A ‘oposição responsável’ que vem de dentro

Miguel Costa Matos diz que o partido saiu do Congresso de Viseu ‘no mesmo ponto em que entrou’. O jovem crítico pede mais ambição e clareza por parte  da direção do partido  e defende que o PS tem  de deixar de reagir ao Governo e apresentar um caminho mobilizador.
A ‘oposição responsável’ que vem de dentro

«O futuro começa agora» fez eco no pavilhão meio cheio do Multiusos de Viseu, no 25.º Congresso Nacional do Partido Socialista, que se iniciou com o pé esquerdo e terminou com um salto a pés juntos para tantas possibilidades que, no limite, podem revelar a impossibilidade de o PS fazer diferente - ou seja, muito pouco ou quase nada - quando se esgota a vantagem das eleições presidenciais, uma ligação pontualmente evidente no discurso de encerramento do secretário-geral, com Gustavo Cardoso e Óscar Gaspar, dois dos homens do Presidente Seguro, sentados na primeira fila.

Não se prevê que as ligações entre o PS e a Presidência venham a dissolver-se, mas é previsível que António José Seguro faça a chamada discriminação positiva relativamente ao PS e que o ‘chão comum’ não vá além da ideia de ‘estabilidade’ e ‘responsabilidade’, a que Carneiro parece ter aderido sem sacrifício aparente.

«Temos um novo ciclo pela frente e peço-vos que se empenhem na jornada que culminará na vitória nas próximas eleições legislativas», disse José Luís Carneiro, em Viseu. Daí foi até Leiria e, aí sim, encontrou um pavilhão cheio, num território assolado pelas tempestades de janeiro e fevereiro liderado por um autarca socialista, para participar em direto num programa de televisão. Não sendo um programa de informação, Carneiro mergulhou no entretenimento, sabendo antecipadamente que uma das perguntas seria: «Agora há uma ala que o critica e que lhe quer passar a perna, isso dá-lhe esperança de ser Presidente da República daqui a 10 anos? É que foi a mesma coisa que fizeram ao António José Seguro e correu bem com ele».

Carneiro, com resposta preparada, disse que aspira «a ser primeiro-ministro e não ter de esperar 10 anos». Sobre a ‘ala que o critica’ dentro do PS, nem uma referência. Mas ela existe e foi audível antes e durante o congresso - e depois. O SOL falou com o rosto mais visível dos jovens críticos ou, na expressão clássica, dos ‘jovens turcos’: Miguel Costa Matos.

 

‘Uma oposição reativa’ 

Perguntámos a Miguel Costa Matos como é que entrou e como é que saiu do Congresso de Viseu. O subscritor da moção setorial Socialismo com futuro respondeu-nos: «Acho que todos nós contávamos que o Congresso fosse um momento de reflexão, ou seja, depois de tantos meses à espera, pudéssemos fazer a reflexão que se disse que era necessário fazer após as eleições legislativas e, como parece evidente que é necessário para um partido que passou de 42% para 22%, a expectativa que tínhamos era que seria essa a ocasião em que as opções seriam claramente postas em cima da mesa. No entanto, a sensação com que fiquei, à saída do Congresso, é de alguma preocupação: saímos no mesmo ponto em que chegámos, no fundo, as opções não ficaram clarificadas», apesar «da vontade de afirmação de uma oposição mais firme por parte de José Luís Carneiro». E acrescentou: «Penso que continuará a ser não uma oposição pensada estrategicamente, mas uma oposição reativa, ou seja, caso a caso», também porque «a nossa reflexão ficou incompleta e pode correr o risco de não produzir frutos se nós não soubermos responder essencialmente a três ou quatro questões. A primeira é o que é que significa para o PS este novo paradigma do Governo se relacionar preferencialmente com o Chega».

Ainda assim, considera que há áreas em que o PS deve fazer entendimentos com o Governo, mas «as oposições sempre apresentaram propostas que demonstrassem que eram alternativas, mas não apresentam propostas em jeito de oferta ao Governo para negociar alguma coisa. Apresentam propostas ao país, querendo mostrar que são as melhores. E sobretudo criticando o Governo, e é aí que me parece que é preciso o PS encontrar a sua voz e ser capaz de dar voz aos que se sentem insatisfeitos com o Governo, como, por exemplo, aqueles que olham para a resposta a esta crise dos combustíveis e acham que o Governo está a ser poupadinho e quem está a pagar a fatura são os portugueses».

O economista e deputado socialista considera que é preciso «endurecer o discurso», mas «só se consegue endurecer o discurso definindo quais são as áreas essenciais sobre as quais o PS vai ter uma postura, não necessariamente de oposição, mas de concertação», dos chamados «acordos de regime», agora com o patrocínio do Palácio de Belém.

O deputado socialista, que foi líder da JS entre 2017 e 2019, falou ainda sobre a forma como o PS pode ser mais consequente na forma de fazer oposição. «O risco de apresentarmos todas as propostas em formato de carta e de negociação ao Governo é, por um lado, o de sermos desprezados e, por outro, o de sermos ‘destrunfados’, isto é, como já foi feito, o Governo pega nas nossas propostas e vende-as como se fossem dele. Há ainda um terceiro risco: o de sermos corresponsabilizados, ou seja, quando precisarmos de criticar o Governo pelas suas insuficiências, ouvirmos dizer: ‘Então, mas vocês estiveram com eles para aprovar isto e aquilo, vocês também são responsáveis pela política que o Governo está a fazer?’».

«Os portugueses não nos querem porque nós vamos construir mais mil ou duas mil casas públicas do que o PSD. Nós precisamos de ter um caminho diferente, que seja realmente mobilizador, não pode ser apenas ligeiramente diferente da AD. É preciso pensar os problemas pela raiz, dar uma resposta àquele centro em que, decorrido um conjunto de anos, os problemas que o afetam - seja a habitação, seja a falta de professores - continuam os mesmos. É preciso apresentar propostas com ambição e arrojo, que levantem o horizonte das pessoas, que, neste momento, andam cabisbaixas e acham que o país não consegue resolver as crises que tem».

E foram muitas as pessoas que saíram cabisbaixas do congresso de Viseu, quase resignadas à ideia de que é preciso tempo e esperar, pelo menos, os próximos três anos. «O Presidente da República já disse que só teremos eleições em 2029, e só ele poderá dissolver a Assembleia da República. É um risco, porque liberta tanto o PS como o Chega para votarem como entenderem as iniciativas do Governo, sabendo que não haverá uma crise política, mas é evidente que todas as liberdades são, ao mesmo tempo, responsabilidades», disse, acrescentando: «Sabemos que a agenda mediática não nos permite chegar a todo o lado e, portanto, o PS tem de identificar claramente quais são as suas prioridades. Não quer dizer que não tenhamos propostas para tudo e mais alguma coisa - é evidente que temos uma visão sobre tudo -, mas o português que está na rua deve saber quais são as prioridades do PS, nomeadamente o custo de vida, a habitação, a melhoria dos salários. Temos de tentar furar o ‘curto-termismo’: estamos sempre a falar das coisas para hoje, a reagir à última iniciativa que é apresentada, quando, na verdade, as pessoas têm de perceber as prioridades do PS, o que não envolve apenas uma resposta à última notícia, à última capa de jornal».

«O PS tem de voltar a encontrar as suas causas, quais são as causas que vão mobilizar os portugueses para voltar a votar no partido, para voltarem a confiar no PS». E prosseguiu: «Nós encaramos o discurso do secretário-geral como um ponto de partida promissor, ao qual é preciso dar sequência, clarificando qual é o nosso papel na oposição e insistindo na melhor definição e comunicação das nossas propostas. E, se não podemos ter pressa, também não podemos perder tempo».

Do Congresso de Viseu saiu uma lista de 151 nomes, abrangente, liderada por Inês Medeiros, autarca de Almada, mas da qual não faz parte a vereadora do PS em Lisboa Alexandra Leitão.