sexta-feira, 13 mar. 2026

A farmacovigilância é feita de sofrimento humano

Vacina deixou de ser recomendada às crianças. Para algumas, a precaução do Estado chegou tarde demais.
A farmacovigilância é feita de sofrimento humano

Fiquem os leitores precavidos para as emoções contidas neste texto. É doloroso ver a Leonor na sua cadeira de rodas, a receber da mãe duas provas de amor em simultâneo: alimentos líquidos por uma sonda cravada no estômago e beijos no rosto com borbulhas de adolescente. Ela sofreu uma morte súbita e foi ressuscitada, por milagre ou absurdo, no dia 21 de novembro de 2021. Ficou para sempre a viver no mundo vegetal, numa instituição de cuidados continuados, onde os pais abriram uma cafetaria, para estarem sempre com ela. Filha única, é agora a mais preciosa flor do casal madeirense.

Fez 18 anos no dia 9 de janeiro de 2025. Um dia sem alegria nem festa, como todos os outros. «Agora tenho uma filha que é a minha filha na mesma, mas é outra Leonor. É muito complicado», sussurra a mãe, Susana Reis, com água salgada na voz. Era uma criança saudável, feliz a estudar e a dançar ballet. Antes de começar o ano letivo, a escola emitiu um comunicado: a vacinação contra a covid-19 era «obrigatória» para todas as crianças. Pela primeira vez na vida, Leonor mostrou medo. «Mãe, isto não é perigoso?», perguntou, «muitas vezes». No dia 18 de agosto foi vacinada, porque «tinha de ser, sem isso não havia escola, nem poderíamos viajar. Não se podia fazer nada». 

Os primeiros sintomas foram dores paralisantes no joelho, que o médico de família interpretou como sendo «do crescimento». E crises de cansaço e fadiga, cada vez mais frequentes. Muitas vezes, faltava a Leonor força para subir escadas ou nadar, desporto que ela amava.

O relatório médico, assinado pela cardiologista Teresa Gomes Mota, sustenta que a miocardite pode ser discreta e até «assintomática». Estão descritos na literatura científica casos de atividade inflamatória no coração «seis meses depois da toma da vacina». A bateria de exames a que foi sujeita não detetou quaisquer vírus para explicar a doença. A nota de alta do Hospital Dr. Nélio Mendonça relata «paragem cardíaca» e «miocardite», ambas de «causa não especificada». Compilados estes factos, Teresa Gomes Mota conclui que «existe um nexo de causalidade provável entre a vacinação contra a covid-19 e a presença de miocardite e morte súbita (ressuscitada, com sequelas muito graves) na paciente de 14 anos, anteriormente saudável».

Leonor é uma flor resistente. O coração dela voltou a ser saudável, o que está comprovado por diversos exames. O problema foi a morte súbita. Estava a tirar uma selfie, à mesa do almoço de domingo, em casa da avó, quando caiu para o lado. Esteve 18 minutos a ser reanimada pela equipa de emergência médica, com rajadas desesperadas de desfibrilhador e injeções de adrenalina. Tempo demais do outro lado. Normalmente, em casos como o dela, a morte leva o seu trabalho até ao fim.

O PÕE E TIRA DA VACINA

Em 9 de julho de 2021, o comité de segurança da Agência Europeia do Medicamento (EMA) concluiu que havia evidência suficiente para estabelecer uma associação causal entre as vacinas mRNA contra a covid-19 e casos de miocardite e pericardite. Em julho, as bulas desses medicamentos passaram a identificar essas doenças como «casos raros» de efeitos adversos.

Até dezembro de 2022, data do último relatório sobre efeitos adversos às vacinas covid-19, o Infarmed recebeu queixas de que 50 crianças, dos 5 aos 11 anos, e mais 127, até aos 18 anos, sofreram lesões classificadas como «graves» após a vacinação. No caso de Leonor, não ocorreu a nenhum médico assistente, ou do hospital, notificar a possível reação adversa. Foi o pai a fazê-lo.

O relatório de Teresa Gomes Mota critica a passividade dos colegas e mostra indignação com as conclusões oficiais do Infarmed sobre o desfecho do caso: «Dores do joelho - causa desconhecida. Desmaio, taquicardia, miocardite: cura». Na base de dados VAERS, dos Estados Unidos, com o regulador português como fonte, a notificação é classificada como «grave».

Em dezembro de 2022, a Direção-Geral da Saúde (DGS) emitiu um alerta aos profissionais de saúde para «casos muito raros» de «eventuais sintomas de miocardite e pericardite» em crianças inoculadas com a vacina pediátrica, indicada dos 5 aos 11 anos. Foi um primeiro sinal, a dar razão aos receios do Colégio de Pediatra da Ordem dos Médicos, que valeram um processo disciplinar ao seu presidente. Só dois anos depois, em outubro de 2024, se deu um surpreendente volte-face: a DGS passou a excluir as crianças da vacinação sazonal contra a covid-19.

O SOL perguntou à DGS se essa decisão resultou dos dados de farmacovigilância. A resposta foi negativa. «No caso do grupo etário dos 6 meses aos 17 anos de idade, a não recomendação universal, no momento atual, do esquema vacinal primário e de reforço na população pediátrica saudável, não está relacionada com a segurança das vacinas. As vacinas são seguras. No entanto, com base na evidência atualmente disponível, não se observa, como no passado, um custo-benefício que justifique a universalização da vacinação primária ou do reforço sazonal», respondeu, por escrito, a diretora-geral da Saúde. Em lugar de saúde pública, o critério terá sido, afinal, económico. Rita Sá Machado recusou o convite para uma entrevista.