terça-feira, 10 fev. 2026

A história e a transformação do envio da correspondência

O declínio acentuado no uso do correio tradicional fez com que a Dinamarca deixasse oficialmente de dispor de serviço postal para envio e receção de cartas. Os tempos mudam, mas a história fica. Afinal, de que forma tem evoluído o envio de correspondência?
A história e a transformação do envio da correspondência

Há quanto tempo não recebe uma carta no correio? Ou um postal de um amigo que, ao visitar um país, se lembrou de si? Aliás, ainda abre a sua caixa de correio ou as contas seguem diretamente para o email? Durante milhares de anos, os seres humanos procuraram formas de encurtar distâncias e partilhar mensagens entre os mais diversos territórios. Mas o que hoje nos parece algo comum e fácil, passou por diversas formas. E, como o tempo não para, a tecnologia tudo transforma e as compras online continuam a crescer, a maneira de receber correspondência ou encomendas continua a evoluir, fazendo desaparecer o serviço postal tradicional.

 No dia 30 de dezembro, a PostNord - criada em 2009 com a fusão dos correios suecos e dinamarqueses - fez a última entrega de uma carta na Dinamarca, encerrando assim um serviço postal que existe no país desde 1624. A decisão foi anunciada no início de 2025:  «A PostNord entregará a sua última carta na Dinamarca no final de 2025 e, a partir de 2026, concentrará a sua atividade num único serviço central: encomendas. O nosso objetivo é tornar-nos o estafeta de encomendas preferido dos dinamarqueses. Queremos ser os melhores onde os dinamarqueses realmente precisam de nós - nas encomendas», explicou a empresa num comunicado oficial. O plano inclui 1500 despedimentos e a retirada de 1500 caixas de correio vermelhas.

Recorde-se que a Dinamarca se encontra entre os países mais digitalizados do mundo. Em 2024, o setor público dinamarquês foi classificado pelas Nações Unidas como «o mais digital do planeta pelo quarto ano consecutivo». Por outro lado, em 25 anos, o envio de cartas no país caiu mais de 90%. Apesar disso, algumas pessoas querem guardar um bocado da história. Mil caixas de correio foram colocadas à venda depois de serem retiradas das ruas. Desapareceram em três horas, por 2000 coroas dinamarquesas cada uma, cerca de 270 euros, em bom estado, e por 1500 coroas, cerca de 200 euros, as mais gastas.

Como será daqui em diante? Desde dia 1 de janeiro que o envio passou a fazer-se num ponto Dao - que já distribui correio no país -, com pagamento online ou através de aplicação. De acordo com a CNN, a recolha em casa fica disponível mediante um custo adicional. Mas desengane-se quem pensa que o envio de cartas vai desaparecer… A lei dinamarquesa obriga que exista sempre uma forma de as enviar. Escreve a mesma publicação que se a Dao deixasse de o fazer, o Estado teria de nomear outro operador. Por isso, segundo uma fonte próxima do Ministério dos Transportes «não haverá qualquer diferença prática».

Os sistemas postais mais antigos

De acordo com o Discovery Channel, o sistema postal mais antigo de que se tem notícia foi estabelecido pelos antigos egípcios por volta de 2000 a.C. No entanto, nem toda a gente podia usufruir dele. Este estava apenas à disposição dos faraós, «permitindo-lhes comunicar decretos pelos seus vastos territórios». O serviço era composto por uma rede de mensageiros, considerado «a espinha dorsal do governo», garantindo que «as ordens fluíssem sem problemas ao longo do Nilo e além». Os mensageiros faziam o percurso a pé, enfrentavam grandes distâncias, intempéries e problemas de percalço, mas nem isso os fazia vacilar na sua missão. Sabe-se que eram utilizadas tábuas hieroglíficas de pedra e, um dos documentos postais mais antigos do qual se tem notícia, foi uma carta enviada pelo faraó Amenófis IV (1350-1334 A.C.) a Kadashman Kharbe, rei de Babilónia.

Também na China por volta de 1000 a.C., sob a dinastia Zhou, haviam mensageiros encarregues de «distribuir o correio». Estes utilizavam cavalos que trocavam em estações destinadas ao efeito com o objetivo de garantir que as mensagens circulassem rapidamente por todo o império. O sistema acabou por isso, por se expandir e melhorar, fazendo com que os animais ​​e os seus cavaleiros descansassem ​​em cada paragem. Além disso, eram utilizados sinais de fumo para comunicar ordens e informações oficiais.

As Chapar Khaneh e o Cursus Publicus

Apesar dessas civilizações já utilizarem formas de entrega de correspondências antes da fundação do Império Persa no século VI a.C. (estendia-se desde o Mar Egeu até ao rio Indo), de acordo com a BBC,  foram os persas do Irão que levaram a ideia de um sistema postal a patamares nunca antes vistos. Esse sistema que se estabeleceu durante o reinado de Ciro, o Grande, e foi consolidado por Dario I, no século V a.C., era feito através de uma rede de estações de correio chamadas «chapar khaneh» que se encontravam fixadas ao longo das principais estradas do império. Aí, os mensageiros tinham a possibilidade de trocar de animal e descansar, garantindo que as mensagens fossem transmitidas de forma rápida e contínua. Para que o percurso fosse feito de forma eficiente eram escolhidos cavaleiros experientes e bem treinados que conheciam bem os caminhos.

Houve depois inovações administrativas, como a adoção de uma linguagem e um formato de mensagem padronizados. O sistema era tão eficiente que se diz que uma viagem que normalmente durava três meses a pé era reduzida a apenas uma semana. Segundo a a mesma publicação, vários investigadores garantem que uma mensagem podia ser enviada de Susa, a capital administrativa do império no oeste do Irão, para Sardis, no que hoje é o oeste da Turquia, em sete a nove dias, seguindo a Estrada Real, «uma espécie de rodovia que ligava as duas cidades». «Historicamente, a Estrada Real Persa foi a primeira grande estrutura terrestre concebida para explorar plenamente o transporte e o revezamento de cavalos», escreveu Luc-Normand Tellier no livro História do Mundo Urbano: Uma Perspetiva Económica e Geográfica.

O historiador grego Heródoto, descreveu o sistema como «incomparável em eficiência»: «Não há nada mortal que complete uma missão mais rapidamente do que esses mensageiros, graças à engenhosidade dos persas...  Nem a neve, nem a chuva, nem o calor, nem a escuridão da noite impedem esses mensageiros de completarem rapidamente as rotas designadas», garantiu. «O primeiro mensageiro entrega a sua carga ao segundo, o segundo ao terceiro, e daí ela passa de mão em mão», explicou. Além de servir para transmitir ordens reais e informações administrativas, o sistema era utilizado para reunir notícias de regiões distantes, monitorizar revoltas, facilitar o comércio e manter o império unido.

O sistema persa inspirou depois outras civilizações. Por exemplo, Alexandre, o Grande, manteve algumas das estações de correio. E, séculos depois, a ideia de estações de mensageiros e rotas regulares foi adaptada em impérios como o Romano e o Otomano.

De acordo com o Discovery Channel, outro grande salto na história postal ocorreu nos primórdios da Roma Imperial, quando o Imperador Augusto estabeleceu o «cursus publicus», ou «via pública». Inspirado no «chapar khaneh persa», incluía um sistema de revezamento, com estações espalhadas ao longo das famosas estradas romanas, permitindo que os mensageiros entregassem mensagens por toda a Europa, Norte da África e Ásia Menor. «Com um sistema de inspeção para manter a eficiência e evitar o uso indevido, os mensageiros geralmente percorriam cerca de 80 quilómetros por dia», explica o canal lembrando que «não havia nada de público nessa rede de entrega, e qualquer pessoa apanhada a utilizá-la, exceto funcionários do governo e militares, estava sujeita a severas punições». A velocidade com que os mensageiros conseguiam viajar durante o auge da administração só foi igualada na Europa no século XIX: afirma-se que era possível percorrer mais de 270 quilómetros (170 milhas) num dia e uma noite.

Na Idade Média surgiram diversos serviços estatais e privados de envio de documentos e correspondências. Uma das tendências mais significativas desse período foi o desenvolvimento do comércio internacional e, com ele, o crescimento da correspondência comercial. Um dos principais exemplos foi o Metzger Post, ou correio do açougueiro, na Alemanha. Os açougueiros viajavam constantemente para comprar carne e começaram a levar cartas consigo, mantendo assim o comércio ativo numa altura em que os serviços postais oficiais estavam fragmentados.

O 1º selo postal do mundo

 No final desse período, Itália transformou-se num centro de comércio e inovação. O país possuía o sistema postal mais extenso e regular a partir de cidades como Florença, Génova e Siena. Haviam rotas fixas, horários, tarifas e até mesmo albergues para os mensageiros.

Esse sistema foi evoluindo e, em 1840, nasceu a maior invenção de todas: o selo postal (o famoso Penny Black), fruto das reformas do sistema postal propostas por Sir Rowland Hill, criadas na Inglaterra. Este mostrava o valor pago pelo envio das cartas. O envio de correspondências passou assim a ser acessível e eficiente, levando a um aumento significativo no volume postal.  Recorde-se que antes disso, o envio era complexo e caro, muitas vezes pago pelo destinatário que tinha o direito de o recusar caso não desejasse pagar. De acordo com a página oficial dos CTT, foi o próprio Rowland Hill quem desenhou o primeiro selo do mundo. «Impresso a negro e com o valor de um péni (a duodécima parte de um xelim), começou a circular no dia 1 de maio de 1840 e ganhou logo a confiança da população», adianta.

Porém, tanto o crescimento das trocas postais internacionais, como a ausência de uma estrutura postal unificada tornou-se um obstáculo. De acordo com Discovery Channel, «as diferentes tarifas e regulamentações entre os países tornavam a correspondência internacional complexa e ineficiente». Para remediar essa situação, em 1874, foi criada a União Postal Geral, que mais tarde se tornaria a União Postal Universal (UPU). Esta acabou por padronizar os serviços postais internacionais, «criando um território postal único para a troca recíproca de correspondências». Introduziu ainda tarifas uniformes e procedimentos simplificados, «facilitando enormemente a comunicação global». A UPU é uma agência especializada das Nações Unidas desde 1948.

Com o século XX os avanços foram ainda maiores e mais rápidos: os aviões revolucionaram a entrega de correspondências, com o primeiro serviço regular de correio aéreo internacional tendo início entre Londres e Paris em 1919.

Em Portugal

A primeira versão daquilo que são hoje os CTT remonta a 1520 quando o rei D. Manuel I criou o Correio Público e nomeou Luís Homem para o cargo de Correio-Mor. O serviço foi melhorando e permitia a troca de correio para os territórios do império português. Em 1657, foi criado o cargo de Correio-Mor das Cartas do Mar para os domínios de África e da América, mas foi só em 1800 que surgiu o verdadeiro cargo de «carteiro», quando o então Correio-Mor, Mascarenhas Neto criou o diploma referente à distribuição domiciliária de correio em Lisboa. Foram então criados 17 distritos postais e identificadas ruas e números de casas. Com o mesmo diploma estabeleceu-se ainda a necessidade de se contratar «portadores», «moços vigorosos e fiéis» para levarem a correspondência à casa das pessoas.

 Em território nacional, o primeiro selo entrou em circulação em 1 de julho de 1853. Foi desenhado por D. Fernando de Saxe-Coburgo e tinha o perfil da rainha D. Maria II, sua esposa.

Em 1978, a criação do código postal de quatro dígitos (terminando em zero para as capitais de distrito e em cinco para as que não o eram) agilizou a mecanização do serviço, enquanto a utilização do avião postal «rompeu as fronteiras dos continentes» e «permitiu o envio e receção de uma mensagem escrita entre dois continentes com pouco mais de um dia de intervalo».