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A cheia que inundou a Avenida dos Aviadores, no dia 28 de janeiro, não foi um fenómeno súbito nem imprevisível. Foi o resultado da conjugação de fatores naturais conhecidos com opções humanas concretas e adiadas até ao limite.
“Nunca vi uma coisa assim, por mais chuva que haja. As descargas das barragens foram a causa desta calamidade”, diz Jorge Pinto, dono do quiosque no meio da Avenida dos Aviadores.. “Eram seis barragens a debitar água ao mesmo tempo, numa altura em que o rio Sado estava em maré cheia”, acrescenta, apontando para a marca deixada pela água.
O mesmo diagnóstico repetiu-se nas ruas, nos cafés e nas lojas: as barragens do Sado não são geridas com a cidade em mente, mas com os arrozais no horizonte. A prioridade é quase religiosa, guardar água para regar depois. Pessoas, casas, comércio, ruas e jardins entram na categoria de dano colateral.
Na noite de 27 de janeiro, o estuário do Sado encontrava-se em preia-mar às 21h54, com uma altura de 2,77 metros, de acordo com as tábuas oficiais do Instituto Hidrográfico. No dia seguinte, a 28 de janeiro, registou-se uma nova maré cheia às 23h18, ainda mais elevada, com 2,87 metros.
As marés não são um imprevisto. São fenómenos matemáticos, públicos e calculados com antecedência. Constituem um dado básico na gestão de infraestruturas hidráulicas em estuários como o do Sado. Ainda assim, foi precisamente durante estes períodos de maior vulnerabilidade hidrológica que a cidade foi inundada, enquanto noutras zonas do país a depressão Kristin fazia outro tipo de estragos.
Oito dias antes da primeira grande inundação em Alcácer do Sal, a 21 de janeiro, realizou-se uma reunião oficial na Câmara Municipal com os responsáveis pela Associação de Regantes e Beneficiários do Vale do Sado, entidade privada que gere as barragens da região. Nessa reunião, ficou registado em comunicado oficial que as descargas seriam feitas de forma equilibrada, faseada e atempada, tendo em conta os níveis de armazenamento e a antecipação de situações de risco, com o objetivo de minimizar impactos na vida das populações.
Na prática, sabe-se agora que foi tarde demais.
Dados do portal barragens.pt mostram que, a 19 de janeiro, as barragens da bacia do Sado encontravam-se em torno dos 70% de armazenamento, descendo nos dias seguintes para valores próximos da média habitual, de cerca de 50%. Porém, a partir de 25 de janeiro, ainda antes do pico da depressão Kristin, os níveis subiram rapidamente para quase 90%.
Ou seja, quando a chuva mais intensa chegou, concentrada sobretudo nos dias 27 e 28, como mostram os dados meteorológicos, as barragens já se encontravam excessivamente cheias. Quando o pico da tempestade atingiu a região, abriu-se o que sempre se abre quando já não há alternativa: as comportas das barragens. O rio Sado recebeu volumes de água que não podia absorver e devolveu-os à cidade.
Não foi surpresa. Foi matemática.
Questionada sobre a alegada responsabilidade das descargas, a presidente da Câmara, Clarisse Campos, pede prudência: “Não devemos ir por aí”. A autarca atribui a inundação à intensidade da chuva e às alterações climáticas, sublinhando que Alcácer do Sal não registava uma cheia semelhante há mais de 40 anos.
Mas admite um facto politicamente grave: a Câmara não controla nem conhece as horas exatas das descargas, nem tem acesso a informação em tempo útil por parte da entidade que gere as barragens. “Não sei a que horas fazem as descargas. Eu só entrei ao serviço há três meses”, justifica, referindo ainda que não é técnica de proteção civil.
O Nascer do SOL tentou durante três dias chegar à fala com a Associação de Regantes e Beneficiários do Vale do Sado, nomeadamente o seu presidente, João Núncio, ou o coordenador-geral, Gonçalo Lynce Faria. Ambos se mostraram indisponíveis.
Este silêncio não esclarece, mas parece pesar na consciência.
“A segurança das pessoas perde sempre para o receio de um verão seco”, diz outra fonte ouvida pelo jornal. “O medo é sempre amigo de decisões tardias”. A gestão faz-se, assim, com os olhos no calendário agrícola e não no mapa da cidade. A água é retida por opção e libertada por desespero. Regar arrozais é estratégico, proteger pessoas parece acessório.
Neste momento, e já depois da depressão Kristin, e com Alcácer do Sal ainda parcialmente inundada, passou a estar submersa com a passagem da depressão Leonardo. A baixa da cidade e ruas circundantes estão com níveis de água superior a dois metros. Há casas alagadas, pessoas desalojadas, comércio destruído e uma população exausta.
Não há como impedir uma tempestade. Mas há, e sempre houve, forma de reduzir o impacto de fenómenos previsíveis através de planeamento, prevenção e decisões tomadas a tempo. A pergunta que fica é se alguém abriu as comportas quando já não havia margem para errar.
Em Alcácer do Sal, a água não caiu apenas do céu. Caiu, sobretudo, de escolhas feitas demasiado tarde e longe de quem vive do lado errado da barragem, transformando a cidade num mar de calamidade com consequências para todos.