terça-feira, 18 ago. 2026

A profissão que desenha Lisboa está em risco de desaparecer. Câmara admite ameaça "permanente"

Há décadas que dão forma às ruas de Lisboa, mas a profissão de calceteiro enfrenta um futuro incerto. O envelhecimento da classe, a dificuldade em atrair jovens e os baixos salários alimentam o receio de que um dos ofícios mais emblemáticos da capital possa desaparecer.
A profissão que desenha Lisboa está em risco de desaparecer. Câmara admite ameaça "permanente"

Todos os dias, milhares de pessoas caminham sobre desenhos em pedra que fazem parte da identidade de Lisboa. Mas por trás da calçada portuguesa há um ofício que está a perder quem o sabe fazer.

A Câmara Municipal de Lisboa reconhece que o risco de desaparecimento da profissão de calceteiro é "permanente" e admite que renovar esta geração de profissionais é hoje um dos maiores desafios para preservar um dos maiores símbolos da cidade.

Atualmente, existem cerca de 20 calceteiros em exercício efetivo de funções, enquanto decorrem concursos para reforçar as equipas.

Um ofício que envelhece

A preocupação não está apenas no número reduzido de profissionais, mas também na idade de quem continua a exercer a profissão.

A média etária ultrapassa os 55 anos e, dentro de cerca de uma década, muitos destes trabalhadores estarão em condições de se reformar.

"Por trás da calçada estão calceteiros, que é uma classe profissional que enfrenta um enorme desafio, como todas as classes profissionais mais operacionais […], porque de facto a causa pública não tem propriamente vencimentos muito apelativos e, portanto, é o grande desafio das autarquias, juntamente com o Governo, reforçar e valorizar esta classe profissional", afirmou à Lusa a vereadora Joana Baptista.

Segundo a autarca, a Câmara reforçou este ano as equipas.

"Passámos de 20 calceteiros para 40 calceteiros, mas não é suficiente, porque na realidade a faixa etária média é muito elevada para o desempenho físico que obriga esta atividade profissional."

Quem vai continuar este trabalho?

Para o município, garantir o futuro da profissão passa por conseguir atrair jovens para uma carreira fisicamente exigente e pouco atrativa do ponto de vista salarial.

"Como é que se apela aos mais jovens para virem para esta classe profissional? Porventura, com um vencimento superior àquele que a tabela legal assim o determina, mas também com formação, e isso a CML já o faz, porque temos uma escola nacional de calceteiros que apelamos e reforçamos àquilo que é a componente formativa. Portanto, recrutamos e formamos os nossos calceteiros."

Contudo, o cenário descrito pelo Sindicato dos Trabalhadores do Município de Lisboa é diferente.

Segundo o presidente da estrutura, Nuno Almeida, a Escola de Calceteiros está "quase inativa", sem ações de formação há mais de dez anos. Também trabalhadores ouvidos pela Lusa garantem que quem entra na profissão acaba por aprender sobretudo no terreno, acompanhando colegas mais experientes.

Preservar um símbolo de Lisboa

A vereadora considera que a valorização salarial depende sobretudo do Governo.

"Isso não depende da CML, depende de uma determinação do Governo."

Apesar das dificuldades, Lisboa garante que não pretende abdicar da calçada artística portuguesa nas obras de requalificação do espaço público.

A autarquia prepara ainda a criação de um centro interpretativo dedicado à calçada portuguesa até 2029 e mantém o apoio à candidatura desta arte e do seu saber-fazer a Património Mundial da UNESCO.