Por entre as tempestades que se têm feito sentir nas últimas semanas, as nuvens abriram-se na manhã em que a VERSA visitou Alfama. O sol bate no casario e reflete uma luz alegre. Tudo parece perfeito no bairro mais antigo de Lisboa. Só faltam os pregões das peixeiras, as correrias e os miúdos a jogar à bola. «Alfama era um mundo à parte. Antigamente, havia muita gente, as casas eram todas habitadas, havia muitas crianças… Todas as pessoas se conheciam. Nós saíamos de manhã, as crianças ficavam na rua, iam à escola, voltavam, e eram os comerciantes e as varinas, que vendiam na rua, que tomavam conta delas». O relato é de Manuela Faria, dona da única mercearia portuguesa do bairro.
Da Alfama povoada por portugueses resta, praticamente, o edificado. Os mais velhos vão morrendo; os mais novos são empurrados para fora do bairro, pelo alojamento local e as rendas muito elevadas. Hoje, quem vai à mercearia de Manuela são sobretudo turistas, que pouco ou nada gastam nos restaurantes, preferindo fazer as refeições nas kitchnets dos apartamentos. «Eles saem de manhã para ir passear, voltam ao alojamento e fazem o almoço, voltam a sair e, depois, chegam cedo e jantam em casa», descreve Paulo Amaral, 58 anos, um dos moradores resistentes.
Manuela anui: «Hoje não se vende o que se vendia antigamente. Isto, praticamente, tornou-se uma despensa dos poucos que ainda aqui vivem, que vêm comprar qualquer coisita que falta. Depois, aparece o turismo, mas são outro tipo de vendas. Compram pão, queijo, vinho, fruta… Não tem nada a ver com o que era. Aqui vendia de tudo: carne, frango, peixe congelado. Hoje não».
Lurdes Pinheiro, 71 anos, foi presidente da Junta de Freguesia de Santo Estevão – uma das três freguesias que constituíam o bairro antes da reorganização administrativa de 2012 – e acompanha a VERSA durante toda a reportagem. Conhece o bairro como poucos e, também ela, dá conta da debandada de portugueses. «Antes da extinção de freguesias, em 2010, 2011, Alfama – as três freguesias – tinha cerca de sete mil eleitores. Hoje, Alfama não chega aos dois mil eleitores».
Rendas chegam a 1800 euros
Vieram novas gentes, novas culturas, o alojamento local e as rendas demasiado elevadas para que os filhos do bairro as possam pagar. «Alfama está povoada por muitos brasileiros, por nepaleses. Eles juntam-se, vários, numa casa e só assim é que conseguem pagar a renda», explica a presidente da Associação do Património e População de Alfama. «Os nepaleses têm os comércios deles, onde vendem um pouco de tudo, e até fazem preços para os estrangeiros e preços para os portugueses», ri-se.
Comprar casa é só para os mais ricos. «Ainda ontem estive a ver com uma senhora que tem um restaurante, e que queria comprar uma casinha, mas não consegue porque os preços são demais. Para arrendar a mesma coisa: só um quarto custa 600 ou 700 euros. Uma casa pode chegar aos 1800 euros por mês. Até ficamos parvos como é que há pessoas a arrendar casas em Alfama. Lá está, são mais os brasileiros e os indostânicos, que partilham as casas».
Lurdes dá ainda conta de que «60% do edificado do bairro é direcionado para o turismo. Ainda ontem passei na Rua da Regueira e vi um prédio, que era municipal, mas alguém o comprou e estão a fazer obras para o transformar para o turismo».
Os poucos portugueses que moram em Alfama, ou compraram as suas casas ou são inquilinos idosos. «Há pessoas de muita idade que já não podem ser despejadas apesar de estarem constantemente a sofrer bullying, porque muitas vivem sozinhas num prédio que está vocacionado para o turismo», afirma Lurdes Pinheiro. «É um sufoco para aquelas pessoas de idade viverem assim. O senhorio não os pode pôr na rua mas o resto do prédio é alojamento local. Essa pessoa, que vive ali, sofre aquilo que não devia sofrer. A chegada dos turistas com as malas de rodinhas, o barulho, o choque de culturas. Tudo isso desgasta muito os velhotes».
Alfama é, neste momento, uma zona de contenção do alojamento local. Ainda assim, as casas destinadas a turistas vão aparecendo sem que nada seja feito, de acordo com a presidente da Associação do Património e População de Alfama. «Há falta de fiscalização. Não havendo fiscalização não há cumprimento da lei».
Os mais jovens foram-se embora. «Muitos saíram por opção, porque quem decide viver no bairro é porque tem uma grande paixão por Alfama. Viver num bairro histórico tem os seus senãos. Não há um sítio para estacionar, as ruas são muito estreitinhas, as casas pequeninas. Muitos jovens arrendaram ou compraram casas noutros lados: na Penha de França, nos Olivais, e continuam perto da família com outras condições».
Outros foram mesmo empurrados para fora do bairro. «Muitos viviam com os pais ou outros familiares que morreram. Com a ‘Lei Cristas’ deixaram de ter direito a ficar com as casas. O senhorio faz um novo contrato e, na maior parte das vezes, a renda fica demasiado alta. Enquanto não alterarem este mecanismo, esta lei, enquanto não houver uma lei mais clara e que proteja os inquilinos, isto vai continuar assim», defende.
Acabou-se o convívio no café
Alguns dos que partiram gostariam de voltar para o seu bairro. Outros nem tanto. Afinal de contas, da Alfama da sua infância pouco resta. «Com a gentrificação do bairro perdeu-se muita coisa que faz falta a quem cá mora. Olhe, bancos não há nenhum. Não há mercearias, não há multibancos, só ATM que cobram taxa por cada levantamento, os transportes são deficientes. Antes, Alfama tinha a sua economia própria, dava emprego, sempre foi um bairro muito ativo, até tinha fábricas. Hoje parece Óbidos. É muito bonita mas não tem gente de cá. Por esta altura, há uns anos, saíamos e encontrávamos povo na rua. Hoje saímos e não encontramos ninguém».
Foi na viragem do século que Alfama começou a mudar e os portugueses começaram a sair. O bairro ficou sem vida e, ao percorrer as ruas estreitas, vêem-se sobretudo lojas de souvenirs e restaurantes caros. Comércio tradicional não há. «Antes tínhamos mercearias, peixarias, farmácias, a drogaria, o barbeiro, padarias, frutarias, cafés. As pessoas faziam a sua vida muito nos cafés, onde queriam saber as novidades e juntavam-se para falar. Alfama era um bairro muito solidário e, como todos se conheciam, se alguém precisasse de ajuda toda a gente sabia e apoiava». Estes negócios deram lugar a «lojas de artesanato todas iguais e a barzinhos. Alfama está toda virada para os estrangeiros», denuncia Lurdes Pinheiro.
Hoje, os portugueses são tão escassos que Lurdes conhece-os a todos pelo nome. «Por exemplo, temos a D. Maria, que vive ao pé da mercearia da Manuela, que todos os dias sai o seu bocadinho e já tem 98 anos. Tem apoio da família mas os vizinhos também ajudam». Manuela confirma: «Ainda há pouco esteve aqui na mercearia, deve ir agora a subir as escadas». Maria vive no último piso do prédio em frente à mercearia mas aguenta-se bem. «É uma senhora muito ativa. Ela é que trata da casa e prepara as suas refeições», acrescenta Manuela Faria.
Os turistas incomodam os moradores
O turismo que parecia ser uma grande oportunidade de negócios para Alfama deu em pouco. «Este turismo desenfreado, desorganizado, não valoriza o bairro. Não é um turismo pensado. Alfama sempre teve turistas, porque aparece nos roteiros como o bairro mais antigo de Lisboa, mas não de uma forma tão intensiva e que levou a esta descaracterização do bairro».
Muitas casas foram compradas por estrangeiros abonados. Mas também muitos desses desistiram de Alfama. «Havia muitos estrangeiros a querer viver em Alfama. Muitos já se foram embora porque não era isto que queriam. Queriam viver no bairro como ele era».
Paulo Amaral, militar da marinha na reserva, recorda outros tempos. «Nasci, cresci, brinquei, joguei à bola e aqui me fiz homem, pai e avô», lança, com orgulho. Conseguiu comprar a sua casa, na zona de Santo Estevão, a parte alta de Alfama, onde as casas são mais amplas. São Miguel, mais junto ao rio, pelo contrário tem ruas mais estreitas e casario exíguo. «Até há cerca de 20 anos isto era um bairro típico, onde as pessoas se conheciam todas umas às outras. Passávamos na rua e dizíamos 10 ou 15 vez ‘bom dia’, ‘boa tarde’ ou ‘boa noite’. Desde essa altura para cá, isto deixou de ser um bairro típico, passou a ser praticamente um deserto».
O antigo militar esperava a VERSA numa das esquinas de Alfama, junto a uma das típicas escadarias em calçada portuguesa. «Estou aqui há cinco minutos e, tirando vocês, não passou nenhum português. Só turistas. E, mesmo assim, nesta altura não se vê tantos. Quando chega o verão isto é um bairro de turistas a verem passar outros turistas», observa. «É um bairro onde os turistas vêm visitar turistas porque as pessoas de cá já não moram cá. Fugiram de cá porque os preços das rendas tomaram valores totalmente absurdos e as pessoas não têm capacidade de pagar».
Paulo dá o exemplo do prédio onde mora. «Éramos 12 moradores; agora somos três. Os utros oito andares são alojamento local ou ‘Airbnb’. Eu falo pelo que tenho vivenciado: moro num prédio com escadas de madeira e temos alguns problemas, porque eles entram e saem a horas inauditas. Esquecem-se, porque só ali estão temporariamente, que ali vive gente», lamenta o militar na reserva. «Tive situações de trolleys a descer as escadas, degrau a degrau, era um barulho ensurdecedor. Então na rua, principalmente no verão, é esta barulheira com os trolleys a partir das quatro da manhã, quando eles estão a sair para ir apanhar os aviões. Depois é trolleys quando eles chegam à meia-noite. O barulho é demais».
Paulo Amaral garante que «vive mal» com todas as situações com que se depara no prédio onde mora. Ainda assim, não quer abandonar a sua Alfama. «O que é que me faz continuar em Alfama? Sou de cá, a minha filha nasceu cá, os meus pais eram de cá. É a minha terra».
Teve oportunidade de sair do bairro quando se casou mas preferiu ficar. «Aliás, nessa altura, há 34 anos, nem eu nem a minha mulher alguma vez imaginámos no que isto se iria tornar». Hoje, sente algum arrependimento. «Se eu tivesse o poder da adivinhação quando casámos tinha-me ido embora daqui para fora, não ficava cá. Como infelizmente ainda não tenho esse poder, ficámos».
Guardião do Badoncali tem 100 anos
Paulo é também, um dos poucos depositários que sobram de tradições como o fado vadio ou o badoncali, o dialeto local de Alfama. «Cantar o fado tem dias. Quando eu era mais novo até cantos ao fado fazíamos, aqui nesta escadaria. O badoncali era mais quando era miúdo e, nessa altura, era mesmo a nossa ‘língua’ oficial».
Pedimos-lhe que nos dissesse uma frase em badoncali. Acanha-se. Lurdes Pinheiro intervém. «O badoncali era muito utilizado para avisar, quando alguém estava a fazer alguma maldade, que vinha a polícia. As pessoas também o falavam entre si quando não queriam que os outros entendessem a conversa. Atualmente já pouca gente sabe o dialeto. Que eu tenha conhecimento, a única pessoa que ainda fala bem o badoncali, ou o calão como dizemos aqui, é o senhor Manuel, que já tem 100 anos».
Apesar de tudo há outra tradição que nunca falha em Alfama: a Marcha Popular. Quando começam os ensaios os mais jovens voltam ao bairro que continuam a trazer no coração. «Os marchantes seguem uma tradição de família, que vai passando de avós para pais, de pais para filhos. Os que já não vivem cá, nessa altura voltam, inscrevem-se e vêm participar», conta Lurdes Pinheiro. E dá exemplos: «Tenho uma moça que tem um filho pequeno. Eles começam por ser mascotes da marcha e crescem nisto».
A neta de Manuela Faria, a dona da mercearia, ainda é pequenina mas parece já querer marchar. «A miúda dela está a ser criada no meio do bairro, já é toda alfamense. Quando vê a marcha farta-se de dançar. Eu acredito que a Madalena há de ser também uma boa marchante, quando chegar o momento. Aquilo já está no sangue, já vem da mãe e da avó».
Descemos a rua e voltamos à mercearia de Manuela Faria. «Vim morar para Alfama há 52 anos, quando casei. A minha filha, felizmente, é das poucas que também ainda continua a morar cá. A minha netinha é a minha alegria e, com certeza, que há de vir a marchar!».
Estamos a sair do bairro quando Maria Irene Pereira, 78 anos, assoma à janela. Desce as escadas para vir conversar com a VERSA. «Dantes tínhamos muito com quem falar; agora nada. Isto é só estrangeirada». O prédio onde vive era uma antiga fábrica de tecidos. Há oito casas, mas só Irene e outro português lá moram. «Vivo aqui há 60 anos. Vim para Lisboa, para casa da minha madrinha, também aqui em Alfama. Aqui fiquei e aqui casei», desvenda.
Também ela, que chegou a trabalhar numa casa de fados, nota muitas diferenças no bairro. «Mudou muita coisa. Antes a gente podia dormir com a porta só no trinco, que não havia problemas nenhuns. Agora?! Já me quiseram assaltar a porta!».
Em frente ao prédio havia uma tasca conhecida. «Era o farta-brutos. A miudagem vinha das noites e ia lá comer cozido à portuguesa. Hoje, como vê, é mais um alojamento local. É uma tristeza muito grande, porque aqui havia de tudo e as coisas eram mais baratas. Agora está tudo pela hora da morte por causa dos estrangeiros!».
Queixa-se do isolamento apesar de viver no coração de Lisboa. «Naquele tempo havia muito convívio. Qualquer coisa que era preciso pedia-se a uma vizinha e tudo vinha às portas. Agora não há aqui nada. Nesta rua havia uma sacaria, de cozer as sacas de serapilheira, um bocadinho abaixo era um talho, depois era a mercearia, mais acima havia uma adega. Tínhamos tudo, agora não temos nada! Só não me vou embora porque estou muito habituada a viver aqui». Os turistas fazem algum barulho mas Irene não se conforma: «Ralho com eles!».