terça-feira, 16 jun. 2026

Seguro e Costa, o primeiro encontro em Florença 

Há décadas que uma parte significativa da elite política e académica portuguesa passa por Florença antes de chegar ao poder, às universidades ou aos gabinetes ministeriais.
Seguro e Costa, o primeiro encontro em Florença 

António José Martins. Foi assim que o Presidente da República foi chamado a intervir nas celebrações do 50.º aniversário da criação do Instituto Universitário Europeu (IUE), em Florença. E, tanto quanto se sabe, foi a primeira vez que Seguro e o presidente do Conselho Europeu, António Costa, estiveram fisicamente juntos desde que o antigo líder socialista deu a volta ao resultado e passou de derrotado a candidato presidencial vencedor.

Do que falaram, sabe-se que falaram sobre a Europa. O tema comum à intervenção do Presidente da República, um discurso em português, e à do presidente do Conselho Europeu, uma conversa num inglês possível. Ficamos, porém, pela intervenção de Seguro.

O Presidente aproveitou os 50 anos da instituição para expor o que foi, no essencial, uma visão do mundo — pessoal, mas inevitavelmente política. Disse ter crescido numa Europa onde a paz e a liberdade pareciam adquiridas. Hoje já não parecem. A liberdade, afirmou, "está a ser ameaçada pela força bruta de fora e pela indiferença e pelo cinismo de dentro". E apontou caminhos: a democracia, simultaneamente uma opção ideológica e uma exigência de segurança coletiva; o aprofundamento da integração política europeia, porque "problemas comuns exigem soluções comuns"; a construção de autonomia estratégica nas áreas da defesa, da energia e da economia; e a consolidação de uma cultura política de confiança entre os Estados-membros.

"Patriotismo e nacionalismo não são sinónimos. Amar o país de onde se vem é uma emoção legítima. Transformar esse amor em arma contra os outros é o caminho para o abismo", afirmou, antes de citar um professor de Filosofia do colégio: "O erro é um acidente, a repetição é uma escolha."

Sobre a governação europeia, defendeu o abandono da regra da unanimidade em matérias estratégicas: "Uma Europa de 27 que se move apenas quando há consenso é uma Europa que chega sempre tarde."

Terminou dirigindo-se aos estudantes do IUE: "As ideias que aqui se geram tornam-se políticas em Bruxelas, em Lisboa, em Roma, em Paris, em Berlim, em Varsóvia. O trabalho que aqui fazem importa."

A intelligentsia portuguesa em Florença

Há meio século que o IUE, instalado nas colinas de Fiesole, com vista sobre Florença, acolhe gerações de académicos e políticos europeus — portugueses incluídos.

Dois assessores de António José Seguro passaram pelo IUE. Luís de Sousa doutorou-se em Ciências Políticas e Sociais em 2002, com uma tese sobre políticas públicas de combate à corrupção. Nuno Severiano Teixeira doutorou-se em História das Relações Internacionais, foi ministro da Administração Interna e da Defesa, e regressou a Florença em 2010 como Senior Visiting Fellow.

Mas a lista é longa. Miguel Poiares Maduro doutorou-se em Direito no IUE antes de se tornar ministro-adjunto e do Desenvolvimento Regional de Pedro Passos Coelho e diretor da Escola de Governação Transnacional do próprio instituto. Francisco Bettencourt fez o doutoramento em Florença antes de dirigir a Biblioteca Nacional e o Centro Cultural Gulbenkian, em Paris. Também Diogo Ramada Curto, recentemente falecido, diretor da Biblioteca Nacional entre 2024 e 2026, foi investigador do IUE nos anos 1990.

Filipa Raimundo tem igualmente o percurso académico ligado ao IUE, onde fez o doutoramento em Ciências Políticas e Sociais entre 2007 e 2012. "Na altura, as universidades portuguesas incentivavam fortemente os seus estudantes a fazer parte da sua formação no estrangeiro, num contexto ainda marcado pelas políticas científicas impulsionadas por Mariano Gago, que apostavam na internacionalização com a expectativa de um regresso qualificado ao país", disse-nos a historiadora, acrescentando que Florença é um lugar onde "todos os estudantes são, de alguma forma, estrangeiros — mesmo os italianos raramente são naturais de Florença — e isso cria uma condição comum de chegada que facilita a integração." A experiência gera também uma rede que, para Filipa Raimundo, é "um dos maiores legados" dessa passagem.

José Santana Pereira doutorou-se igualmente em Ciências Políticas e Sociais no IUE em 2012. Hoje professor no ISCTE, disse ao Sol que "muitos desses investigadores regressaram depois a Portugal, trazendo para as universidades portuguesas perfis marcados por uma maior integração em redes científicas internacionais e ajudando a atenuar algum fechamento e provincianismo que durante muito tempo marcaram o sistema universitário português".

Entre os muitos académicos portugueses que passaram pelo instituto, destacou António Costa Pinto, os ex-ministros Helena Carreiras e Pedro Adão e Silva, e, mais recentemente, Jorge Fernandes e Vicente Valentim.

Santana Pereira recorda também o impacto pessoal da passagem por Florença: "O período que passei no IUE foi, sem exagero, um dos mais marcantes e felizes da minha vida. Cheguei a Florença no final de agosto de 2008 para iniciar o doutoramento; tinha então 25 anos." E conclui: "A convivência quotidiana, ao longo de quatro anos, com uma cidade onde arte, história, arquitetura e gastronomia se entrelaçam de forma tão sedutora tornou-me numa pessoa inequivocamente diferente do jovem que saiu de Lisboa para se doutorar no estrangeiro."

Indissociável do ambiente vivido na Badia Fiesolana, sede do IUE — uma autêntica Torre de Babel onde se cruzaram académicos de referência —, está a possibilidade de complementar a formação noutras conceituadas instituições. Foi a partir de Florença que Santana Pereira chegou às universidades norte-americanas de Michigan e Stanford.

O Sol falou também com Luís de Sousa, que escolheu o IUE por "três razões fundamentais". "Em primeiro lugar, a centralidade da missão do Instituto, profundamente alinhada com a ideia de uma Europa construída também pelo conhecimento científico. Em segundo lugar, o prestígio da instituição, refletido num corpo docente de excelência, marcado pela interdisciplinaridade, pelo espírito crítico e pelo respeito pela liberdade de investigação. Em terceiro lugar, a oportunidade de beneficiar de uma bolsa que me permitiu seguir um percurso académico autónomo, com responsabilidade e reconhecimento do investimento público no conhecimento."

Para Luís de Sousa, a presença do Presidente da República nas celebrações do 50.º aniversário do IUE, "a escassos dias da evocação da Declaração Schuman — 9 de maio, Dia da Europa — é politicamente relevante".

E prosseguiu: “É-o para a Europa, num contexto de instabilidade global, de incerteza quanto ao futuro e de crescentes desafios ao projeto europeu, que exigem lideranças capazes de inspirar, unir e defender o chão comum europeu. E é-o também para Portugal, cuja consolidação democrática está intimamente ligada à adesão à comunidade de democracias europeias e cujo percurso de desenvolvimento e bem-estar permanece indissociável desse processo. Esse reconhecimento continua bem presente na sociedade portuguesa. Os dados do Eurobarómetro mostram, de forma consistente, que a perceção dos cidadãos sobre os benefícios da integração europeia tem sido positiva ao longo das últimas décadas, tendo atingido um máximo histórico em 2024. A Europa é, como sublinhou o Presidente da República, 'uma causa que vale a pena defender, aprofundar e, quando necessário, reformar com coragem'. Num tempo de múltiplas transições e desafios, importa que a União Europeia assuma uma posição mais assertiva e coesa, capaz não apenas de responder às crises, mas de liderar a mudança".