quinta-feira, 16 abr. 2026

A lei do mais forte

Multidões revoltadas, chuvas de pedras, vandalismo. Chamado a resolver as situações mais complicadas, o Corpo de Intervenção da PSP está habituado a lidar com a violência. Agora que celebra 50 anos, recordações não faltam e algumas cruzam-se com momentos da História recente do país.
A lei do mais forte

Muitas vezes temos de usar a força, até porque o Corpo de Intervenção é uma unidade que trabalha com a violência. Em último reduto, temos de recorrer à violência». Quem o diz é o Intendente César Pontes, comandante do Corpo de Intervenção (CI).

Foi no dia 27 de março de 1976 que esta subunidade da PSP foi, oficialmente, aberta. O primeiro polícia a lá chegar tem hoje 86 anos e ainda é visita assídua no quartel do CI, na Calçada da Ajuda, em Lisboa. «Temos um carinho especial pelo senhor Ezequiel. Gostamos muito das visitas que nos faz. Mesmo com esta idade vai muitas vezes ter connosco», confidencia o Comissário Hugo Abreu. 

Encontramos Ezequiel José Henriques durante o desfile comemorativo do cinquentenário do CI, junto ao Mosteiro dos Jerónimos, em Belém. «Sou o mais antigo de todos. Sou o número 1 desta casa», começa por dizer, sorridente. «Antes era da Polícia de Choque. Entretanto, foi criado o Corpo de Intervenção e entrei nesta casa no dia 2 de fevereiro de 1976».

Licenciado em Educação Física era, na altura, primeiro subchefe e responsável pelos treinos físicos dos candidatos à nova subunidade da polícia. «Eu é que fiz as provas físicas e selecionei o pessoal que entrou nesta casa, nessa altura». Esteve no CI entre 1976 e 2000.

Naqueles primeiros anos ainda era tempo da Reforma Agrária, com ocupações de propriedades, sobretudo no Alentejo e no Ribatejo. «O Alentejo deu-nos muito trabalho, especialmente Campo Maior, Évora e Beja. Nesses sítios éramos recebidos de toda a maneira possível e imaginária. Éramos chamados porque havia grandes confusões, agressões, furtos e não gostavam muito de nós. Atiravam-nos com pedras, com paus, tudo o que tivessem à mão. E, muitas vezes, até os militares estavam contra nós, como aconteceu em Beja».

José Francisco, 79 anos, outro antigo polícia, especifica: «No Alentejo havia confusão todos os dias. Muitas vezes chegávamos a Lisboa e já tínhamos de voltar para lá». O reformado lembra-se de ver azeite a escorrer pelas ruas «porque os ocupantes das propriedades chegavam a abrir as torneiras só para estragar o azeite. Olhe, o senhor Rui Nabeiro sofreu um bocado com eles. Ocuparam-lhe os lagares, as herdades, apedrejaram-lhe a casa onde ele morava».

Pelo país viviam-se tempos agitados, embora o PREC tivesse tido o seu fim oficial com o 25 de Novembro de 1975. Ezequiel Henriques recorda outra manifestação nos Restauradores, em Lisboa, que se orgulha de ter conseguido resolver sem o recurso à força. «A população tentou invadir a estação de metro. Quem queria ir para o trabalho não podia, porque os manifestantes estavam a tapar as entradas todas. Eu sempre tentei resolver as situações por via do diálogo e da palavra. Evitei sempre a agressão. Cheguei ao pé de um dos cabecilhas e dei-lhe 10 minutos para desocupar aquilo, explicando-lhe que não queria violência. E eles obedeceram e dispersaram!», congratula-se.

Secos e molhados

Este histórico do CI também esteve no Terreiro do Paço, no dia 21 de abril de 1989. Nessa tarde, os polícias juntaram-se, convocados pela Associação Sindical dos Profissionais de Polícia (ASP/PSP) para reivindicarem o direito a formarem um sindicato. O clima aqueceu e, a páginas tantas, foram acionados os colegas do CI. «Para mim foi um dia difícil, porque enfrentei os colegas. Quando chegámos ouvimos aqueles urros contra nós, uns recuaram mas outros avançaram. Tivemos de ter uma grande calma, fomos pela via do diálogo e só usámos os canhões de água. Nem os cães foram utilizados. Mas a senhora ponha-se no meu lugar: já viu o que é polícia contra polícia? Foi um dia muito duro e muito triste para quem era polícia». Ezequiel conforma-se: «Eu estava a cumprir o meu dever. Muita parte daqueles que estavam nos molhados fizeram parte desta casa e, naquela altura, eram contra nós».

O agente principal Jorge Luís Alexandre lembra outro incidente que opôs polícias a polícias. Foi no dia 6 de março de 2014 e os manifestantes protestavam contra os cortes salariais e o congelamento de carreiras. Na Assembleia da República, os colegas do CI tinham feito um perímetro de segurança na escadaria. «Estávamos a tentar impedir que eles invadissem a escadaria, alguns conseguiram, e para mim foi o episódio mais impactante, até agora, como elemento desta força de segurança». Jorge Alexandre tem uma explicação: «Eles estavam ali a defender os meus direitos, também. E eu estava com eles mas… não podia estar com eles», revela o polícia que é campeão europeu de polícias e bombeiros de ciclismo.

O medo dos polícias

Marvão Morais, 75 anos, outro antigo agente do CI, recorda as convulsões sindicais e sociais dos anos 70. «Na Lisnave houve confusão com o sindicato. Eles atiraram com parafusos de 30 centímetros e a malta saltava, quando saltava, quando não saltava levava com o parafuso. Ficaram muitos feridos. Foi logo no início, 76 para 77». A situação podia ter sido pior e Marvão Morais temeu pela vida. «Estivemos capazes de ser furados pelas mangueiras da areia, que era aquilo com que eles limpavam os navios. Se fizessem a projeção da água com areia contra nós furavam uma pessoa». 

Este antigo agente não se envergonha do medo. «Somos exatamente como os outros. Nós somos de carne e osso. Somos é preparados para aguentar esse tipo de pressão, no terreno. E depois, com toda a camaradagem, vem a força do querer, naquela altura de impor a democracia».

Naquele tempo o futebol também já dava algum trabalho ao CI, embora não tanto como hoje. Os equipamentos de proteção da polícia eram diferentes e protegiam menos a carne e os ossos dos que tentavam repor a ordem pública. Abílio Neiva entrou para o CI em 1980 e teve logo uma grande «aventura». «A minha primeira intervenção, como elemento do corpo de intervenção, foi num célebre jogo do Benfica, no estádio da Luz. Foi um Benfica-Setúbal no final do campeonato. Fomos chamados em cima da hora para ajudar o pessoal que já lá estava. Chegámos lá e apanhamos um problema muito grave, muitas pedras no ar. Os adeptos estavam a causar problemas no estádio e foi muito complicado».

Alguns polícias ficaram feridos. «Atualmente, o material de proteção é muito superior. Naquela época não era tão robusto. Havia muita gente a chegar à unidade e a ir para a enfermaria. Houve muitos feridos, sim. Aliás, naquela altura era frequente haver gente a ir para a enfermaria por causa das pedras, que atingiam sobretudo a zona das pernas».

Outra recordação que lhe vem à memória é a da camaradagem. «Era um ambiente fantástico entre nós. O CI era a nossa segunda casa e a nossa segunda família. Cada elemento era como se fosse um irmão. Foram os melhores anos da minha vida!».

Tumultos no Euro 2004

Fernando Noronha, 62 anos, agente principal, saiu diretamente dos paraquedistas para a polícia, em 1989. Esteve durante ano e meio nas patrulhas e depois fez o curso e entrou no CI. «Era um miúdo, tinha 26 anos», recorda. Teve situações difíceis mas há uma que lhe toca mais no coração. «Ali no início dos anos 90 houve uma grande manifestação no aeroporto, dos funcionários. Havia um colega que tinha o pai a manifestar-se mas tivemos de dar uma carga», lamenta. Também Noronha nota diferença entre os equipamentos atuais e os dessa altura. «Tínhamos um colete que era almofadado e fomos fisgados. Atiravam esferas com as fisgas e as esferas a batiam-nos no corpo! Nódoas negras não nos faltavam!»

Mais tarde, esteve no Algarve, por ocasião do Euro 2004. «Em Olhão aquilo era uma multidão de gente e nós éramos duas, três equipas. Ficámos sem munições de borracha, sem nada. Havia cadeiras, mesas, tudo a chover em cima de nós. O próprio alcatrão da estrada ficou esburacado devido às pedras da calçada que nos atiraram. Partiram-nos a viatura. Um colega apanhou com uma caneca grande de cerveja na boca e teve de ser operado ao maxilar».

Apesar de tudo, Fernando Noronha garante que nunca sentiu medo. E, perante estas situações, defende: «Eu sei que isto vai ser escrito mas também não tenho medo. Quando se dá isto é carregar! Carregar! Para isso é que nós existimos: para manter a ordem quando há o caos».

Sofás pelo ar

No dia 15 de setembro de 2012 saíram à rua, só em Lisboa, meio milhão de pessoas. Foi a grande manifestação contra a Troika e o CI esteve presente, sobretudo para prevenir qualquer incidente. O atual comandante do CI, César Pontes, estava lá. «A presença policial foi sempre numa ótica preventiva, nós nunca fomos ostensivos, até porque não tivemos grandes problemas com essas grandes massas». 

Os problemas mais sérios aconteceram mais tarde, à porta do Parlamento. «Posteriormente, em frente à Assembleia tivemos alguns problemas, mas já eram os manifestantes completamente diferentes dos manifestantes de bem que estiveram nas ruas», observa. «E houve a necessidade de intervir em uma ou duas situações, porque, de facto, os manifestantes estavam a ser agressivos contra a polícia». As agressões assumiam as formas mais variadas. «Atiravam-nos pedras da calçada, garrafas, latas de tinta, sofás, o que encontrassem. Durante uma hora e dez estivemos a aguentar, sempre numa ótica de contenção, contenção, contenção. Passada uma hora e dez, deram-nos a ordem para intervirmos e foi uma grande intervenção».

César Ponte enfrentou outras situações. Esteve na retaguarda, durante o assalto ao Banco Espírito Santo de Campolide, na tarde de 7 de agosto de 2008, nos eventos da Liga dos Campeões em 2014 e nas duas visitas do Papa Francisco a Portugal.

O CI é, ainda, chamado a atuar em cenários internacionais. A Palestina já foi um deles, de onde César Pontes também trouxe memórias. «Na Palestina havia muitas manifestações que não eram autorizadas e essas manifestações depois evoluíam sempre de uma forma desproporcional, porque havia muita repressão por parte da polícia local. Depois, tínhamos de fazer a desmobilização dos manifestantes, que é uma coisa que aqui em Portugal acontece muito pouco, porque as manifestações normalmente são autorizadas».

O segredo da invasão de S. Bento

As comemorações dos 50 anos do Corpo de Intervenção contaram ainda com um jantar de gala na Estufa Fria, em Lisboa. Ali encontrámos um gótico vitoriano vestido a rigor. «Consigo ter uma vida dupla», brinca João Dórdio, 56 anos, que também já fez parte do CI. Seguiu as pisadas do pai. «O meu pai fez parte das companhias móveis, a antiga Polícia de Choque». Mas há mais polícias na família: «Os meus irmãos, tios, primos, somos todos polícias da parte do meu pai. O CI interessou-me pela parte física, o desporto, a mobilidade, a união, a camaradagem, a parte militarizada. É uma casa completamente diferente das outras».

A manifestação de polícias, em 2014, frente à Assembleia da República foi, também um dos momentos mais marcantes da carreira de João Dórdio. O agente principal faz uma revelação que, na altura, não foi notícia. «Na noite anterior a essa carga houve uma tentativa de entrada pelos jardins da Assembleia e há um pedido de auxílio pelos colegas que faziam serviço lá. Isso não deu nas televisões. Posso dizer-lhe que houve mais pedrada nessa noite do que no dia seguinte, na manifestação». Dórdio continua: «Não havia uma única carrinha com os vidros inteiros. Foi uma chuva de pedras, de garrafas, uma coisa que nunca tinha visto até então, como polícia. Não havia justificação para isso. Os meus colegas estavam a tentar que não houvesse vandalismo ali à volta e foi dada ordem de dispersão».

Há limites que não podem ser ultrapassados. «Por muita razão que as pessoas tenham, há uma linha que separa aquilo que nós pensamos, porque todos nós pagamos contas e temos dificuldades, mas isso não justifica o vandalismo, destruição do património, não justifica agressões às pessoas que não têm nada a ver com a manifestação, e nós até podemos estar do lado deles. Mas quando nós vamos para um cenário em que já não é contestação, já não é manifestação, já é destruição, entra a reposição da ordem pública, até porque o CI tem um lema: ‘Missão Dada; Missão Cumprida’».

Sangue-frio é outra característica fundamental para quem é confrontado com estes casos. «Se nós quiséssemos era fácil: com um tiro de shotgun, com armas Taser… Mas temos de ter calma porque do outro lado há pessoas a reivindicar coisas que até podem ser justas. Além disso, temos um treino mental e não é por levar uma pedrada ou ouvir um tipo chamar-me filho da puta que vou atrás dele».

Um chá com Soares

Voltamos a outro veterano do primeiro curso do Corpo de Intervenção: José Antunes. O seu primeiro dia de trabalho na Polícia nunca lhe sairá da cabeça: 25 de Abril de 1974. Esteve como patrulheiro na esquadra do Calvário, em Lisboa, e conta que ainda antes de se ter formado o CI foram organizados dois Pelotões de Defesa Imediata que faziam «basicamente o que faz o CI», desvenda. «Quando havia situações mais complicadas éramos chamados a intervir».

Antunes vai buscar uma memória ainda mais antiga. Aconteceu sensivelmente um ano antes da formação oficial do CI. No dia 19 de maio de 1975 o jornal República foi tomado pelos tipógrafos, afetos ao PCP. «Nós até éramos de Esquerda, mas mais do lado do PS. O Mário Soares até andava lá metido na confusão, na rua. Só que naquela altura quem não era do PCP…», recorda Jorge Morais, um dos jornalistas que ficaram presos na redação durante 24 horas, naquele que ficou conhecido como o ‘Caso República’

O Pelotão de Defesa Imediata foi chamado ao local. «Nessa noite em que o jornal foi ocupado pelos tipógrafos, nós fomos para lá correr com eles, selar o jornal e libertar quem lá estava», recorda José Antunes. E foi, então, que se deu um episódio, para o polícia, «inesquecível e que ficou no meu coração». Foi nessa noite que conheceu Mário Soares. «Ele andou por ali connosco e pediu à Dr.ª Maria Barroso para nos levar umas sandes e chá, porque já ali estávamos há uma data de horas. É uma marca para a vida».

Mas se nesta noite tudo acabou bem o mesmo não aconteceu três anos depois, no 1.º de Maio de 1978, no Porto. Antunes já pertencia ao CI. «Estávamos preparados para tudo. Fomos apedrejados de tal maneira e feito, mandaram-nos com cocktails molotov, com tudo, e tivemos situações muito graves».

José Antunes temeu o pior. Nos carros havia metralhadoras G3 e um colega ficou ferido com gravidade. «Tínhamos dois carros do pelotão e, a certa altura, as pedras e os paralelos a caírem em cima de nós. O camarada que estava à minha frente levou com um paralelo mesmo no capacete e na viseira, apanhou-lhe os olhos e ficou a sangrar por todo o lado. Quando estávamos a metê-lo no carro, à espera de que a ambulância chegasse, eles tentaram invadir os carros. Tínhamos lá quinze G3 e essas armas eram perigosas. Eu tomei a atitude de pegar numa G3, mandar dois tiros para o ar, e eles tiveram medo e recuaram. Claro que foi conflituoso e muito marcante», conclui, com as lágrimas nos olhos. Porque um polícia também chora.