segunda-feira, 17 ago. 2026

"Um grupo de crime organizado capturou o Estado português": André Ventura escreve carta a Luís Montenegro e pede demissão de Luís Neves

O líder do Chega enviou uma carta ao primeiro-ministro. A missiva, a que o SOL teve acesso, defende que a permanência do ministro da Administração Interna compromete a confiança nas instituições, acusa o Governo de não agir perante a gravidade da situação e apela a Montenegro para tomar uma decisão.
"Um grupo de crime organizado capturou o Estado português": André Ventura escreve carta a Luís Montenegro e pede demissão de Luís Neves

O presidente do Chega, André Ventura, enviou uma carta ao primeiro-ministro, Luís Montenegro, na qual pede a demissão do ministro da Administração Interna, Luís Neves, defendendo que a sua permanência no Governo compromete a credibilidade das instituições e a autoridade do Estado.

Na carta a que o SOL teve acesso, Ventura afirma que escreve "sem qualquer intuito pessoal ou de natureza político-partidária", mas na qualidade de líder do maior partido da oposição, sustentando que PSD e Chega têm uma "responsabilidade primeira e sagrada" de proteger as instituições democráticas acima das disputas partidárias.

O líder do Chega recorda os entendimentos alcançados entre os dois partidos em matérias como a descida do IRC, o IRS Jovem, a lei da nacionalidade, a lei dos estrangeiros, o regime das heranças ou a denominada "lei das burcas", sublinhando que, apesar das divergências noutras áreas, foi sempre preservada "a relação de confiança e a proteção das instituições democráticas".

Ventura diz que caso do MAI alterou relação institucional

Segundo André Ventura, essa relação ficou comprometida pela situação que envolve o ministro da Administração Interna.

Na carta, o presidente do Chega refere que as notícias conhecidas nas últimas semanas "comprometem gravemente a confiança dos portugueses nas instituições" e afirma que transmitem a ideia de que "um grupo de crime organizado capturou o Estado português", ressalvando esperar que essa perceção esteja errada.

Ventura acusa ainda Luís Neves de ter perdido a autoridade política necessária para exercer funções, alegando que a continuidade do ministro "arrastará irremediavelmente" o Governo para uma situação de "cumplicidade criminosa."

Apelo direto ao primeiro-ministro

Ao longo da carta, André Ventura dirige vários apelos a Luís Montenegro, defendendo que "o poder político democrático jamais pode estar capturado ou silenciado perante fenómenos criminosos" e afirmando que o primeiro-ministro "não pode ter medo de agir".

O líder do Chega considera que manter Luís Neves no cargo prejudica a imagem do Executivo e questiona como poderá o ministro continuar a tutelar as forças de segurança perante as suspeitas que, segundo diz, recaem sobre si.

"Como pode o Ministro que tutelou a PJ, uma instituição de incontornável prestígio, estar sob suspeita de condicionar essa polícia para proveito próprio e arrastar a sua imagem institucional para o lodo?", questionou. "Como pode ser garantido o regular funcionamento das instituições se há suspeitas de ligação entre o Ministro das polícias e as investigações ao crime organizado mais violento e destruidor?"

Miguel Macedo usado como exemplo

Ventura recorda também o antigo ministro da Administração Interna, Miguel Macedo, que se demitiu em 2014 na sequência da Operação Labirinto, embora tenha sido posteriormente absolvido.

Na carta, defende que esse gesto demonstrou que "as instituições estão sempre acima da vontade e do desejo pessoal", considerando que a situação atual é, na sua perspetiva, "muito mais grave".

Reunião com o Presidente da República

Na parte final da missiva, André Ventura refere a reunião mais recente com o Presidente da República, António José Seguro, afirmando ter saído desse encontro ainda mais convicto da necessidade de afastar Luís Neves do Governo.

"Fiquei ainda mais convencido do que é preciso fazer neste momento.", revelou.

Caso isso não aconteça, escreve, poderá significar que "as instituições em Portugal estão já completamente capturadas por correntes obscuras e subterrâneas de poder e de criminalidade".

Até ao momento, nem Montenegro nem o Ministério da Administração Interna reagiram publicamente ao conteúdo da carta. Nos últimos dias, contudo, o primeiro-ministro reiterou que mantém "plena confiança política" em Luís Neves, rejeitando as acusações feitas pelo Chega.