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Como é que uma ‘recatada’ professora universitária aceita dar a cara por André Ventura e o Chega?
Se diz “recatada” no sentido de não gostar de holofotes, é verdade. Mas há muitos anos que participo em causas que entendo serem relevantes e, naturalmente, faço-o fora do espaço académico, que não deve ser um espaço contaminado por qualquer espécie de militância. Essas causas, neste momento e no panorama político português, são incorporadas por André Ventura.
Perdeu amigos pelas suas posições públicas em defesa de Ventura?
Não, até agora nem um. Tenho amigos de esquerda e sobretudo muitos amigos da chamada direita de que a esquerda gosta. Também fiz bons amigos na cumplicidade que resulta de um espírito de “resistência”, de estar do mesmo lado da barricada (às vezes barricadas solitárias). Uma das vantagens de assumir que a essência da política é o conflito é precisamente conter o conflito no domínio da política.
Qual a razão para André Ventura ser considerado, por muitos, anti-democrático e ser um perigo para a sociedade?
Parece-me, antes de mais, que a nossa sociedade ainda tem um lado pouco democrático sob uma enorme hegemonia cultural da esquerda, que está porém a mudar. Temos uma ideia apoucada da liberdade – note-se, por exemplo, que num Museu dedicado à luta pela liberdade, temos uma pessoa que desconhece o que foram os gulags. Lidamos mal com o contraditório e só admitimos, para além dos chavões redondinhos que de tão invocados já não querem dizer nada, os devaneios da esquerda radical. Acho que os “intelectuais” do regime ilustram bem isto.
André Ventura veio incomodar este status quo. Representa, em Portugal, uma fórmula disruptiva que temos visto aparecer em outras latitudes, e que resulta de um diagnóstico de declínio (político e geopolítico, mas também cultural e civilizacional), e da vontade de agir contra esse declínio. Vimos isso com Trump, Meloni, Milei…Todos eles chegaram e afirmaram-se politicamente desconcertando, atirando pedras para um charco onde as águas estavam paradas. Isto acontece num tempo marcado pela aceleração do tempo e do combate político. Um tempo interessante, mas delicado.
André Ventura não é uma ameaça à democracia, mas vem abalar os grandes consensos, anunciando que a política está de volta. Também não é um perigo para a sociedade, mas obriga-nos a pensar que sociedade e que país desejamos para nós, para os nossos filhos e netos. E isso incomoda. E sobretudo faz com que já não possamos só invocar em abstratos conceitos como “a democracia”, a “liberdade”, o “humanismo”. Não será democrático ver tantos portugueses que estavam desencantados e afastados da política a votar, outra vez, com vontade e convicção? (veja-se os círculos da emigração, ou alguns bairros periféricos de Lisboa); não será a “liberdade” eu poder dizer que só as mulheres menstruam sem ter medo de ser cancelada ou até mesmo presa? (acontece não muito longe de Portugal, com o alto patrocínio dos comparsas ideológicos de muitos dos nossos “democratas”). Não será o humanismo reconhecer que o amor humano é ordenado, e que do mesmo modo que amamos mais os nossos filhos do que os filhos dos outros, também estaremos mais empenhados no futuro do nosso país do que com o futuro dos outros países?
Quando conheceu o líder do Chega o que lhe agradou mais? E menos?
A coragem. A coragem é a grande virtude política deste tempo, e André Ventura é um homem corajoso. Para além disso, tem uma enorme inteligência e intuição política. No meu lado “recatado” (recorro aqui às suas palavras), talvez não me sinta sempre tão à vontade com a fórmula disruptiva e confrontacional de André Ventura. Mas tenho de reconhecer que não é “recatadamente” e pedindo licença que se fazem e comunicam os diagnósticos necessários à transformação do país.
Sente que hoje é proibido gostar de Deus, da pátria e da família?
Sinto que é motivo de escândalo dizê-lo. Do mesmo modo que a frase de Meloni - (“Sono Giorgia, sono una donna, sono una madre, sono italiana, sono cristiana”) - gera grande horror entre o “antifascismo” militante. A consternação com essa trilogia é sintomática da superficialidade e ignorância do debate político. A frase original é de Giuseppe Mazzini, um republicano, democrata e revolucionário, que foi uma figura central do Rissorgimento italiano. E é uma ideia muito simples, e muito bonita: a humanidade é, na sua larga maioria, composta por pessoas com fé, com uma pátria, e uma família. Vivemos, e realizamo-nos, enquanto portadores de um legado e em lealdades concêntricas. Depois, a frase seria apropriada (as boas ideias tendem a ser apropriadas), e tornou-se também tríade no Estado Novo. Espanta-me sempre a forma como o “lado de lá” agita essa frase. Não sou uma saudosista do Estado Novo, até porque nunca o vivi; sou uma fervorosa democrata (demais até, segundo alguns liberais), e interessa-me um conservadorismo de convicções dependente de uma adesão livre muito mais do que o conservadorismo da vigilância dos costumes, do “parece mal”, ou dos casacos de tweed. Num certo sentido, ironicamente, o “Deus, pátria, e família” é o novo “é proibido proibir”.
Como encara a rispidez, regra geral, dos comentadores televisivos em relação às suas posições nesses mesmos debates?
A divergência, sobre as coisas que realmente importam, é o maior sinal de liberdade. Compreendo que haja muita gente que discorde das posições que eu defendo, porque radicam as suas posições em conceções antropológicas, políticas, filosóficas diferentes das minhas. Mas também existem posições que não radicam em nada, são atos performativos. Para isso tenho muito pouca paciência.
Boa parte dos indefetíveis de André Ventura querem-no mais como primeiro-ministro do que como Presidente da República. A Teresa gostava mais de o ver onde?
Eu gostava de ver André Ventura em São Bento. Compreendo que isso, com um “centro-direita” colonizado pela esquerda na hora da escolha (essa grande hora da política), é ainda difícil. Por isso, espero no próximo dia 8 de fevereiro ver André Ventura em Belém.
Faz parte do Governo Sombra do Chega. Se André Ventura for eleito Presidente da República admite inscrever-se no Chega e disputar a liderança do partido?
Não.
A sua mãe foi uma destacada política do CDS/PP. O seu pai é considerado um dos ideólogos do Chega. Revê-se mais no Chega do que no CDS. Porquê?
Primeiro, o meu pai não é um ideólogo do Chega - terá seguramente muitos leitores no Chega, mas é bastante mais abrangente e transversal. A importância dos meus pais, neste contexto político, foi permitir-me crescer a discutir ideias e a conversar “sobre tudo do humano e do divino” em enorme liberdade. E isso é um grande privilégio.
Dito isto, entendo que o CH é hoje o único partido, no espetro político português, que representa uma direita sem adversativas, que não pensa e não fala como a esquerda. Isso é uma novidade e é fundamental para a democracia.