sexta-feira, 17 abr. 2026

"Vive para nos atormentar". Jovem acusa mãe ligada ao Chega de violência e perseguição por ser homossexual

Miguel Salazar descreve situações de violência que sofreu por a mãe querer "garantir que não arderá no inferno depois de morrer por aceitar que tem um filho gay".
"Vive para nos atormentar". Jovem acusa mãe ligada ao Chega de violência e perseguição por ser homossexual

Miguel Salazar resolveu publicar um extenso texto nas suas redes sociais a propósito da revogação da lei que permite a mudança de género na Assembleia da República na última sexta-feira. O jovem é filho de Maria Helena Costa, presidente da Associação Família Conservadora e membro da concelhia do Chega da Póvoa de Varzim (em 2021 integrou o gabinete de Estudos do Chega) a quem chama de "fascista lunática" e volta a acusar de o ter submetido a "terapia" por ser homossexual.

"Por mais que tenha vindo a ignorar a existência de quem me deu à luz - Maria Helena Costa -, percebo que o ódio que a consome não parou no momento em que me libertei de toda a violência desta fascista lunática que vive cada dia para nos atormentar, desde que descobriu que sou gay", escreve quando começa a referir-se à sua progenitora.

No texto, Miguel Salazar revela que sofreu "insultos, estalos, puxões de cabelo, gritaria, milhentas discussões até às tantas da noite", além de ameaças de que o expulsaria de casa e proibiria de se relacionar com pessoas da comunidade LGBTI+. Fala ainda em "menorização e diabolização da sua existência" e refere que a ideologia da sua mãe "não iria parar em si".

Miguel relata toda a sua história desde os 16 anos, altura em que se assumiu como homossexual. "Ela achava que eu não tinha idade para me assumir como gay. 'Ele diz que é gay'. Eu só tinha idade para a APAV confirmar ao meu treinador que eu sofria de violência doméstica e para me pré-diagnosticarem, no Centro Gis, com ansiedade e depressão resultantes do ambiente a que a ideóloga do Chega e deputada à Assembleia Municipal da Póvoa de Varzim me submeteu", relata.

Maria Helena Costa é autora de inúmeros livros sobre ideologia de género, os quais Miguel diz serem "homofóbicos e transfóbicos sem qualquer respaldo científico".

Miguel aborda ainda a "paixão" da mãe por Rita Matias, a quem se refere como "a sua miniatura" e diz que a mãe é "aplaudida por André Ventura". "E nos dois dias em que se debateu a vida de pessoas trans, ali estava a Maria Helena", afirma.

"Sentada nas galerias da Assembleia da República, sedenta por ver materializada a sua luta pela opressão de quem nunca lhe fez mal, para fazer às pessoas LGBTI+ deste país tão mal ou pior do que o que me fez a mim. Enquanto ali estava, a deputada Rita Matias apontava para ela e para o seu gangue de fanáticos fascistas, descrevendo-os desde a tribuna como 'bons pais' e 'boas mães'", retrata o que aconteceu na Assembleia da República.

"Para a Rita Matias, a Maria Helena Costa é uma boa mãe, mesmo ela tendo conseguido a proeza de me fazer sentir vontade de tirar a minha própria vida", remata.

Miguel Salazar recorda ainda a traição do pai - "candidato pelo Chega nas últimas eleições autárquicas na lista por Argivai" - que, diz, ambos agora escondem e fingem ser "felizes para sempre". "Mas mais importante para ela do que defender-me e proteger-me, era garantir que não arderá no inferno depois de morrer por aceitar que tem um filho gay", afirma.

O jovem admite que gostava de eliminar do pensamento a sua progenitora. "Por ser impossível, tenho vindo a ignorar sucessivamente a sua existência e a sua militância odiosa e visceralmente hipócrita, mas o país acabou de recuar graças também aos contributos diretos e indiretos da minha mãe na redação das propostas aprovadas no dia 20 de março. Agora, a vida, a segurança e os direitos humanos das pessoas trans, a quem devo a minha vida, estarão em risco", diz, referindo-se aos seus amigos trans que o terão acolhido após a violência que alega ter sofrido pela mãe.

"Interpretação abusiva e desproporcionada". O esclarecimento da coordenadora da concelhia da Póvoa de Varzim

À revista Sábado, que noticiou as declarações do jovem, foi enviado um esclarecimento assinado por Sónia Vieira de Carvalho, Coordenadora da Concelhia da Póvoa de Varzim, que explica que "Maria Helena Costa não é dirigente da concelhia da Póvoa de Varzim, mas sim apenas membro da mesma".

No esclarecimento explicitam ainda que as situações relatas por Miguel Salazar são "anteriores à própria formação do partido Chega, o que torna ainda mais incompreensível a associação". "Tal enquadramento não corresponde à realidade e configura uma ligação forçada e descontextualizada", garantem.

Criticam ainda Miguel Salazar por ter exposto "situações de natureza pessoa e familiar", garantindo que está apenas a tentar imputar responsabilidades ao partido numa "intepretação abusiva e desproporcionada".

"Importa ainda referir que dentro de qualquer partido existem inúmeras realidades familiares diversas, incluindo pessoas com filhos homossexuais, sem que tal tenha qualquer relação com a sua posição política ou com a estrutura partidária. Misturar estes planos é não só incorreto como intelectualmente desonesto", conclui o esclarecimento da Coordenadora da Concelhia da Póvoa de Varzim.