terça-feira, 21 jul. 2026

Seguro defende “comunidade atlântica ampla” e parceria com os EUA sem “subserviência nem rutura”

O Presidente da República defendeu a criação de uma “comunidade atlântica ampla” que ligue Europa, Canadá, América Latina e África. António José Seguro apelou também a uma relação renovada com os EUA baseada na reciprocidade e entre parceiros iguais
Seguro defende “comunidade atlântica ampla” e parceria com os EUA sem “subserviência nem rutura”

O Presidente da República defendeu esta segunda-feira a construção de uma “comunidade atlântica ampla” assente em valores e interesses partilhados, considerando que Portugal pode desempenhar um papel estratégico na aproximação entre a Europa, o Canadá, a América Latina e África.

A posição de António José Seguro foi assumida durante a abertura de uma conferência comemorativa do segundo aniversário do canal NOW, em Lisboa, dedicada às relações transatlânticas e às grandes transformações globais.

Segundo o chefe de Estado, a relação transatlântica continua a ser fundamental, mas o olhar sobre o Atlântico não deve centrar-se exclusivamente nos EUA.

“A ambição e a capacidade de construir uma comunidade atlântica ampla, assente em valores e interesses partilhados, é uma das maiores oportunidades estratégicas do presente”, afirmou.

Segundo António José Seguro, Portugal encontra-se numa posição privilegiada para ajudar a fortalecer essa rede de cooperação devido à sua história, geografia e dimensão atlântica.

Relação com os EUA deve assentar na reciprocidade

Apesar de defender uma maior autonomia estratégica europeia, o Presidente da República sublinhou que essa ambição deve ser conciliada com uma relação sólida com os Estados Unidos.

“Uma parceria renovada com os Estados Unidos” é, no seu entender, essencial para enfrentar os desafios internacionais, desde que assente em compromissos entre iguais.

“O relacionamento deve perdurar com lealdade e reciprocidade, sem subserviência nem rutura”, afirmou, acrescentando que a verdadeira amizade entre aliados não exige concordância permanente, mas sim respeito mútuo.

De acordo com a agência Lusa, no discurso, António José Seguro manifestou preocupação com aquilo que considera ser um regresso da política de força nas relações internacionais.

Sem mencionar diretamente todos os países visados, o Presidente apontou exemplos como as ameaças à soberania da Gronelândia, o controlo do Canal do Panamá, a invasão da Ucrânia pela Rússia, a situação na Venezuela e a crescente militarização de territórios disputados no Mar do Sul da China.

O chefe de Estado referiu ainda as guerras comerciais, os conflitos em torno das terras raras, os ciberataques, as chamadas guerras híbridas e a corrida aos recursos espaciais como sinais de uma nova era dominada pelo “hard power”.

Segundo Seguro, estes fenómenos demonstram o reaparecimento de comportamentos típicos de potências que procuram afirmar-se como “países-império”.

Seguro cita Mark Carney e apela à autonomia estratégica europeia

Na intervenção, o Presidente destacou uma recente reflexão do primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, sobre a transformação da ordem mundial, considerando-a uma das mais relevantes produzidas este ano a nível internacional.

Seguro recuperou uma frase do líder canadiano — “o poder dos menos poderosos começa com a honestidade” — para defender que Portugal e a Europa devem posicionar-se nesse espaço de influência e credibilidade.

O Presidente voltou também a insistir na necessidade de reforçar a autonomia estratégica europeia, argumentando que esta não pode ser apenas um conceito político.

Para António José Seguro, a autonomia europeia exige uma política comum de defesa, maior independência energética e tecnológica e instituições capazes de responder aos desafios geopolíticos atuais.

A intervenção surge poucos dias depois de o chefe de Estado ter defendido, nas comemorações do Dia de Portugal, uma relação equilibrada com os aliados e uma visão atlântica mais ampla do papel estratégico de Portugal no mundo.