Se nas autárquicas fosse possível fazer 'geringonças' teria feito uma coligação com o Chega para liderar a Câmara da Amadora?
Compreendo a pergunta, mas a mesma refere-se a uma impossibilidade e, como prefiro sempre cogitar dentro do que as coisas são, oferece-se dizer apenas que tendo ficado a uma “unha negra” do meu adversário político, farei o possível e impossível para ultrapassar essa diferença com trabalho, transparência e muita resiliência. São quase 30 anos de poder e caciquismos instalados. Muitos deram a Amadora por perdida para a inevitabilidade socialista. O que conseguimos provar é que, com muito trabalho e proximidade dos munícipes, mesmo sem nenhuma experiência política, os munícipes brindaram-nos com o melhor resultado eleitoral alguma vez alcançado na oposição. Seja como for e porque não fujo de nada, menos ainda de perguntas, é importante lembrar que acordos políticos não são privilégio apenas para a esquerda e extrema-esquerda, sendo certo que o divisionismo à direita serve apenas aquelas. Porém, no poder local a questão não se deve centrar em que força politica é esta ou aquela, com quem podemos trabalhar. Outrossim, quem é esta ou aquela pessoa, com quem podemos trabalhar. Não tem nada a ver com politica. Tem a ver com pessoas. Não teria nada contra trabalhar com uma pessoa do PS, da CDU ou do Chega, desde que percebesse que estão aqui para servir verdadeiramente a população e não para se servir.
Olhe, por exemplo, trabalharia todos os dias com o senhor presidente Joaquim Raposo, um visionário da nossa cidade e que tanto fez por ela.
Depois dele, porém, há um vazio total. Um descaso estarrecedor e uma complacência com a mediocridade verdadeiramente abjeta.
Algumas das suas ideias são polémicas. Sente receio de andar nas ruas da Amadora?
Não. Todos sabem onde moro. Já recebi cartas anónimas com ameaças de morte na minha caixa postal e não passei a olhar para trás do meu ombro. Como sou advogada, basta ir ao site da ordem dos Advogados, pesquisar pelo nome e aparece lá – inacreditavelmente – um conjunto de dados pessoais, contactos, morada, endereços eletrónicos e, dessa forma, o acesso à minha pessoa é facilitado. Mensagens eletrónicas então…são frequentes. Mas, confesso, recebo mais de pessoas e dar-me os parabéns pela coragem do que a insultar ou ameaçar. É importante não nos calarmos só porque uma corja de cobardes nos quer intimidar num rebanho silencioso. A maldade não prospera por ser forte. Prospera porque os bons optam por nada dizer ou fazer, em face do seu surgimento e/ou crescimento. Não contem comigo para esse peditório. Tenho dois filhos. Esta é a minha Pátria. Amadora a cidade que escolhi. Não foi um acaso. Foi uma escolha. Sei bem o legado que lhe quero deixar.
Pratica boxe e judo. Isso dá-lhe segurança para enfrentar eventuais ameaças?
Bom, na verdade, creio que a educação que tive é que me deu a segurança para enfrentar ameaças. A capacidade de me indignar com a injustiça, mas sobretudo a coragem para lhe por termo, é algo que o meu Pai sempre incutiu, incansavelmente, a mim e ao meu irmão. A convicção de que tudo podemos e de que os limites somos nós que os estabelecemos, devendo ser sobretudo morais. Acho mesmo que a coragem é dos traços de personalidade mais raros na portugalidade actual. No mundo em geral, aliás. Agora, naturalmente, ajuda termos “muletas” para enfrentar as ameaças se tivermos de nos confrontar com a sua concretização. É evidente. Sejam elas o boxe, o judo, ou a arma de fogo (cuja licença tenho). Mas, é difícil conceber ter de recorrer a elas, nesta idade. Não valerá a pena no geral. Não vale a pena oferecer resistência, se lhe querem furtar um objeto, só porque tem um cinturão negro em judo. Já valerá a pena, digo eu, disparar um pprojétil se lhe invadirem a casa de madrugada. Não o vêm cumprimentar ou fazer uma bela surpresa, posso assegurar-lhe.
Acusam-na de estar muito próxima das ideias do Chega, nomeadamente no que diz respeito à castração física dos pedófilos. O que a separa do partido de André Ventura?
Eu sempre achei é que o Chega é que estava muito próxima de mim… Eu já cá estava antes do partido ter sido criado. E já dizia o que dizia, sem sequer imaginar que me candidataria à nossa Amadora, pelo único partido ao qual aderi, em 2021, e em que sempre votei: o PPD/PSD.
Enquanto advogada, entendo que a terapia medicamentosa de controlo da líbido para reincidentes comitentes de crimes de abuso sexual de crianças, e de abuso sexual de menores dependentes (pedófilos), não é incompatível com a Constituição. Entendo a terapia medicamentosa de controlo da líbido como medida penal adequada apenas aplicável no restrito universo de reincidentes pedófilos com algumas doenças do foro psiquiátrico, denominadas parafilias – assim classificadas de acordo com a Classificação Internacional das Doenças (CID-10), de 1993 – clinicamente e devidamente diagnosticadas e atestadas, e em contexto de pena judicial transitada em julgado. A terapia medicamentosa de controlo da líbido é um processo reversível, de administração de medicamentos hormonais destinados à redução ou inibição da libido, controlando assim a pulsão sexual incontrolável e patológica dirigida contra crianças. Este processo é uma terapia, é reversível, e não constitui qualquer forma de esterilização. Este processo não implica qualquer mutilação física, não depende de qualquer cirurgia, e não é fisicamente invasivo.
A este respeito subscrevo a posição defendida pelo Dr. Afonso de Albuquerque (psiquiatra, fundador da Associação Portuguesa de Terapia do Comportamento e da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica) em como esta medida “constitui a forma mais eficaz de tratamento das parafilias, conseguindo-se uma redução acentuada e continuada da excitação parafílica e do comportamento recidivante. Enquanto o doente está encarcerado, não é necessário juntar aos outros dois tratamentos o bloqueador da testosterona, o qual deverá ser iniciado logo que a libertação esteja iminente”. Esta terapia deveria ter necessariamente uma vertente cognitiva comportamental coadjuvante do processo farmacológico. Estando esta medida prevista nas legislações de países tão dispares como o Reino Unido, a Dinamarca, República Checa, Canadá, diversos Estados Norte Americanos, Israel, Rússia, Estónia, Nova Zelândia, Coreia do Sul, Polónia e muitos outros, não se vislumbra o fundamento para acusá-la de ser um retrocesso civilizacional…
Defendo igualmente o reforço da Saúde Mental como componente essencial do direito constitucional à Saúde, e também como forma de prevenção do fenómeno criminal. Entendo por isso que o Estado não se pode demitir da supervisão e seguimento destes doentes, exigindo-se unidades médicas especializadas e que mantenham estreitas ligações com os sistemas judicial, prisional e médico-legal. É precisamente esta ligação que necessita de ser reforçada em Portugal, como já acontece normalmente em vários países da União Europeia e no Canadá.
O seu principal 'apoiante' foi Pedro Passos Coelho. Isso prejudica a sua comunicação com a direção do partido?
Que seria! O partido em que milito é democrático. Os seus valores fundamentais centram-se no humanismo, na liberdade e na solidariedade. Devo aliás dizer que, em abono da verdade, nunca, mas nunca mesmo, houve um só momento em que pedi para falar com o presidente do meu partido – Dr. Luís Montenegro - e o desejo deixou de ser atendido. E o pedido foi sempre feito diretamente para o seu contacto pessoal, cuja gentileza teve de partilhar comigo. Menos de seis meses apenas, depois de tomar posse, estava eu sentada na sua frente, na sede nacional, momento em que selamos um acordo que nunca foi desonrado, não obstante vontades de terceiros nesse sentido. O mesmo devo dizer do secretário-geral. Aliás, não fossem eles e, muito do bom que pude fazer, nunca se teria concretizado.
Acredita que à terceira será de vez? Isto é, vai voltar a concorrer à Câmara da Amadora? Se sim, qual o seu grande desafio?
Acredito, sinceramente e, por isso mesmo, naturalmente, cá estarei em 2029, se Deus Quiser. O meu grande desafio já começou em 2021. Diria assim: Toda boa colheita exige paciência e suor, mas quem tem certeza do que planta, não teme a colheita que faz esquecer a dor do plantio. 2029 será portanto a colheita.
Recentemente, disse dos 'influenceres' o que o Maomé não disse do toucinho. A sua exposição televisiva não faz de si uma 'influencer'?
Não. De todo. Eu vivo do meu trabalho e trabalho, de facto.
É filha de um homem branco e de uma mulata, além de ter uma avó negra. Por que acha que alguns a querem rotular de racista?
A esquerda toda, temeu a corajosa escolha que o PPD/PSD fez, da minha pessoa, enquanto candidata para a Amadora em 2021. Sabiam que as coisas nunca mais seriam as mesmas – e não foram. À mingua de argumentos, a cáfila de escribas avençados da esquerda, em muitos órgãos de comunicação social, partiu para o ataque pessoal, o insulto gratuito e a mentira. Deploro e rejeito nos termos mais categóricos qualquer acusação de racismo ou de xenofobia. E sou estruturalmente, e geneticamente, antirracista. Considero-me uma mulher feminista, cosmopolita e aberta ao mundo. Entendo que o que a população de origem estrangeira precisa é de políticas concretas de inclusão, de integração, de promoção de igualdade de oportunidades e do reconhecimento do seu trabalho e do seu mérito. Considero que Portugal não é um país racista, apesar de existirem, infelizmente, portugueses racistas. A esse respeito considero que o racismo é um mal universal que deve ser moralmente combatido sem quaisquer hesitações, e em todos os contextos sociais e geográficos. Aquilo que tenho denunciado junto da opinião pública é que a coberto do repúdio a um mal moral que a todos nos deve unir e mobilizar, se instale entre nós uma agenda política extremista e perniciosa, porquanto divisiva da sociedade portuguesa, e enfraquecedora do consenso liberal e democrático. Hoje, mais do que nunca, torna-se importante defender com convicção e energia o espaço liberal e democrático essencial à prosperidade das sociedades modernas, e à sobrevivência de qualquer democracia ocidental. Defendo a igualdade de direitos e deveres de todos, independentemente da sua origem, da sua etnia, do seu género, e da sua orientação sexual.
Ficou a pouco mais de dois mil votos do PS. Sente que teve o apoio dos afrodescendentes?
Tive o apoio de quem trabalha, aspira à paz, ordem e tranquilidades públicas. Dentro desses apoiantes estão pessoas, cada uma com a sua individualidade e independentemente da sua origem.
Os terrenos da Cova da Moura são particulares. Algum dia o problema será resolvido em toda a sua extensão?
Só comigo será resolvido. Doa a quem doer. O executivo socialista , evidente e comprovadamente, não pretende resolver o problema. Pelo contrário. A Cova da Moura é um saco de votos cada vez mais precioso. Perpetuá-lo, é assegurar a dificuldade da mudança que os Amadorenses anseiam há muito e bem merecem.
Fala oito línguas e também é advogada. Na Amadora as diferentes comunidades estão bem integradas?
Eu gostaria muito que me preguntasse se a comunidade portuguesa na Amadora está bem integrada na nossa cidade…
O que pensa do movimento woke?
Um cancro a ser obliterado sem misericórdia: promove a polarização social, suprime a liberdade de expressão e o objetivo assenta na divisão em vez da unidade.
Tendo surgido originalmente na comunidade afro-americana para indicar "estar alerta" contra a injustiça racial, fez mais contra a própria comunidade do que fez bem, por ela. A cultura do Cancelamento, com perseguição pública de quem diverge de certas ideias, a supressão do debate, com linchamento virtual que substitui o diálogo saudável, a classificação das pessoas estritamente como "opressores" ou "vítimas", a erosão da Meritocracia, com a priorização de quotas de identidade sobre a competência individual, a hiper vigilância Linguística, com patrulhamento excessivo de palavras e termos do dia a dia, a mania obsessiva de reescrever a História com julgamento de figuras do passado com a moral do presente, apresentando-se sempre institucionalmente descrentes com a consequente perda de confiança nas escolas, empresas e governos, tudo isto, é profundamente pernicioso e tem de ser combatido.
Quais são as suas referências políticas, passadas ou presentes, a nível nacional e internacional?
Margarte Thatcher, Benazir Butto, Indira Ghandi, Olaf Palme e Barak Obama.
Depois de algumas tentativas conseguiu ser mãe, de gémeos. Após ser mãe ficou ainda com a lágrima mais fácil?
Sem sombra de dúvida. E neles, conheci o único medo que tenho: não estar cá para os proteger, sempre, sempre, sempre. Depois de ter sido mãe, tenho a sensação que ando com o coração na rua. O meu ventrículo esquerdo e o meu ventrículo direito, expostos. São a única razão no mundo capaz de me fazer dar uma resposta absolutamente diferente da que dei acima, sobre o judo, o boxe e as armas. E sem nenhum arrependimento.