terça-feira, 16 jun. 2026

Acusado de ‘assédio laboral’ e ‘irregularidades graves’, Andrade Costa deverá ser ouvido no Parlamento

Chega apresentou pedido para ouvir presidente do SUCH, nomeado em janeiro pelo Governo. E quer também a presença de Correia de Campos, atual provedor da instituição.
Acusado de ‘assédio laboral’ e ‘irregularidades graves’, Andrade Costa deverá ser ouvido no Parlamento

O Chega quer ouvir na Assembleia da República o presidente do Serviço de Utilização Comum dos Hospitais (SUCH), Carlos Andrade Costa, cuja nomeação pelo Governo tem sido contestada, incluindo acusações «assédio laboral, «intimidação» e alegado nepotismo.

O partido apresentou na sexta-feira um requerimento junto da Comissão Parlamentar de Saúde para audição, em data a fixar, de Carlos Andrade Costa. Além deste responsável, o Chega quer também ouvir o provedor do SUCH, António Correia de Campos, ex-ministro da Saúde de António Guterres e de José Sócrates.

O requerimento refere que recentemente vieram a público notícias que «alegam situações de contestação interna no SUCH», «degradação do clima organizacional, conflitos institucionais, pressão interna, e episódios de assédio moral associados à sua gestão».

«Ao mesmo tempo, inevitavelmente, surge dúvida pública, quanto aos critérios de seleção e manutenção deste dirigente [Carlos Andrade Costa]», lê-se.

O partido de André Ventura nota que «a presente audição não deve ser entendida como um juízo antecipado sobre quaisquer factos ou pessoas, mas primeiramente como um exercício legítimo de transparência, responsabilidade e fiscalização democrática».

O requerimento do Chega surge depois de a edição impressa do Nascer do SOL de 8 de maio ter noticiado que o Ministério da Saúde recebeu uma carta anónima de um «colaborador» do SUCH que diz ter «conhecimento direto» de «irregularidades graves».

A carta anónima imputa a Andrade Costa «degradação significativa na capacidade operacional da entidade» e «assédio laboral e clima de intimidação». Refere «pressão e ameaças a trabalhadores e respetivas famílias», «interrogatórios em ambiente fechado com acusações graves» e 20 contratações e nove nomeações para supostamente substituírem os da casa.

Uma parte das contratações terá sido de pessoas com «ligação» a Andrade Costa ao tempo em que dirigiu o Hospital de Vila Franca, o que insinua práticas de nepotismo, ou amiguismo.

Ao SOL, fontes internas corroboraram o teor da carta. O gabinete da ministra Ana Paula Martins notou que «não há qualquer contestação fora do usual» à nomeação de Andrade Costa e garantiu que «a grande maioria das alegações são completamente falsas».

Antes daquela notícia, o nosso jornal já tinha dado conta, em 17 de abril, que a escolha de Carlos Andrade Costa, em despacho de nomeação assinado pela ministra da Saúde e pelo ministro das Finanças, colhia críticas de dirigentes distritais do PSD.

Um historial problemático

Andrade Costa esteve à frente da Unidade Local de Saúde do Estuário do Tejo, que inclui o Hospital de Vila Franca de Xira e Centros de Saúde dos concelhos vizinhos, com uma população de mais de 250 mil pessoas. Chegou ali em 2021 pela mão da ministra Marta Temido, que pretendia alguém de confiança para reverter a parceria público-privada em Vila Franca, fazendo regressar o hospital ao setor público.

Em Vila Franca, Andrade Costa deixou um rasto de contestação, amplamente noticiado pela imprensa local, nomeadamente o jornal O Mirante.

Além de uma grávida que deu à luz numa rua do Carregado e de um idoso com Alzheimer que desapareceu do hospital e só foi encontrado em Arruda dos Vinhos, o consulado de Andrade Costa ficou marcado por queixas à ministra da Saúde assinadas por todos os autarcas de Azambuja, Alenquer, Benavente, Arruda dos Vinhos e Vila Franca, e pela aplicação de uma coima pela Entidade Reguladora da Saúde devido a incumprimento de normas na transferência de doentes.

Esta pesada herança, ainda assim, não o impediu de chegar ao SUCH. Uma fonte bem informada sobre os assuntos da instituição garantiu-nos que Andrade Costa conseguiu o lugar atual por proximidade a um ministro com grande peso político, que o terá sugerido tanto à ministra da Saúde como ao ministro das Finanças.

Só assim se explica, segundo esta fonte, que Andrade Costa tenha conseguido novamente um cargo de nomeação política, no SUCH, depois de em novembro último ter sido obrigado pelo diretor executivo do Serviço Nacional de Saúde, Álvaro Almeida, a renunciar à liderança do Hospital de Vila Franca de Xira, devido à barragem de críticas e a alegadas faltas de lealdade institucional.

Antes de Vila Franca, Andrade Costa presidiu entre 2014 e 2021 à administração do Centro Hospitalar do Médio Tejo (que em 2024 passou a chamar-se Unidade Local de Saúde do Médio Tejo e que é constituída pelos hospitais de Abrantes, Tomar e Torres Novas, além de vários Centros de Saúde).

Durante o mandato de Andrade Costa no Médio Tejo, um dos colaboradores externos do Centro Hospitalar era o advogado Gião Falcato, atualmente apresentado aos funcionários do SUCH como «advogado de outsourcing», isto é, colaborador externo.

O SUCH é uma entidade que presta serviços de manutenção, alimentação e higiene. Tem mais de quatro mil funcionários.