segunda-feira, 14 set. 2026

Seguro pede mais investimento do Estado no interior

O Presidente da República, António José Seguro, pediu mais atenção e investimento do Estado no interior e na raia, alertando para o despovoamento, envelhecimento e distância dos centros de decisão. Em Vila Nova de Cerveira, destacou também o papel da arte e da Bienal
Seguro pede mais investimento do Estado no interior

O Presidente da República, António José Seguro, defendeu “mais atenção e investimento” do Estado nos territórios do interior e da raia, alertando para os desafios provocados pelo envelhecimento da população, pelo despovoamento e pela distância dos centros de decisão.

“Um país coeso não se mede pela força das suas capitais, mas pela vitalidade dos seus territórios”, afirmou o chefe de Estado, durante um discurso na Câmara de Vila Nova de Cerveira, no distrito de Viana do Castelo.

Para Seguro, Portugal precisa de comunidades “que resistam, que se reinventem, que atraiam quem vem de fora e não deixem ir quem quer ficar”.

O Presidente considerou que os problemas enfrentados pelos territórios do interior e da raia, como Vila Nova de Cerveira, “exigem do Estado central mais atenção, mais investimento e mais confiança nas autarquias”, por serem estas que “conhecem melhor do que ninguém as suas gentes e as suas necessidades”.

“Ser pequeno em população não é ser pequeno em ambição”, sublinhou, apontando Vila Nova de Cerveira como exemplo dessa realidade.

Seguro destaca importância da Bienal de Cerveira

O Presidente da República visitou a 24.ª edição da Bienal Internacional de Arte de Cerveira (BIAC), que decorre até ao final de dezembro, e considerou que o evento demonstra que é possível criar e manter instituições de referência fora dos principais centros urbanos.

“A Bienal é a prova de que é possível, fora dos circuitos dominantes do território, manter uma instituição tão importante e memorável”, afirmou.

Para Seguro, a Bienal constitui também uma razão para ter confiança no futuro, destacando o trabalho, a persistência, a paixão, a dedicação e a criatividade das pessoas que contribuíram para a construção do evento ao longo das décadas.

O chefe de Estado destacou ainda a identidade particular de Vila Nova de Cerveira, marcada pela ligação entre o castelo de D. Dinis, a arte, a fronteira e o rio Minho.

“Sabe-se castelo e sabe-se arte. Sabe-se raia e sabe-se ponte”, afirmou, defendendo que esta dupla identidade faz do concelho “um lugar singular no mapa de Portugal”.

«Talvez o papel da arte seja identificar as linguagens do futuro»

António José Seguro defendeu também que a arte pode desempenhar um papel relevante na identificação dos desafios que irão marcar o futuro.

“Talvez o papel da arte seja também o de identificar as linguagens do futuro”, afirmou, ressalvando que tal não significa que a decisão política tenha de seguir os caminhos apontados pelos artistas.

Segundo o Presidente, os responsáveis políticos têm, contudo, “a obrigação de identificar os sinais que a arte transporta nos seus caminhos” e que podem alertar para problemas futuros.

A edição deste ano da Bienal tem como tema “Territórios sem Fronteira”, um conceito que Seguro considerou particularmente relevante num período marcado por conflitos e pelo regresso da discussão sobre as fronteiras.

“Esta não é uma mensagem pessimista, apesar de frequentemente confundirmos pessimismo com a simples abordagem dos problemas, do presente e do futuro”, afirmou.

Presidente alerta para regresso das fronteiras na Europa

Seguro refletiu ainda sobre a evolução da fronteira entre o Minho e a Galiza, que, segundo afirmou, deixou progressivamente de ser uma barreira física para se tornar uma fronteira mental e, posteriormente, uma referência histórica e cultural.

O Presidente destacou a importância das últimas décadas de estabilidade na Europa, assentes na “prosperidade comum, partilha de identidades, diálogo entre memórias e experiências”.

Nesse contexto, considerou a Constituição Europeia um “edifício precioso para a humanidade da viragem do século”.

Contudo, lamentou que os conflitos das primeiras décadas do século XXI tenham obrigado a Europa a voltar a discutir e a reforçar fronteiras.

“Ignorámos, então, que os conflitos deste primeiro quartel do novo século iriam obrigar-nos a rediscutir fronteiras, a mencioná-las e, mais do que isso, a acentuá-las”, afirmou.

Para o chefe de Estado, as guerras atuais “atravessam fronteiras e erigem fronteiras”, transformando-as novamente em “muralhas, em fossos, em abismos”.

Seguro alertou ainda que estes conflitos já não acontecem apenas em regiões distantes, mas também “nos limites da própria Europa”, numa referência à guerra na Ucrânia.