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De Lisboa para a Lourinhã
Aos 31 anos, o Padre Afonso tem um percurso de vida que facilmente se cruza com o de muitos jovens com quem lida diariamente. Lisboeta, típico cresceu entre os seus 18 primos na zona da estrela e diz ter vindo de uma família católica que o “educou na fé e na esperança”.
É sportinguista e o desporto esteve sempre presente na sua vida, e diz ter crescido a jogar futebol e a querer ser “o Cristiano Ronaldo, na altura, queria ser um grande jogador profissional.” Mais tarde no secundário jogava Rugby e era federado.
Ao recordar a infância e adolescência diz ter sido uma criança muito energética, caraterística que hoje mantém, está sempre de um lado para o outro. Na escola, "era um rapaz bastante malcomportado. Fui várias vezes mandado para a rua, não queria saber da catequese, larguei a missa e a confissão.”
Pela altura do secundário teve “uma experiência forte de Deus, converti-me, voltei à igreja, voltei à missa por mim mesmo". Afirmou ter começado nessa altura a pôr Deus em primeiro lugar na sua vida e que encontrou “uma abundância, uma honra e uma profundidade que outrora não tinha descoberto”.
A partir desse momento começou a ser melhor aluno, tirando a melhor nota no exame nacional na altura, conseguindo média para entrar no curso de Direito. Antes de se sentir chamado para o sacerdócio, queria ser advogado e teve um namoro, que achou que ia resultar em casamento.
No entanto, já tinha visto alguns sinais na adolescência de que se calhar queria ter uma vida entregue inteiramente a Deus. Contudo não ligou. "Várias vezes fiz de conta que não ouvia e às vezes abria a bíblia ao calhas e vinha uma frase: ‘Vem, segue-me’, mas eu não ligava”.
Fez Erasmus em Roma e quando regressou, deu-se a mudança. “Jesus começou a ser muito mais explícito”, recorda. E foi quando já tinha acabado o curso de Direito e estava a fazer o mestrado para ser professor de Direito, em Ciências Criminais e Direito Penal, que percebeu com “clareza”, que estava a ser chamado a ser padre.
Afonso decidiu ir para o seminário e lembra que foi “um tempo de aprofundamento da vocação” e que esta tem sempre as suas provações. “houve vezes em que passei momentos de confrontação, discernimento, de perceção se de facto era por ali ou não, esses momentos foram importantes para dar passos seguros e certos" diz.
Colocado atualmente na Lourinhã por indicação do Patriarca de Lisboa, o sacerdote encontrou nesta vila a sua missão, sentindo-se muito contente com a comunidade.
Foi precisamente de um grupo de jovens desta paróquia que surgiu o desafio de tornar as redes sociais da Igreja mais atrativas e direcionadas às novas gerações. Inicialmente cético, o padre Afonso temia que a exposição nas redes gerasse vaidade e "um certo amor à imagem", o que seria contrário à discrição que a vida sacerdotal exige. “o facto de se publicitarem e de se exporem pode também trazer uma falsa conceção de si mesmos”. “A imagem que nos deve ocupar a mente e o coração é Jesus”, acrescenta.
Contudo, rapidamente percebeu que era uma nova missão que Deus lhe pedia, pois se queria evangelizar "todos os lugares da terra" tinha de incluir o "lugar digital". Este esforço alinhou-se com o propósito do "Projeto Lázaro", uma iniciativa cujo objetivo central é “ressuscitar no coração das pessoas o desejo de Deus”.
A Linguagem das redes sociais e a fama do Cristiano Ronaldo
O segredo desta evangelização no TikTok relaciona-se com a recusa da "piada fácil" e com o esforço de adaptação da mensagem.
Sendo um padre jovem - que convive com os miúdos nas escolas, a cantar a brincar com eles e a jogar futebol -, Afonso capta as expressões do momento como "Sigma", "Aura" e “Six-Seven” que aproveita para utilizar como ganchos contemporâneos para a atenção do público.
A aposta do Tiktok foca-se em simplificar a mensagem católica ao criar analogias com o dia a dia. O vídeo que catapultou o projeto foi logo o primeiro que gravou. “Antes do catecismo que ia dar, pedi a um miúdo que trouxesse a bola”, começa por explicar. Em seguida fez uma analogia com Cristiano Ronaldo que é “único” e que nós não precisamos de ser como ele para termos valor, e em dois takes foi tudo o que bastou para viralizar e começar a aparecer na televisão e ser apelidado de ‘Padre Cristiano Ronaldo’. “Ganhou uma repercussão tal que, a partir daí, pensei que, de facto, o caminho fosse passar a esse tipo de mensagens com uma vertente muito firme e católica, mas também atual”, afirma.
Para o padre Afonso, adequar a linguagem à atualidade é um esforço necessário da Igreja para tornar a palavra percetível, afirmando que teve muitos elogios pelo seu trabalho no TikTok. “O que houve mais é agradecimentos, porque muita gente também tem referido que a presença equilibrada de um padre nas redes sociais, do modo verdadeiro, honesto e justo, pode ser um meio de dar a conhecer a palavra, de expor a fé, de cativar também os mais novos, ao, traduzir a linguagem da fé para a linguagem que eles também usam, para que também a fé seja percetível e compreensível” conta.
Considera que os vídeos fazem realmente a diferença e que vê, e que lhe dizem também, que está a reaproximar pessoas distantes da fé.
Bastidores Exclusivos
Embora o padre Afonso seja a carta mais visível, o projeto depende também de mais pessoas. Lá mais para o centro desta engrenagem digital, encontramos o responsável pela gravação e edição. Tomás Henriques, jovem de 23 anos, que o padre Afonso referiu como essencial para o sucesso dos vídeos”. Sem ele também isto não acontecia”.
Segundo Tomás, o processo é orgânico. “O padre Afonso tem a fala bem estruturada, comunica muito bem, e torna-se bastante simples de filmar, ele traz algumas ideias, dentro daquilo que quer passar e às vezes com uma coisinha simples, nós fazemos um vídeo, e muitas vezes um, dois takes é o suficiente e temos a filmagem feita".
A espontaneidade dita as regras, como no dia em que o simples facto de Tomás ter trazido o equipamento de gravação inspirou o padre Afonso. “Uma vez fizemos um vídeo com um tripé, que trouxe para a gravação e ele disse que poderia representar o ‘tripé da fé’ e fizemos um vídeo com isso”.
“O objetivo é sempre pegar em coisinhas do dia-a-dia e fazermos o nosso vídeo, sem que seja forçado, lá está, sem querer cair em piada, e nisso o padre Afonso é excelente”, explica.
Mas a história de Tomás vai muito além da edição de vídeo. O seu convite para integrar a equipa, feito por outro sacerdote, o padre Diogo, aconteceu durante a sua primeira confissão ao fim de meses de afastamento da Igreja. Tomás acabou por encontrar neste projeto a sua própria via de reaproximação à espiritualidade. "Tanto senti a necessidade de me aproximar como de passar a mensagem" diz, sublinhando que o contacto diário com este trabalho solidificou o seu regresso à fé.
Por fim, reafirma que o objetivo do projeto é “simplesmente aproximar as pessoas com coisas do nosso dia-a-dia” e de fazer com que as “pessoas se aproximem da igreja, que voltem à missa, que ouçam a palavra e que sigam o caminho de Deus”.
O Regresso à Fé
O esforço conjunto do padre Afonso e de Tomás está a dar frutos visíveis que ultrapassam as meras visualizações, e no final da entrevista o padre deixou um convite às pessoas: “Sejam sinceras com os desejos mais profundos do vosso coração, de eternidade, de felicidade”, e defende que se forem verdadeiramente sinceras, “sérias com a vida”, irão descobrir “que existe um criador que as ama, que as quer bem”.