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Foi sob escolta policial que os moradores dos prédios do Plano Especial de Realojamento (PER) da Ameixoeira chegaram ao bairro. Oriundos do Vale do Forno – um enorme aglomerado de barracas nas Portas de Benfica, construído junto a uma lixeira, onde residia a maior comunidade cigana de Lisboa naquela época, início dos anos 2000 –, não queriam vir morar para junto de “contrários”, ou seja, outros elementos da mesma etnia com quem tinham conflitos.
A memória está plasmada na revista Sociologia ON LINE de outubro de 2017. «Em 2001, no âmbito do PER, foram realojadas, sob escolta policial, famílias ciganas oriundas do Vale do Forno que já tinham rivalidades anteriores com famílias da zona. Este facto, a par do mau desenho e da má gestão urbana, potenciaram um ambiente de litígio e insegurança permanentes», pode ler-se.
Tiroteios e droga
Um ambiente que se tem perpetuado até aos dias de hoje. Maria João, uma das moradoras, que prefere manter o anonimato por receio de represálias dá conta disso mesmo. «Aqui há ciganos e não só. Muitos vieram para aqui obrigados e há conflitos entre famílias que nunca se conseguiram resolver. Muitas vezes ouvimos tiros, mas já houve casos mesmo de tiroteios», revela. A par da insegurança há, também, o tráfico de droga.
Aliás, no dia 19 de novembro do ano passado, a PSP fez uma intervenção de prevenção criminal na Alta de Lisboa e Ameixoeira e foram encontradas diversas munições, armas de fogo, armas brancas e droga, designadamente 246 doses individuais de haxixe e 17 de cocaína. A operação levou à detenção de cinco homens que já estavam na mira das autoridades. A PSP foi para o terreno após denúncias da população devido a disparos de armas de fogo naqueles locais, o que levou, como a polícia informou na altura, a um «forte sentimento de insegurança».
A operação mais recente aconteceu no dia 24 de março. Acabaram por ser detidos nove homens e uma mulher, suspeitos do crime de tráfico de estupefacientes. Após recolha e consolidação de prova, a DIC em estreita articulação com a 1.ª Secção do DIAP de Lisboa, realizou uma operação policial com vista ao cumprimento de 14 mandados de busca domiciliárias na Alta de Lisboa e, ainda, em Camarate.
A ação policial na abordagem e intercetação dos suspeitos de tráfico de estupefacientes deteve em flagrante delito, na rua, quatro pessoas.
Durante esta operação foram apreendidas 650 doses de cocaína, 112 doses de haxixe, 140 doses de heroína, 5200 euros, três espingardas, uma pistola, dezenas de munições, uma soqueira, dois cofres e outro material associado ao tráfico de droga.
A Ameixoeira e a vizinha Alta de Lisboa fazem parte de um mapa, desenhado pela esquadra especializada no combate ao tráfico de droga da Divisão de Investigação Criminal (DIC) de Lisboa, onde figuram as cinco principais zonas da cidade afetadas por este flagelo: Ameixoeira/Alta de Lisboa; Chelas; Picheleira; Mouraria e Quinta do Loureiro. «Para começar, temos de contextualizar esta situação. O mercado de venda de droga, na cidade de Lisboa, é heterogéneo. Nestas cinco zonas vai encontrar situações diferentes», sublinha o intendente Rui Costa, responsável pela DIC.
Apesar de geograficamente vizinhas, a Ameixoeira e a Alta de Lisboa têm algumas nuances. «Na Ameixoeira encontramos uma zona mais antiga, na parte das Galinheiras, com casas mais antigas, onde há venda direta de estupefacientes. E depois temos os bairros. Se formos para a Alta de Lisboa, propriamente dita, também há venda direta mas é feita de forma diversa. É necessário entrar nos prédios. Há apartamentos onde há pessoas que se dedicam à venda; não há aquela venda de rua tão visível, como por exemplo existe na Quinta do Loureiro», explica Rui Costa. «Nas ruas, há angariadores e vigilantes para impedir ou alertar para a chegada das autoridades».
Entre o luxo e o lixo
Na Alta de Lisboa o tráfico acontece sobretudo na avenida Tito de Morais e áreas adjacentes, de acordo com a PSP. Percorremos esta zona numa viatura descaracterizada da esquadra dedicada ao tráfico de droga da DIC de Lisboa. Deambulam, pelos passeios, sobretudo homens mais ou menos jovens. «Muitas vezes a droga acaba por ser traficada ou em casas ou nos próprios cafés e outros estabelecimentos», explica o comissário João Prisciliano, que nos conduz nesta visita guiada.
Apesar de tudo, o ambiente acaba por ser menos hostil do que na Ameixoeira. Aqui há uma mescla, na própria malha urbana, de habitação social com prédios de classe média e média alta e misturam-se todo o tipo de pessoas. «Na habitação social há rigorosamente de tudo. Há pessoas que têm uma vida ativa, perfeitamente normal e familiar, perfeitamente integrada e normal, que me atrevo a dizer que são a maior maioria da população. E depois há outras pessoas que não se dedicam ao tráfico, mas que não têm vida ativa e que não percebemos muito bem o que é que fazem. Depois há pessoas que se dedicam ao tráfico. Há de tudo», sublinha o intendente Rui Costa.
Por sua vez, na Ameixoeira, de acordo com o relato de Rui Costa, também já houve mercado de droga a céu aberto. «Atualmente vê-se menos. O modo de atuar é diferente, desde logo pela arquitetura do bairro. A venda também é feita no interior dos prédios, com algumas pessoas a angariar ou a vigiar no exterior». A cocaína em pó e o haxixe são as drogas mais apreendidas pelas autoridades naquela zona da capital.
Compradores endinheirados
A VERSA esteve no bairro em duas ocasiões; numa delas fomos apeados e é fácil verificar a chegada e saída de carros de gama alta, por exemplo, à avenida Glicínia Quartin, na zona 6 da Ameixoeira, considerada a mais problemática. O intendente Rui Costa explica estas movimentações. «As pessoas vão comprar, por exemplo, cocaína. Param o carro, deslocam-se ao prédio, sobem, descem e vão-se embora. Os consumidores são de um estrato social mais elevado, são pessoas que procuram cocaína em pó e que podem pagá-la. É este tipo de dinâmica. Sempre que lá passar vai perceber que algumas coisas estranhas ali se passam mas não vê um mercado a céu aberto, como se vê noutras zonas da cidade».
Por ali, é raro haver furtos de ocasião ou pequenos roubos. «A pequena criminalidade que, normalmente, está ligada ao consumo de droga, naquela zona não se verifica tanto. No caso concreto da Ameixoeira, isso não é tão visível porque uma boa parte daquele mercado está ligado à cocaína e ao haxixe. A cocaína não está ligada a estes pequenos crimes», avança o intendente Rui Costa.
Certo é que se trata de uma comunidade «muito vulnerável, eu diria até das mais vulneráveis da cidade», vaticina uma assistente social que trabalha naquela zona da cidade mas, por questões de trabalho, também prefere não ser identificada. «Há um conjunto de fatores que potenciam isso. Desde logo a distância do centro da cidade. Este bairro fica na periferia. As pessoas foram empurradas para esta ponta da cidade e há mesmo uma desconexão daquilo que é uma cidade. Depois há baixa escolaridade, baixa empregabilidade, baixos recursos e tudo o que advém a partir daí», explica a assistente social.
Também ela recorda os conflitos que se perpetuam há décadas entre os que já cá moravam e os que vieram do Vale do Forno. «Temos comunidade cigana, mas não só, que foi forçada a vir para aqui viver e que, até hoje, nunca conseguiu resolver esses problemas, esses conflitos entre famílias».
O lixo nas ruas e o vandalismo nos prédios também pode ter uma explicação. «São pessoas que não estavam habituadas a viver em prédios. Os que vieram do Vale do Forno viviam em barracas, num autêntico gueto, sem qualquer noção do que é viver num prédio, com outras pessoas. Daí ver-se, por exemplo, muito lixo espalhado. Todas as comunidades que vivem em extremos normalmente têm estes hábitos. E daí até há quem diga que é uma ‘cultura de bairro’. Ainda por cima, estas pessoas juntaram-se aqui, realojadas de vários sítios, também não há um sentido de comunidade. Aliás, eu costumo dizer que não há uma comunidade, há várias. E não se cruzam».
Já Maria João, moradora, encontra uma explicação para o recurso ao tráfico de droga como modo de vida. «Eles desistem da escola, não trabalham. Antigamente iam para as feiras, isso hoje já não se usa tanto. Os homens, alguns andam nos TVDE, as mulheres não fazem nada. Acabam por crescer nesse ambiente e vão seguindo com esse negócio, de geração para geração. Pelo menos é o que eu entendo do que vejo».
A assistente social concorda, de certa forma, com esta moradora. «Sendo uma comunidade marginalizada, o crime aqui também é frequente. O tráfico de droga, os conflitos frequentes… Todos esses problemas são inerentes a todas as comunidades que vivem nas periferias e que têm fracas condições económicas e de vida».
A assustadora zona 6
Maria João garante que tudo se passa mas nada se vê, no que toca ao tráfico de droga, indo ao encontro da explicação do intendente Rui Costa. «Não vemos, mas sabemos o que acontece. Há rusgas, a polícia vem cá… Agora na rua não, não se vê nada». Para esta moradora, a polícia devia ser ainda mais ativa no bairro. «Se é frequente eles virem? Não sei se é assim tão frequente para a medida do que seria necessário. Mas ainda há pouco tempo houve aí uma rusga grande e encontraram muitas armas», recorda.
Maria João mora num dos prédios da famosa zona 6, na avenida Glicínia Quartin. «Isto aqui é a pior parte dos bairros. É onde existe mais porcaria, mais guerras entre eles. Depois é ali na Torrinha [outro bairro nas imediações] onde há mais gente africana. Mas não quer dizer que isto seja por serem ciganos ou pretos. É o que é», refere a moradora, demarcando-se de quaisquer preconceitos étnicos ou raciais.
A assistente social que conversou com a VERSA tem outra visão. «Tudo isto são pessoas que vieram para aqui marginalizadas, de alguma forma. A pressão que se vive cá dentro é tão grande que acaba por dar nesses conflitos. Se estas pessoas vivessem espalhadas pela cidade, talvez fosse diferente. Estando todas juntas isto torna-se uma autêntica bomba de energia que pode explodir a qualquer momento. Para mim, um realojamento bem pensado seria mais inclusivo. As pessoas não deviam ser simplesmente retiradas de barracas e enfiadas em prédios. O melhor seria espalhar os agregados por habitações dispersas pela cidade».
E, para terminar, dá o exemplo da Alta de Lisboa onde, apesar de tudo, há uma mistura entre bairros sociais e prédios de classe média-alta. «Na Alta de Lisboa está tudo mais pacífico porque, logo na altura do realojamento, houve essa mistura entre habitação social e os prédios de venda livre, de classes mais altas. Noto que ali o território está muito mais evoluído. As pessoas acabaram por ganhar competências porque começaram a ver os outros e a ter de lidar com pessoas que já tinham essas competências. Além disso, na Alta de Lisboa há comércio, há cafés. Aqui, na Ameixoeira, não se vê nada e ninguém quer vir para aqui. Todas as lojas estão fechadas. E porquê? Não só pelo ambiente mas também pelo estigma social que se criou e aumentou».
De facto, ao percorrermos as ruas só vemos lojas, que são municipais e poderiam ser arrendadas a preços acessíveis, ao abandono. Muitas nem nunca sequer terão estado abertas, mas o correr dos anos dá-lhes um ar completamente decadente, com as grades de ferro completamente enferrujadas ou danificadas. «Isto só é procurado por quem cá vive e tem dificuldades, por isso não pode sair daqui. De resto, ninguém entra aqui».
Mas, por muito assustadoras que as ruas pareçam, quem ali trabalha garante que «não é assim tão mau. Quer dizer, é mau. Mas depois, quem frequenta todos os dias este bairro, percebe que é possível andar por aqui».