email dizendo que recebeu a defesa e que entende que não há inversão do ónus da prova e, portanto, que considera o processo finalizado», acrescentou o causídico.

Pode ser que as preces de Américo Aguiar consigam fazer luz nos responsáveis da EMEL...