Seguro obrigado a quebrar silencio

Chega e IL pressionam Belém, o PS aperta o cerco a Montenegro, e cresce a suspeita de que Luís Neves saiba mais do que qualquer um gostaria. Só falta ouvir o Presidente da República.
Seguro obrigado a quebrar silencio

O Presidente da República tem de falar, é de um ‘óbvio ululante’. O coro é grego e, se não tem tom de tragédia, tem pelo menos o do drama evidente do Governo, que tem no ministro da Administração Interna, Luís Neves, o mythos, e no primeiro-ministro Luís Montenegro – ou em Hugo Soares, é consoante – a húbris; inevitavelmente, António José Seguro tem de ser a nemesis, tem de falar aos portugueses, que sentem a necessidade de uma catarse, estejam eles na ‘bolha’ ou no país, a assistir perplexos às explicações de um ministro que dá pormenores dispensáveis sobre a sua vida privada, como conduzir um Ford Focus com 15 anos – mas deixa todos inquietos com explicações contraditórias que pedem mais explicações, num emaranhado insustentável para um ministro da Administração Interna.

O SOL falou com várias pessoas próximas do Presidente da República, e se uns dizem que Seguro está a fazer «tudo certinho», ou que «ainda não é o tempo do Presidente para falar», outros, de forma irónica, preferem sublinhar «que é melhor a sua voz não ser confundida com a inteligência presciente da bolha». Mas todos reconhecem que é relevante que o Presidente, eleito com cerca de 70% dos votos, corresponda às expectativas do vasto eleitorado que o colocou em Belém, e publicite que é o mais alto magistrado da Nação, quando a tensão política é um incêndio que ameaça as fronteiras entre os poderes executivo, legislativo e judicial.

«Está a chegar o tempo em que o Presidente da República tem de ter aqui uma palavra, visto que o primeiro-ministro não a quer ter», disse André Ventura, e acrescentou: «Deve estar arrepiado depois de ouvir esta conferência de imprensa» – referia-se à conferência de imprensa de Luís Neves desta quarta-feira. Ventura insiste que não é necessário reunir-se novamente com o primeiro-ministro para «dizer o óbvio», preferindo concentrar a pressão pública diretamente sobre Belém.

Já José Luís Carneiro mantém a pressão sobre Montenegro sem reclamar a intervenção do Presidente. Questionado por nós, o secretário-geral do PS reiterou que o centro da resolução desta crise não passa, pelo menos para já, por Seguro – mas insiste que a conferência de Neves “«não invalida que preste esclarecimentos no coração da democracia, no Parlamento». É agora provável que o PS queira, tanto como o Chega, que o MAI seja ouvido pela Comissão Permanente da Assembleia da República, na próxima semana – até porque alguns socialistas, como Francisco Assis ou Miguel Costa Matos, pediam mais assertividade ao secretário-geral.

O SOL sabe que a reunião entre Montenegro e Carneiro, que decorreu também na tarde de quarta-feira, demorou mais tempo do que o previsto – e não por boas razões. À saída do encontro, e minutos antes da conferência de imprensa de Neves, Carneiro, visivelmente agastado, mudou de tom e passou à crítica, dizendo que Neves é um ministro com a autoridade política «fragilizada». Se pensarmos que Neves é um ministro que muitos consideram mais próximo do PS do que da AD, o que temos é mais do que uma mudança de opinião ou de atitude.

O IL, tal como o Chega, coloca a pressão em Seguro. Mariana Leitão disse ter sido «surreal» a conferência do MAI e considerou que o ministro «não tem sequer adequação para o cargo que ocupa, não tem autoridade, não tem confiança e não tem responsabilidade necessária» – e é o que vai transmitir ao Presidente, com quem vai reunir na próxima segunda-feira.

‘Nervos de aço e gelo nos pulsos’ é o mote por estes dias no Palácio de Belém, também porque o Presidente considera que entre as suas funções «não está alimentar a função tabloide da comunicação», disse ao SOL fonte próxima de Seguro. Ainda assim, o Presidente está a «monitorizar» a situação e a «agir nos bastidores»; é, muito provavelmente, das pessoas mais bem informadas sobre tudo o que envolve o ministro da Administração Interna e a pulverização no Governo. Garantem-nos que em breve veremos os resultados dessas discretas intervenções.

Seguro não é, por carácter e opção deliberada, Marcelo Rebelo de Sousa, e aprendeu com o antecessor como não cair numa ‘armadilha’, dizem-nos ainda. Para ilustrar este argumento, dão-nos o exemplo da crise institucional entre o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, o então primeiro-ministro, António Costa, e o ministro das Infraestruturas, João Galamba, quando Costa deixou Marcelo a falar sozinho – ou melhor, com os jornalistas –, criticando o ministro que o primeiro-ministro manteve, passando um recado claro ao Palácio de Belém sobre quem mandava no Palácio de São Bento e no Governo.

Ainda que haja um outro exemplo na nossa política recente, de um Presidente da República que decidiu que no Governo não mandava ele, mas que podia mandar o Governo embora – foi o caso de Jorge Sampaio e do Governo de Pedro Santana Lopes. Vale ainda dizer que Marcelo foi particularmente vocal nas críticas aos ministros dos governos de Costa. Em contraponto, Aníbal Cavaco Silva, na Presidência, a lidar com José Sócrates como primeiro-ministro, e de quem divergia de forma consistente, nunca criticou publicamente os ministros dos governos de Sócrates.

Dar cavaco a Cavaco

E foi precisamente Cavaco Silva – primeiro-ministro quase uma década, Presidente por dois mandatos, e ‘Papa’ do centro-direita, referência e aval de Montenegro, com um peso que eventualmente ultrapassa o de Passos Coelho, evocado vezes sem conta por ter sido o primeiro a criticar a transição direta de Neves da PJ para o Governo – quem o atual Presidente recebeu em Belém na segunda-feira. O encontro decorreu em «clima de grande cordialidade», com uma «profícua troca de ideias sobre matérias de interesse comum». O almoço integra a iniciativa de Seguro de receber todos os antigos Presidentes; no início do mês, recebeu Ramalho Eanes. Ambos apoiaram Seguro na segunda volta das presidenciais.

Não sabemos se, neste almoço, se falou de Luís Neves, mas podemos incluir «nas matérias de interesse comum» a decência e a sobriedade no exercício do serviço público – e supor que as trapalhadas do atual ministro incomodam tanto um como o outro. Convém recordar como Cavaco lidou com Miguel Cadilhe, seu ministro das Finanças: acusado de usar viaturas da Guarda Fiscal na mudança de casa (foi ilibado), foi exonerado meses depois, por dúvidas quanto ao valor da sisa pago pela compra de um apartamento nas Amoreiras (viria a vencer judicialmente os jornais que noticiaram o caso).

É muito provável, dizem-nos, que Seguro tenha partilhado com Cavaco que a situação de Neves é insustentável, e que conte com o antigo líder do PSD para reforçar essa ideia junto do primeiro-ministro. Cavaco mantém-se ativo no debate público através de artigos de opinião, e ninguém ficaria surpreendido se, um dia destes, se lesse o que pensa sobre a obstinação de Montenegro em manter o ministro.

Seguro não pode demitir ministros – prerrogativa do primeiro-ministro –, mas tem um espaço de atuação considerável: moderação institucional, pressão informal, magistratura de influência. Pode não estar quieto, mas está calado, e esse silêncio tornou-se demasiado ruidoso até para o português comum, fora da ‘bolha’ – ainda mais sabendo-se que Seguro é quase puritano em questões morais e de ética do serviço público.

Por último, fonte próxima do Presidente alertou-nos ainda para a ‘síndrome Pina Manique’ (chamamos-lhe nós), o risco de Montenegro ter no Governo um homem que passou uma vida a investigar o poder dos outros e que, agora, pode não saber devolvê-lo.