Só 2742 portugueses votaram nos PALOP

Apesar da fraca participação dos portugueses que vivem e trabalham nos PALOP, em Moçambique e Angola os expatriatos são acusados de racismo por terem votado em Ventura
Só 2742 portugueses votaram nos PALOP

As contas da primeira volta das eleições presidenciais, à semelhança de quaisquer outras, permitem leituras para todos os gostos e feitios (ver infografias). Se em Portugal o segundo lugar de André Ventura, atrás de António José Seguro, está a unir todos aqueles que não concordam com o líder do Chega – apelando ao voto na segunda volta em Seguro –, já no espaço da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) a ‘união’ é outra, com muitos comentários a visarem os chamados expatriados, classificados de ‘racistas’ e ‘xenófobos’. «E esta!!! Quase 50% dos portugueses residentes em Angola votaram em André Ventura, que é contra os imigrantes em Portugal, particularmente angolanos. Então eles trabalham cá, ganham a vida deles cá e são favoráveis a liderança portuguesa de quem é contra a presença de angolanos em Portugal!!!??? Assim está bom!?», lê-se num grupo de WhatsApp de falantes de português.

Recenseados longe da realidade

O desabafo nem corresponde à verdade, pois quem foi o mais votado em Angola foi João Cotrim de Figueiredo, com 422 votos, que correspondem a 34,45%, seguido de António José Seguro com 330. André Ventura aparece em terceiro, com 252. A confusão dos números tem a sua graça, pois os resultados do consulado de Luanda só foram conhecidos ontem, quinta-feira. De facto, em Benguela, Ventura conseguiu 42,06% dos votos, com 45 boletins com a cruz ao lado da sua cara.

Convém também esclarecer que, em muitos dos casos, o número de pessoas inscritas nada tem a ver com o número de portugueses que efetivamente vive nesses países. Muitos optam por não se recensearem por razões várias, nomeadamente por causa da carta de condução portuguesa, por questões fiscais, além de que um número considerável de emigrantes vive em províncias onde não há mesas de votos.

O mesmo se passa em Moçambique ou no Brasil, bem como um pouco por todo o mundo, onde há relatos de portugueses que tiveram que apanhar o avião para ir votar. A juntar á distãncia há também alguma desorganização em alguns consulados, que acusaram longas filas para se votar. Mas continuemos nas críticas dos PALOP, dando voz a Moçambique, onde circula nas redes sociais, algumas de académicos, a seguinte frase: «30% dos emigrantes portugueses em Moçambique votaram contra emigrantes no seu país». Nos dois consulados, Maputo e Beira, estavam inscritos 8.984 eleitores, tendo apenas 798 votado. 240 em André Ventura, 198 em João Cotrim de Figueiredo, 163 em António José Seguro, 98 no almirante Gouveia e Melo, 62 em Marques Mendes, 14 em Catarina Martins, 10 em António Filipe, cinco em Jorge Pinto e... em Manuel João Vieira! Calcula-se que vivam cerca de 15 mil portugueses em Moçambique.

Resumindo, no mundo dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), António José Seguro venceu em três países, Cabo_Verde, 334 votos de 608 votantes; Guiné-Bissau, com 12 votos de 30 possíveis, e São Tomé e Príncipe, com 40 votos de 75 votantes. Já João Cotrim de Figueiredo ganhou em Angola, como referido, e André Ventura foi o vencedor em Moçambique, com os tais 240 votos. Mas se alargarmos à CPLP, então Ventura ganha no Brasil, onde há 303.670 inscritos, tendo votado apenas 5.647 portugueses, com o líder do Chega a conseguir convencer 2.726 ‘sambistas’, com uma percentagem muito próxima dos 50%.

E foi isso que desagradou à esquerda brasileira que não esquece os ataques que Ventura desferiu em Lula da Silva quando este visitou Portugal. Para o site infoMoney, «entre os portugueses residentes no Brasil, a eleição presidencial portuguesa foi marcada por uma vitória expressiva da extrema-direita. André Ventura, fundador e principal nome do Chega, liderou a votação nos consulados brasileiros com 48,81% dos votos, desempenho muito superior ao registrado por ele no resultado geral em Portugal». O jornalista concluía que «o resultado reforça a força do discurso da extrema-direita entre portugueses que vivem no Brasil, especialmente em pautas ligadas a imigração, identidade nacional e críticas às elites políticas tradicionais».

Empate na Arábia Saudita

Para concluir a análise do mundo que fala português, em Timor-Leste foi António José Seguro que ‘ganhou’, com 50 votos de 135 inscritos. Ventura ficou em segundo com 22.

Por falar em concluir, são 14h54 minutos de quinta-feira e a Comissão Nacional de Eleições (CNE) ainda não conseguiu apurar os votos do consulado da Costa do Marfim, tendo colocado há poucas horas os números da Arábia Saudita, onde houve um empate, 30 para António José Seguro e para João Cotrim de Figueiredo. André Ventura alcançou 12, o almirante ficou-se pelo número de Cristiano Ronaldo e Manuel João Vieira conseguiu tantos votos como Marques Mendes: 5. Diga-se que a CNE nem por sinais de fumo explicou ao nosso jornal a razão destes atrasos, quando estão tão poucos votos em causa.

É mais ou menos garantido que ninguém consegue dizer, com 100% de certeza, qual é o número de emigrantes portugueses espalhados pelo mundo. Há quem fale em dois milhões e há quem diga que são muito mais. Se olharmos apenas para o número de recenseados, cidadãos com mais de 18 anos, concluímos que em África estão muito poucos portugueses e que no denominado círculo da América, excluindo o Brasil, é os Estados Unidos da América que tem mais lusos: 76.397 inscritos e habilitados a votar, embora só o tenham feito 1.531. Segue-se o_Canadá, com 64.357 inscritos e 1.434 votantes, fechando o pódio a Venezuela, com 55.823 inscritos e 1.864 votantes.

Ventura ganha fora de Portugal

Como o mundo está dividido em quatro círculos, Europa, África, Ásia e Oceânia, e América, olhando para os resultados totais, constata-se que Ventura ganhou em três ‘continentes’. Na Europa, conseguiu convencer 21.572 portugueses a votarem em si, enquanto o segundo, António_José Seguro se ficou pelos 13.025. Mas se ganhasse quem venceu em mais países, seria António José Seguro o vencedor, com 14 nações no bolso. João Cotrim de Figueiredo ficou em segundo, com oito países.

Já em África a história não foi muito diferente, no que diz respeito aos resultados finais, tendo Ventura alcançado 1.690 votos e Seguro 952, mas no que diz respeito ao ‘campeonato’ dos países, Ventura conseguiu sete e António_José Seguro, cinco. Indo para a América, André Ventura conseguiu 5.364 votos e António José Seguro 2.170, ‘conquistando’ sete países contra três de João Cotrim de Figueiredo. Por fim, na história dos continentes, Marques Mendes pode cantar vitória na Ásia e Oceânia, onde obteve 1.179 votos, de 4.115 votantes, embora em países tenha sido João Cotrim de Figueiredo a conquistar quatro países. Seguro ficou, de novo, em segundo, com 872 votos.

Para terminar o texto, um dado, no mínimo, curioso. No consulado da Indonésia só votaram cinco pessoas, e os votos distribuíram-se por André Ventura, António José Seguro, Gouveia e Melo, Cotrim de Figueiredo e... Manuel João Vieira! Se os votos foram só do pessoal do consulado calculo que Paulo Rangel não tenha ficado muito contente.