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O Centro de Informação Antivenenos (CIAV) registou, em 2025, 842 casos de intoxicações intencionais entre jovens, um aumento de cerca de 20% face ao ano anterior. A maioria dos episódios envolveu medicamentos, sobretudo ansiolíticos, sedativos, hipnóticos e antidepressivos.
Os dados, divulgados pelo Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), revelam que o CIAV recebeu 26.174 chamadas relacionadas com exposição humana a produtos potencialmente tóxicos. Destas, 9.339 envolveram crianças, sendo que 60,67% tinham menos de cinco anos.
Medicamentos lideram entre os principais tóxicos
Em 38,3% das situações houve intencionalidade na exposição ao tóxico. Na faixa etária dos 10 aos 15 anos foram contabilizados 842 casos.
A via digestiva foi responsável por 79,6% das ocorrências (21.401 casos).
Entre os principais agentes envolvidos destacam-se:
Ansiolíticos/sedativos/hipnóticos (41,94%)
Antidepressivos (30,18%)
Antipsicóticos (21,82%)
Entre outros produtos surgem ainda substâncias de abuso — incluindo intoxicações alcoólicas —, lixívias e detergentes.
“Os medicamentos são o principal agente”
A coordenadora do CIAV sublinhou o aumento das intoxicações intencionais entre jovens dos 10 aos 18 anos.
“Muitas destas crianças já estão medicadas para tratar situações de ansiedade ou eventualmente depressão, e por vezes recorrem a estes medicamentos e fazem uma ingestão mais elevada intencionalmente”, explicou Fátima Rato, citada pela agência Lusa.
As chamadas para o CIAV partem maioritariamente do domicílio, mas também de hospitais e escolas. Em alguns casos, a ingestão ocorre em casa e os sintomas manifestam-se já em contexto escolar, sendo os professores ou funcionários a contactar o centro.
A responsável apelou a pais e escolas para que falem com os jovens sobre os riscos associados.
Intoxicações em menores de cinco anos continuam elevadas
Fátima Rato alertou ainda para a persistência de intoxicações em crianças com menos de cinco anos.
“Muitas vezes não se dá conta que a criança afinal já consegue abrir uma embalagem, chegar a um medicamento. Os xaropes são doces, são apelativos, e as crianças têm muita tendência para os ingerir, não tendo a mínima noção do risco que estão a correr”, afirmou.
Algumas vitaminas, com aspeto semelhante a gomas, são ingeridas em grandes quantidades — por vezes 20 ou 30 de uma só vez. O mesmo acontece com cápsulas de detergente para máquinas de roupa e loiça, cujas cores vivas e textura gelatinosa as tornam particularmente atrativas.
Crescem as chamadas, mas quase metade resolvida sem hospital
Em 2025, o CIAV registou um crescimento global de 5,15% no número de contactos: 26.147 consultas diretamente relacionadas com exposição e 1.128 pedidos de informação e pareceres técnicos.
No momento do contacto, 46,1% dos casos (12.004) apresentavam sintomas, maioritariamente ligeiros (76,03%), associados a baixa toxicidade ou contacto precoce com o centro.
Em 46% das situações (11.840 casos), o aconselhamento do CIAV permitiu resolver o episódio sem recurso a unidades de saúde.
O CIAV — o único centro de intoxicações existente em Portugal — funciona 24 horas por dia através do número gratuito 800 250 250.
O INEM e o CIAV recomendam guardar medicamentos e produtos perigosos fora do alcance das crianças, nas embalagens originais, cumprir rigorosamente a prescrição médica e estar atento à saúde mental de familiares e amigos, como forma de prevenir intoxicações intencionais.