Hugo Soares foi o primeiro protagonista do segundo momento da rentrée do PSD, a 22.ª edição da Universidade de Verão do partido, em Castelo de Vide (Portalegre), repetindo a inquietação já expressa pelo líder do partido, Luís Montenegro, no primeiro momento da rentrée, no Pontal: a de que os media andam a esconder os sucessos do Governo em «notas de rodapé».
Também por isso, o secretário-geral chamou a si a responsabilidade de não só elogiar o primeiro-ministro e o Executivo, mas de enfatizar a impreparação da oposição e dos líderes do Chega e do Partido Socialista. E porque os sucessos do Governo, muito provavelmente, se esgotam em meia dúzia de linhas, Hugo Soares dedicou o seu tempo a criticar quem «navega no populismo», evitando assim adiantar o que o PSD vai fazer para viabilizar o Orçamento do Estado para 2027 - o que terá de fazer com um dos dois partidos da oposição que considera «cada vez mais parecidos». «Há irresponsabilidade, muita irresponsabilidade, mas há sobretudo uma impreparação brutal na oposição em Portugal. Nos dois maiores partidos da oposição, que estão cada vez mais parecidos», acusou, apontando que ambos revelam incapacidade para se afirmarem como alternativa ao Governo da AD.
No dia seguinte, coube ao ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, orador convidado de uma palestra sobre ‘O que se passa na Europa?’, repetir a jogada - desta vez com um argumento internacional. Fazendo questão de reiterar as palavras de Soares, Rangel sustentou que Portugal não pode ser governado «por demagogos», numa referência direta a André Ventura, nem por quem faz «políticas delicodoces» sem capacidade para antecipar crises como a migratória, com foco em José Luís Carneiro.
O ministro aproveitou ainda a plateia de Castelo de Vide para defender duas decisões do Governo que têm gerado polémica - a entrada do Estado no capital da REN e a compra de fragatas -, enquadrando-as como «operações de soberania» numa Europa que, depois do apagão elétrico de abril, já não pode dar como garantida a segurança energética.
Questionado sobre outro tema candente da política interna que queima o Governo - o incómodo ministro da Administração Interna, Luís Neves -, Rangel optou pela proverbial ambiguidade diplomática: não pediu a saída nem antecipou a manutenção do ministro, dizendo que só o primeiro-ministro tem competência para decidir uma eventual remodelação, também porque «ninguém tem o acesso à informação e a visão que tem o primeiro-ministro».
Outro dos protagonistas foi Luís Marques Mendes, que participou, ao lado da jornalista e comentadora Maria João Avillez, num jantar-conferência de homenagem a Francisco Pinto Balsemão. À chegada a Castelo de Vide tinha garantido que não faria comentário político - mas não resistiu, na última resposta da noite, a comentar a situação nacional: «Eu olho às vezes para a vida política nacional e parece que vamos ter eleições nos próximos meses. É tudo num clima de crispação, da direita à esquerda, um clima quase de campanha eleitoral». Na sua primeira intervenção pública desde a campanha presidencial de janeiro - em que ficou em quinto lugar, com 11% dos votos -, o ex-candidato presidencial deixou também em aberto um regresso ao comentário político nas televisões.
O cartaz de convidados inclui ainda o antigo líder do CDS-PP Paulo Portas, no sábado, e o socialista João Soares, na quinta-feira. Entretanto, a ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, foi outra das oradoras e, questionada sobre o movimento das mulheres conservadoras de direita, respondeu: «Enquanto uma mulher estiver a pensar que roupa é que usa para sair de casa, ou em que rua é que circula em função da iluminação, ou a ganhar menos do que os homens no mercado de trabalho, continuam é a faltar feministas mais ativas».
A iniciativa termina no domingo com o discurso de encerramento de Luís Montenegro, líder do PSD e primeiro-ministro - e logo veremos se volta ao tema da «censura moderna».